As gavetas de José Mário Branco

O que guardamos de um criador para além do resultado mais visível daquilo que cria?

À margem de livros, quadros, discos, coreografias, há outros objectos, fragmentos e elementos documentais que concorrem para o que viremos a conhecer como a obra de alguém e que, muitas vezes, são tão inacessíveis ao público como os processos mentais que originaram determinada criação. Há excepções, sob a forma de acervos ou espólios devidamente catalogados, muitas vezes guardados em fundações ou arquivos, que preservam esses testemunhos e os disponibilizam junto de investigadores e académicos, mas é pouco frequente que esses fundos documentais estejam acessíveis a qualquer pessoa que tenha curiosidade em conhecê-los.

Nome fundamental da música e da cultura portuguesas a partir da segunda metade do século XX, José Mário Branco tem discografia extensa, em nome próprio e com trabalhos de autoria colectiva. Álbuns como Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, Margem de Certa Maneira ou FMI acompanharam momentos muito intensos da história contemporânea portuguesa, da luta contra o fascismo aos anos quentes do início da democracia, e o passar do tempo confirmou esses e outros discos com a assinatura do autor como elementos fundamentais da cultura portuguesa de décadas recentes, quer no cânone musical, quer na memória colectiva. Agora, o Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), organismo que integra a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dá um passo importante em direcção a uma maior apropriação colectiva desse património criado por José Mário Branco. Em parceria com o próprio músico, o CESEM criou um arquivo on-line que disponibiliza partituras, correspondência, anotações, fotografias e inúmeros outros documentos que permitem conhecer de outro modo o trabalho de José Mário Branco.

Para além da documentação associada aos discos assinados pelo músico, a solo ou em colectivo (como os do Grupo de Acção Cultural), deambular pelo Arquivo José Mário Branco permite conhecer ou redescobrir as inúmeras colaborações que o autor desenvolveu com outros músicos, tantas vezes como produtor, bem como os trabalhos feitos para televisão, cinema ou teatro. Partituras criadas para a peça Galileu Galileu, de Bertold Brecht, encenada por Carlos Avilez para o Teatro Experimental de Cascais, em 1986, para o filme Agosto, de Jorge Silva Melo, estreado em 1991, ou apresentadas no programa televisivo Notas Soltas, de 1984. Fotografias dos espectáculos realizados em 2001, com João Lóio, Regina Castro e Manuela de Freitas. Alinhamentos de concertos, horários de entrevistas, correspondência sobre projectos e espectáculos. E depois há as letras das canções, as que José Mário Branco gravou e as que criou para outros, tantos, bem como o alinhamento completo dos álbuns. Organizados por tipologia das fontes e pelas entradas que ajudam a estruturar o acervo (álbuns espectáculos, teatro, cinema, rádio, etc), os documentos permitem uma navegação intuitiva, mas igualmente uma pesquisa detalhada em função de interesses concretos.

Cumpre-se, deste modo, a intenção de disponibilizar o acervo de José Mário Branco para quem queira estudá-lo, ou estudar, através dele, aspectos concretos da história contemporânea portuguesa, mas também para quem pretenda deambular sem destino certo, respigando imagens, pautas, informações avulsas sobre o trabalho do autor. Foi esse o acordo firmado entre José Mário Branco e o CESEM, devidamente explicado na apresentação do site que alberga este arquivo: «No final do processo, foi acordado que estes materiais digitais, coerentemente organizados, seriam inseridos numa base de dados própria, para livre consulta em linha, concebida como instrumento auxiliar para o estudo, divulgação e reapropriação social da sua obra.» Reapropriemo-nos, então.

http://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de junho de 2018.

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