Abordando a Composição

Foto: Julio Rodriguez

Foto: Julio Rodriguez

Este é um artigo sobre composição musical e como podemos abordá-la e talvez olhá-la de forma mais saudável. Espero que desta forma, possa ajudar outros compositores que estejam na mesma situação em que eu estava quando comecei.

Quando a aventura da composição começou, passei por tempos difíceis. Na verdade, foram tão problemáticos que me faziam não querer voltar a fazê-lo. Um receio profundo apoderava-se de mim sempre que me sentava ao piano e queria compor. Sabia que queria criar e sentia o impulso para o fazer, mas como a preocupação de haver possibilidade da minha abordagem à composição não ser suficientemente boa era enorme, simplesmente estagnei. Sentia-me algo paralizado.

Para perceberem o que estava errado preciso de vos falar um pouco sobre o meu background musical.

O meu percurso

Nasci numa família semi-musical. O meu pai adorava cantar Fado e onde quer que ele o fizesse, toda a gente se rendia à sua voz. Também eu adquiri o gosto pelo canto quando era pequeno. Provavelmente por influência do meu pai. Foi uma paixão que permaneceu até aos dias de hoje.
Aos 10 anos, fui introduzido à flauta e à teoria musical na escola, estudos que demoraram 2 anos. Depois disso passei a minha adolescência a tentar vários outros instrumentos. Escolhia um, começava a ter aulas e eventualmente perdia o interesse, passando para o próximo. No entanto, a certa altura as coisas levaram uma grande reviravolta. Apercebi-me de que se queria ter “sucesso” musical e explorar a minha musicalidade teria de me comprometer a um instrumento. Foi aí que o piano entrou na minha vida. As coisas corriam lindamente, pois tinha o meu gosto pelo canto, agora tinha também o piano e sabia que em breve estaria a fazer a minha própria música. Comecei então a ter aulas de piano e teoria musical numa pequena escola de música onde permaneci 1 ano. Depois disso decidi levar as coisas a outro nível e comecei a estudar no Conservatório de Música, onde fiz mais 3 anos de estudos. Estudei não só piano e teoria musical, mas também canto coral e alguma composição.
Depois desses 3 anos senti um chamamento. Queria ter tempo para tocar o que quisesse no piano (em vez de tocar o que tinha de ser estudado para as aulas de piano) e acima de tudo ter tempo para compor a minha própria música. Queria criar. Queria ter a possibilidade de me expressar musicalmente. Foi então por essa altura que decidi parar os estudos no Conservatório. Sentia que tinha adquirido conhecimentos e ferramentas necessárias para seguir o meu próprio caminho.

Senti o chamamento da composição, em troca também eu a chamei, abracámo-nos. Mas as coisas não chegaram a mim sem um preço e em breve ficaram complicadas.

A luta com a dúvida

Dado o facto de os meus estudos terem sido baseados na música erúdita e devido à minha admiração por compositores de tal categoria musical, cedo fiquei completamente obcecado com a ideia de que tinha de ser o próximo Mozart no que tocava à composição. De que tinha de compor música (ainda que em pequenas porções e gradualmente) primeiramente na minha cabeça, antes sequer de tentar qualquer coisa no piano. Achava que a composição musical era algo que acima de tudo era um processo mental, que era na mente que era construída e como tal nem sequer considerava a hipótese de compor e dar asas à experimentação de sons usando o piano. Se queria, por exemplo, usar um acorde numa das minhas composições, tinha de o ter disponível e conseguir ouvi-lo (todas as suas notas) na minha cabeça e nunca punha a hipótese de em vez disso, experimentar tocar o acorde no piano, escutá-lo, ver se gostava do som por ele produzido e depois escolher usá-lo ou não na minha composição. Achava que tinha de construir harmonia (dois ou mais sons produzidos ao mesmo tempo) inteiramente na minha cabeça e não o conseguia fazer muito bem, especialmente a partir de 3 sons para cima. Sentia-me mal. Sentia que se não conseguia fazer isto então não era um compositor suficientemente bom.

Não tinha quaisquer problemas com melodia e ritmo, pois conseguia ouvir ambas as coisas e criá-las na minha cabeça ou mesmo através do uso do canto, com a minha voz. Ainda hoje é este o método que uso quando se trata destes dois aspectos, que não é certamente O método, apenas o MEU método. Contudo, uma vez que a harmonia é algo muito mais difícil de ouvir mentalmente e um dos grandes pilares no que diz respeito à música, sentia-me angustiado e até mesmo zangado. Se não conseguia compor harmonia mentalmente então não tinha nada que querer ser compositor. Como estava errado…

À procura de respostas

Comecei então à procura de respostas na abordagem à composição de outros compositores, como o Norte-Americano Elliot Sokolov (compositor/produtor) e o Escocês Sandy Kilpatrick (compositor/guitarrista/cantor). Lembrar-me-ei para sempre da resposta do Elliot Sokolov face à minha angústia. Disse-me que ao querer ouvir tudo, cada nota, cada detalhe musical na minha cabeça primeiro, estar-me-ia somente a limitar fortemente. Aprendi grandes lições com ele.

