Ana Pais (Projecto P!) – Entrevista

O Projecto P! promove um programa de pensamento crítico e de curadoria a partir da questão: como constrói, recria e participa a performance arte na esfera pública? À volta deste tema vão acontecer vários eventos, tais como uma conferência, uma desconferência, debates, o lançamento de um livro e, claro, performances. Conversámos com Ana Pais, curadora deste projecto, para saber um pouco mais.

Qual a importância de Almada Negreiros na cena da performance em Portugal?
É justamente esta pergunta que gostaríamos que se pudesse vir esclarecendo, com investigadores, artistas e público, ao longo da semana de conferências e programação do P!. Ainda não há investigação aprofundada sobre a faceta de performer do Almada. O exercício que o P! propõe é tomar a célebre tese da historiadora Roselee Goldberg, que defende as acções performativas do futurismo e do dadaísmo como o gesto inaugural da performance arte, e tentar perceber se ela faz sentido no caso português. O debate dedicado à conferência futurista (dia 11, Casa Fernando Pessoa) é talvez o momento em que esperamos poder a discutir com mais profundidade esta questão, já que teremos à conversa um mix de olhares único com investigadores de áreas diferentes desde a Mariana Pinto dos Santos (história de arte), à Sandra Guerreiro Dias (literatura), ao Fernando Rosa Dias (artes visuais) à Sílvia Laureano Costa (literatura /teatro).

O que esteve na origem da ideia para realizar o “Projecto P!”?
As comemorações dos centenários futuristas começaram a aparecer em 2009, com o centenário do manifesto futurista de Marinetti. Nesse ano, por exemplo, a Bienal Performa, em Nova Iorque foi dedicada a rever o futurismo através da performance, numa edição intitulada “Back to the Future”. Desde então foram sendo também organizadas conferências, como a do centenário do Orpheu em Portugal assim como publicadas várias obras sobre o movimento em vários países, sobre o próprio movimento, repensando-o e revendo o modo como a sua história foi contada.
O centenário da conferência futurista de Almada Negreiros pareceu-me um óptimo pretexto para olhar para a performance arte portuguesa na sua especificidade e questionar se realmente aquela constituiria o marco inaugural desta. Pessoalmente, interessa-me fazer com que a investigação académica possa chegar a uma comunidade mais vasta e criar um projecto com estas características foi uma das formas de contribuir para este objectivo.

O que esperar em termos de conferências e debates?
Troca de ideias e perspectivas sobre estes temas de forma dinâmica, que envolva o público. Quer o modelo da conferência / desconferência quer o dos debates (com um dinamizador, não um moderador) foram pensadas para criar mesmo uma espécie de esfera pública de discussão durante as iniciativas. A conferência foi pensada como um momento inspirador de uma conversa que se prolongará e desdobrará ao longo de toda a semana, pelos debates na Casa Fernando Pessoa e no Polo das Gaivotas. A ideia foi a de juntar pessoas de áreas diferentes para discutir assuntos comuns.

O livro “Performance na Esfera Pública” vai ser lançado dia 10. Como foi coordenar esta edição?
Foi uma grande trabalheira!…A grande particularidade deste livro é reunir ensaios e páginas de artistas sobre participação da performance na esfera pública, num total de 23 autores.  Na sequência de um open call lançado em Outubro de 2015, reunimos algumas dessas propostas bem com convidámos autores portugueses e estrangeiros a colaborar. No caso dos teóricos estrangeiros, como Claire Bishop, Bojana Cvejic e Ana Vujanovic, a vontade de disponibilizar em língua portuguesa textos cruciais para o debate actual deste tema foi o critério principal da selecção. Simultaneamente, tentou-se tocar nos momentos-chave da história da performance arte portuguesa, salientando o contexto político e social da sua emergência, bem como nas diferentes disciplinas artísticas em que ela se manifesta a fim de oferecer elementos para pensar essa história intermitente dentro de um quadro conceptual internacional.

Que mais destacas do evento?
O cariz comemorativo que acompanha a reflexão é um aspecto importante do evento. Celebramos o futurismo como proto-performance de duas formas: com música e festa. No concerto Intonarumori, no Teatro Maria Matos, celebramos as máquinas do barulho de Luigi Russolo, reconstruídas pelo maestro Luciano Chessa, através de peças criadas para o efeito por compositores contemporâneos. No dia 14, o Teatro São Luiz vai ser literalmente ocupado por 14 reinvenções da conferência futurista durante mais de três horas, isto é, vai ser ocupado por criadores de diferentes disciplinas artística e diferentes gerações que apresentam o seu statement actual do que é preciso mudar em Portugal, tal como há 100 anos, Almada lançava o repto às gerações portuguesas do século XX para mudar. A festa está marcada simbolicamente para as 5h da tarde, hora a que foi anunciada a conferência futurista há 100 anos.

O que é que a performance traz de único enquanto objecto artístico?
A performance tem a capacidade camaleónica de poder agir através do gesto, da potência do fazer, que por vezes parece quase nada. O seu formato aberto, auto-reflexivo e provocador é uma estratégia que se tem disseminado por outras artes. Mas é ainda o desafio de potenciar encontros com o outro e criar experiências de mundo destabilizadoras, estranhas e desagregadoras de valores culturalmente transmitidos e, através destas, rever a nossa forma de sentir e de estar no mundo, que considero a base do seu potencial político único.

Quais os momentos mais marcantes da performance em Portugal?
Para mim, são três: os anos 10 (com Almada e Santa Rita Pintor), os anos 60/70 e os 90/2000. Achei curioso que esses momentos estivessem ligados a configurações de mudança política e social do país (instauração da República, Revolução dos Cravos, adesão à CE) e que ocorressem em diferentes artes (poesia, música, artes visuais, artes performativas). Depois da conferência futurista, só nos anos 60/70, as artes plásticas, a música e a poesia experimentais participam no processo revolucionário do 25 de Abril com acções e happenings. Subsequente à entrada de Portugal na Comunidade Europeia, a partir dos anos 90, a performance manifesta-se no teatro e na dança, num período de vitalidade que enfraqueceria aos primeiros sinais da crise financeira mundial de 2008.
Pareceu-me pertinente questionar qual o seu papel na construção, subversão ou participação na esfera pública desses respectivos momentos o que nos permite, por um lado, equacionar a força mobilizadora da performance arte nos diferentes momentos socioeconómicos de emergência e, por outro lado, pensar a forma como cada campo artístico activa uma participação específica na esfera pública, por via da performance.

Consulta aqui o programa

Foto: Filipe dos Santos Barrocas

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