Arquitectura, a arte-mãe da beleza artística

“The mother art is architecture. Without an architecture of our own we have no soul of our own civilization” ~Frank Lloyd Wright

Testes-150-500_65A arquitetura constrói-se pela emoção. Esta não é uma definição no sentido estrito da palavra, no entanto, serve para mostrar que a arquitetura é mais do que mera edificação. A arquitetura é a expressão, é a forma concreta de um ideal. Não é em vão que, em pleno remanescer do mundo clássico, os gregos chamaram aos mestres-de-obras “Arkhtékton”, seja “Arqui-criador”. Vanguardistas, foram provavelmente os primeiros grandes apreciadores da arquitectura como símbolo de comunidade, considerando-a como mãe das artes plásticas e de todas aquelas que se desenvolviam a partir dela.

Não será também exagerado acreditar que a arquitectura é uma das necessidades básicas na cultura piramidal humana. Desde a Pré-História que o Homem procura a sua terceira pele, aquela que separa a sua integridade do meio ambiente. Logo a seguir às vestes que ostenta, a construção de abrigo sempre surgiu como forma não só de protecção como de delimitação física de território e de jactância de poder. De forma a suprir as suas necessidades, o ser-humano foi-se sempre modificando e inventando novas maneiras de viver, procurando não só a sua satisfação pessoal como uma forma de atingir um sistema que satisfizesse toda a Humanidade. Estes sistemas são formados por relações sociais, modo de produção, cultura e por todos os fenómenos com a capacidade de moldar sociedade. Assim, poder-se-á dizer que esse conjunto de organizações se representa na e através da arquitectura de uma determinada época na medida em que também esta faz parte da cultura do sistema.

Sensibilidade estética

Não obstante, ao longo da História, a arquitectura desenvolveu-se sempre tendo em conta os mesmos princípios e sinónimos, evoluindo, no entanto, com o objectivo de, e de forma cada vez mais incisiva, despertar sensibilidades estéticas e manipular todas as propriedades físicas de um espaço, apurando-o. É desde tempos imemoriais que o Homem sente a necessidade de se expressar em música, dança e hieróglifos que, devido à sua divergência foram, de forma gradual, traduzindo-se em literatura e pintura. Escrever é, aliás, o resultado do desejo supremo de gravar acções, tornando-as imortais. A arquitectura afirmou-se como elo de ligação entre o Homem e a sua existência terrena, surgindo primeiramente numa base unifamiliar e apresentando-se na sua forma mais elementar pela sobreposição de dois prumos verticais unidos por um lintel horizontal, o suficiente para o Homem pré-Histórico ser dono do seu próprio espaço. Tal como o poeta escolhe cada palavra, o arquitecto utiliza símbolos reflectores da sua cultura que transmitem a sua visão do mundo. A arquitectura constrói-se em si mesma e em conjunto, recolhendo para si todos os cambiantes artísticos que fazem dela suporte e farol das artes.

MonserrateSubjectividade e conversão no mundo artístico

Será nesse fundamento que, sendo a música puramente tempo e a arquitectura puramente espaço, se poderão os dois converter um para o outro? A música é expressa por meio de intervalos de tempo e harmonia, podendo com sucesso, ser traduzida em intervalos correspondentes na arquitectura através do jogo entre vazio e cheio, altura e largura. Estas duas artes tocam-se na subjectividade, na dimensão da sua abstracção, na forma como, com uma linguagem simples e universal, tocam a alma do ouvinte. Ambas têm o poder de nos fazer viver dentro de nós mesmos, alcançando a expressão estética só na reconciliação e preenchimento de conflitos e requisitos práticos. A arquitectura é o must das artes plásticas, a mais nobre das artes úteis, a arte que procura harmonizar-se nas formalidades de utilidade e beleza, recaindo, naturalmente, entre duas divisões principais, a material e a estética, sendo que é nas necessidades materiais do Homem que se encontra a função expressa no edifício. A incorporação de propósito ou expressividade funcional é, então, de vital importância em cada um dos edifícios que constam da verdadeira arquitectura. Apesar da concepção dita popular para a arquitectura seja a de mera construção e protecção, nada está mais longe da verdade já que arquitectura não é arquitectura sem beleza. Já na Civilização Egípcia as pirâmides continham expressão artística tanto nos seus túmulos colossais como nas pirâmides, reflectindo o seu espirito de grandiosidade e poder. O tempo grego reflectia-se da mesma forma tanto na sua contenção como nas proporções perfeitas e detalhes de perfeição insuperável, fazendo alegoria à cultura dos seus deuses construtores. Aliás, Ruskin afirmou isso mesmo: “Quando iremos confessar que aprendemos mais da Grécia através dos elementos desintegrados da arquitectura em forma de escultura?”. Já a expressão do edifício tipicamente romano é agressivo mas não convincente. A título de exemplo, o Arco de Constantino é esplendido mas não bonito, isto é, foi expresso em termos tão simples e sinceros como nas pirâmides egípcias e nos templos gregos mas perde-se pela sua grandeza, esconde-se no seu excessivo ornamento aplicado sem sentimento ou função. As colunas são supérfluas na justificação da sua existência enquanto elemento funcional mas são, claramente legitimadas nas suas características puramente decorativas. Não há dúvida quanto à procura ininterrupta de beleza e de ânsia pelo alcance da sua perfeição. No entanto, a sua realização foi sempre involuntária, um corolário de esforço para expressar a verdade.

Arquitectura (des)encontrada nas artes

A beleza artística depende da inteligência humana que, de forma não consciente sobre o seu desfecho, cria obra e o observador contempla. Curiosamente apesar de arquitectura, escultura e pintura se pertencerem, se viverem e experienciarem conjuntamente no encontro admirável que tiveram em várias épocas históricas tanto no Oriente como no Ocidente e concretamente no Gótico Europeu, no Renascimento e de forma espectacular no Barroco, a verdade é que com a ascensão da classe mercantil no século XIX, estas começaram a perder a sua interdependência, separando-se mas nunca se esquecendo. No entanto, talvez este divórcio tenha permitido uma influência conjunta de uma forma como nunca tinha acontecido até ao século XX: o encontro de pinturas e esculturas com uma influência directa no projecto arquitectónico. Foi como se a sua independência lhes desse uma paridade intelectual e artística, permitindo tanto a arquitectos como a artistas, beber-se sem compromisso e possibilitar a adopção de métodos de trabalho comuns. A arquitectura é a arte que, no seu sentido mais amplo procura, de uma só vez, satisfazer todas as necessidades práticas e estéticas do Homem. Já a arte no seu sentido concreto é auxiliar da arquitectura, auxiliando o Homem a relacionar-se com o mundo e constituindo espaço presencial sempre com a necessidade de se manter a eficiência técnica e de se retomar a simplicidade para que a invenção não atrapalhe a convenção. A arquitectura é o papel de todas as coisas.

Artigo por  Mariana Sobrado de Figueiredo

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