A Lenda da Mulher Sem Duche

Por Andréa Zamorano

_ Essa noite aconteceu uma coisa esquisita.
_ O quê?
_ Tive a impressão de ver um mulher tomando banho às três da manhã?
_ Como assim?
_ Fiquei com uma daquelas insónias miseráveis que atacam no meio da madrugada. Sabe como é, acordei e já não consegui mais dormir. Fui até na janela da cozinha fumar, a Ana detesta que eu fume dentro de casa, aí aproveitei.
_ Ficou vendo a gostosa?
_ Que gostosa?
_ Você não falou que viu uma mulher tomando banho?
_ Você imaginou que estava lá a Monica Bellucci? Aproveitei foi para fumar sem ter que ir na rua e depois subir quatro andares de escada.
_ Mas e a mulher?
_ Sei lá. Nem prestei muita atenção. Só achei esquisito porque ela estava nua no quintal de madrugada.
_ A gostosa ?
_ Era gorda.

****

_ Depois queixam-se da fama…
_ Quem?
_ Lembras-te daquela vizinha ali do nº10 ? Uma que era muito magrinha, a que se casou com um engenheiro e foi-se embora há uns anos? Pois é, está de volta.
_ O quê? Divorciou-se do marido? Fez ela bem. Nunca fui muito com a cara do sujeito.
_ Continua casada, Judite.
_ Então?
_ Não é que a tipa agora deu de tomar duche no quintal às três da madrugada.
_ Se tivesse quintal também tomava. Ninguém aguenta essa caloraça. Tão bom. Depois a pessoa coloca uma mesinha no exterior, come o pequeno almoço, parece até que está de férias.
_ Nua, Judite.
_ Nua?!
_ Como veio ao mundo.
_ Ao pequeno almoço?
_ Às três da madrugada.
_ Ai valha-me minha Nossa Senhora! Isso não são horas de comer mais nada.

****
_ Não posso!
_ Tou te dizendo.
_ Todas as noites?
_ À mesma hora.
_ Coloca no Youtube
_ Queres dizer no BBC Vida Selvagem.
_ Ainda bem que somos amigas.
_ Só tenho um problema
_ Qual?
_ O título.
_ A Exibicionista da Graça?
_ Ou a Tarada da Madrugada?

****

_ Três da manhã é a hora das assombrações.
_ Minha avó sempre fala isso
_ Se por esses dias começares a ouvir um barulho de água a correr, não olhes pela tua janela
_ Porquê?
_ O fantasma da mulher vai estar lá em baixo.
_ Que fantasma?
_ Dizem que ela foi morta numa noite de verão quando andava pelo quintal. Desde então, nas madrugadas mais quentes o seu espírito regressa para limpar o sangue derramado. Ela lava-se até não ter nenhuma gota de porcaria no corpo .
_ E o que acontece se olharmos para ela?
_ No teu lugar não me arriscava.
_ Já a viste?
_ Porque que achas que durmo com a janela trancada comesse calor todo.

****

_ O empreiteiro disse que aquilo está difícil, precisa de mais três dias.
_ Que chatice! Sabes que podes vir cá a casa quando quiseres. Fica à vontade.
_ Estou há tantos dias nessa situação que virei uma profissional do quintal.
_ Com esse calor até sabe bem um duchezinho com a mangueira. Vestes um maiô e zás!
_ Qual maiô? Às horas que ando tomando banho…
_ E vais nua?
_ Como vim ao mundo.
_ Para deleite da vizinhança.
_ Você acha que alguém vai querer ver esta gorda?
_ Ainda acabas no Youtube.
_ “A Lenda da Mulher sem Duche”
_ Tinha piada
_ Me confundem com uma alma penada, isso sim.
_ Só tu mesmo.
_ Não se preocupe. Às três da madrugada aqui no bairro está tudo dormindo.*

PS: Algumas vidas são uma banalidade, a minha é uma delas. Fiz este pequeno texto na tentativa de sublimar o prosaísmo da última aflição que me acometeu, quinze dias sem duche. Só espero muito honestamente que ao menos as minhas fotografias terminem em um daqueles sites de criaturas estranhas. Ou como diria Saramago, “todos temos a ambição de fazer da literatura vida”.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de setembro de 2018.

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