Pouco a pouco comecei a dar-me a liberdade de, em alternativa, experimentar sons no piano, especialmente no que toca à harmonia. Em breve estava a experimentar acordes e intervalos harmónicos sem querer ouvi-los antes na minha cabeça.
Cheguei à conclusão de que o que verdadeiramente importa na composição é que a façamos, que lhe demos vida, e não COMO a fazemos. Não interessa se a composição chega a nós de forma mental; através da improvisação ou ainda através de brincar e experimentar sons num instrumento, pois o que importa ultimamente é que lhe demos vida, que a façamos nascer e não tanto como chegámos ao hospital, por falta de melhor analogia.

Olho agora para a composição um pouco como construir uma casa e especialmente decorá-la. Às vezes temos as ideias na nossa cabeça, outras vezes temos mesmo de experimentá-las (como por exemplo as cores das paredes da sala de estar), olhar para elas, ver se gostamos e depois optar por essa cor ou tentar uma outra.

Sei agora, não só por experiência própria mas também através de experiências de outros compositores (mais uma vez uma conversa com Sandy Kilpatrick e a sua excelente abordagem à composição vem à cabeça) que não há uma maneira certa ou apropriada para compor. Apesar de a composição ser uma matéria que possa ser estudada e que nos dará algumas diretrizes que poderão ser usadas ou não e apesar do facto de saber teoria musical nos ajudar com a composição, tais coisas não são certamente necessárias e fulcráis. São apenas ferramentas para nos ajudar. Não é delas nem através delas que a música vive ou é criada. A música é arte e a arte é livre. Quando nos começamos a acorrentar ao chão com todo o tipo de preocupações estamo-nos já também a prejudicar.

Notas finais

Alguns de nós estudaram música e a sua teoria. Alguns de nós não. Alguns de nós estudaram até composição musical. Outros não. Alguns de nós compõem livremente quando nos sentamos com o nosso instrumento e experimentamos sons aleatoriamente. Alguns de nós não. Alguns de nós compõem cantando notas com a própria voz ou na nossa cabeça e depois passando as mesmas para o instrumento. Alguns não.

É tudo o mesmo, porque ao fim do dia o que realmente importa é que criámos arte. Um compositor tem tanto direito a compor como o próximo, independentemente de usarem abordagens diferentes. Pensando seriamente no assunto, serão estas abordagens assim tão diferentes umas das outras? É a composição através de tocar e experimentar sons aleatoriamente num instrumento assim tão diferente da composição feita mentalmente? Não me parece. Mesmo se compusermos mentalmente não temos também de experimentar e “brincar” com os sons na nossa cabeça? Não vem a grande maioria deles à mesma de forma aleatória também? A única diferença reside então na habilidade de ouvir harmonia mentalmente e no facto de apenas uma ridícula percentagem de compositores conseguirem fazê-lo bem e outros compositores não e daí os últimos necessitarem de recorrer a um instrumento de forma a resolver o problema, o que é perfeitamente legítimo. Não nos diz isto que ambas as abordagens são na verdade bem parecidas? Estamos apenas a usar diferentes plataformas.

Dito isto, componham música sem receios e divirtam-se enquanto o fazem também.

Por Diogo Miguel

– Para mais informação sobre o Diogo Miguel e do processo de composição do seu primeiro disco podem ir a http://diogomiguel.com/
– Para explorarem a música de Sandy Kilpatrick visitem http://www.sandykilpatrick.com/
– Para a música de Elliot Sokolov visitem http://www.elliotsokolov.com/

Comments

  1. Bom artigo !

    Adiciono mais dois tipos de composição: um deles é composição baseada em “chance methods”, popularizado por Cage e até usado por produtores como o Brian Eno (pesquisar Oblique Strategies).

    Outro eu chamo de montagem – escuta que é possivel com um computador. Basicamente é criar, montar, ouvir, analisar e voltar ao primeiro passo de novo. Enquanto na composição por pauta ou num instrumento estamos sempre activamente ligados a um processo fisico ou mental, com um computador o processo é mais lúdico e passivo o que permite as vezes ter outro tipo de distanciamento com a obra a ser criada.

    Pessoalmente acabo por compor de diferentes formas, em pauta, na cabeça, no papel, com diagramas, em instrumentos, no computador.

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