Boca A Boca – Palavras electromagnéticas

Refugio

Foto de Otávio Dantas

Por Patrícia Portela

IRMÃ – Pai, você está mais magro.
PAI – É. Comprei um carro também.
IRMÃ – Sério?
PAI – É.
ELA – Então. Deixa eu falar.
in Refúgio, de Alexandre Dal Farra

Em cena paredes, talvez um labirinto, uma mesa, cadeiras. E pessoas que falam ininterruptamente sobre algo que parecem saber o que é mas que não conseguem nomear e que (talvez por isso) desaparecem. Uma mulher tenta perceber porquê. E depois um homem. E talvez mais alguém. Mas nada é esclarecido, só amplificado.  A dúvida instala-se, o medo entranha-se, a desconfiança impera, os diálogos, surdos, endurecem.

Refúgio poderia ser de Harold Pinter, se fosse sobre um casamento destroçado (que também é). Poderia ser de Tchekov, se não fosse um duelo onde logo ao terceiro passo o autor larga a arma e aceita a morte que, sabe, não chegará, porque na plateia ninguém tem munições. Poderia ser do meu adorado Daniil Kharms (e quase é!) se não fosse obscena a ideia de alguém escrever hoje no Brasil como um vanguardista russo dos anos 30 que morreu à míngua na Sibéria por escrever sem sentido (e estou a citar um relatório da polícia secreta). Poderia ser de Beckett se fosse absurdo, mas seria leviano chamar de absurdo o óbvio, o que se reconhece, o que se presencia todos os dias, o que também nós já dissemos e fizemos, o que também já nos aconteceu. Uma e outra vez. Poderia ser de Brecht mas não há distância absolutamente nenhuma entre nós e eles (quem e onde estão eles? Quem são? Há eles?), não se consegue medir um milímetro entre as palavras e as acções, entre o mundo lá fora (e digo, fora, tipo fora mesmo, no estrangeiro, na estratosfera, noutra galáxia) e o universo de cá de dentro, dos mal-estares, dos órgãos, das vísceras, das moléculas e dos batimentos cardíacos.

Quando se lê a peça de Dal Farra, as suas palavras parecem querer denunciar algo escondido, algo que só ele parece ver no nosso quotidiano através da sua sofisticada máquina cerebral de raios X, atravessando o chumbo, os calos das nossas desavenças diárias e revelando os tumores, as úlceras, mas também a circulação sanguínea que teima em não parar, os pulmões que ainda respiram mas não muito, e os (maus?) fígados. Dal Farra apresenta-nos por escrito uma tradução da sociedade actual para lá do nevoeiro do protesto e da resignação, com uma profunda tristeza que se recusa a ser cínica, e um optimismo que se redesenha a cada parágrafo para não ceder à crença. Mas tudo isto só acontece quando se lê Dal Farra, o escritor. Quando se lê o autor, é uma voz única a voz que lemos, e essa, que é a dele, somos nós, só os outros desaparecem, só os outros se vão embora, enquanto nós, ele e eu, no epicentro desconjuntado mas estóico do nosso próprio mundinho (que sobe do umbigo até à aorta e pouco mais), resistimos, hirtos, à falta de mais espaço ou de um truque de magia melhor que nos faça evaporar de repente num parto sem dor ou atravessar para um universo paralelo.

A mesma peça, com as mesmas palavras, transposta para palco, torna-se assustadoramente real. Vemos e ouvimos o que nenhum dos actores diz. Ficamos ali, especados, sem saída. Porque na prática ninguém sabe onde é a escada de incêndio mas também ninguém quer mesmo sair daqui, deste beco, deste seu, ainda assim, chão; mesmo sabendo que não é nada de jeito, que não vale muito a pena, que não vale nem a rendição, que não vale fazer drama, que não vale. E que ninguém dá por nada.

Se Dal Farra é contundente por escrito, é absolutamente cruel quando dito. Como se ele não fizesse uma edição ao que pensa antes de abrir a boca e cortasse tudo o que estava pensado para ser dito ou escrito a seguir.

Cansado de falar, Dal Farra pousa as palavras no chão e continua a falar. Connosco. Com ele próprio. Para quem? Em Refúgio, a sua última peça de teatro que assina como dramaturgo e como encenador (e agora de novo em cena em São Paulo), a linguagem já não dá mais conta do que queremos ou somos, rebobina-se em falso. Como se só nos fosse possível ouvir, ser aquele ruído da agulha cheia de cotão que risca, em loop, a última faixa do vinil que só toca porque alguém se esqueceu de desligar o gira-discos e adormeceu.

Num cenário destes não é o absurdo que impera, nem é o cenário de pré-pós-em-guerra: é algo que se poderia intitular de forma muito específica e detalhada (científica?) de “UMA-OUTRA-COISA”. Uma-Outra-Coisa que veio para ficar e que não podemos descartar. Nem revelar. Nem apontar. Nem decifrar. Nem fingir que não está ali. Porque o elefante na sala, afinal, somos nós. O resto… não fazemos ideia do que é.

Num país do tamanho de um continente onde as campanhas eleitorais prendem heróis como se fossem criminosos e esfaqueiam mafiosos como se fossem mártires, num verão onde se queima em simultâneo um passado e um futuro e o relatório da hecatombe culpa os reservatórios vazios, num tempo que ainda tem um lado de lá e um lado de cá de um Atlântico que, cheio de água, assiste à combustão lenta a fumar um cigarro, Refúgio é uma declaração de amor retorcida à única possibilidade salvífica de incompreensão oferecida a conta gotas em contínuos bluffs. São essas pequenas mentiras que nos permitem avançar no dia-a-dia sem nos eclipsarmos por completo. Porque ainda há a barata. Ainda há a festa de anos. Ainda há o carro. O almoço com o ex. Ainda há.

Com um abraço amigo a todos os parceiros artísticos do mesmo Atlântico,
Patrícia Portela

Banda Sonora: Farto de voar, Sérgio Godinho

Refúgio

Texto e direção: Alexandre Dal Farra.
Elenco: Fabiana Gugli, Marat Descartes André Capuano, Carla Zanini e Clayton Mariano.
Cenário e desenho de luz: Marisa Bentivegna.
Operação de Luz: Raquel Balekian
Música e desenho de som: Miguel Caldas.
Operação de som: Tomé de Souza.
Cenotécnica: Rogério Santos
Figurino: Eduardo Climachauska
Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli.
Direção de Produção: Palipalan Arte e Cultura

Teatro Sérgio Cardoso, sala Paschoal Carlos Magno | São Paulo, Brasil

12 de setembro a 3 de outubro 2018 Terças e quartas, às 19h30 | Duração: 80 minutos | Classificação etária: 14 anos | Ingressos: R$50 (inteira) e R$25 (meia)

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