Boca a Boca – Discos pedidos

João Fiadeiro

Por Patrícia Portela

Cada ano começa pelo menos duas vezes. Uma em janeiro, quando se comem passas e se pedem desejos, se salta de cadeiras com o pé direito e se abraçam os entes queridos prometendo que a partir de agora tudo vai ser melhor e sem mais um mal entendido.

A outra em setembro, quando as escolas, os teatros, as editoras, os cinemas, as galerias abrem as portas com novas performances, filmes, livros que, (quem sabe?) cedo farão parte dos grandes momentos das nossas vidas.

Porque não pedir desejos para este segundo começo?

Eu quero:

Ver a Vera Mantero transformada em coisa misteriosa a ensinar-me que uma mulher não tem norma nem é artista profissional, é sempre uma Olímpia de uma beleza atroz;

Ver o João Fiadeiro a voar em palco como só ele sabe para depois cair com todo o estrondo como só quem é real, é tempo, é uma ideia tornada corpo, um corpo-tornado que é uma ideia;

Ver o Paulo Ribeiro a dançar com um cão, com outro homem, com um candeeiro do Tati e a deitar-se no chão para ser um micróbio.

Ter dúvidas com a Clara Andermatt ao som de músicos ao colo de bailarinos que desafiam a gravidade;

Ter o Cão Solteiro em cena um ano inteiro e ir lá todas as sextas feiras;

Ouvir o Paulo Afonso a dizer o Hamlet Machine num corredor de um edifício a cair na Rua dos Caetanos, a Fernanda Montenegro a dizer Adélia Prado enquanto ajeita o soutien, a Maria João Luís a declamar Uma Conspiração de Estúpidos;

O Anton Skrzypiciel! Quero o Anton Skrzypiciel! Quero o Anton Skrzypiciel! O actor-vulcão-bailarino-criador-mergulhador que quase perdemos no tsunami;

Dedicar-me à Lúcia debaixo de um chuveiro, sair a correr para rifar o meu coração no ombro da Mónica Calle com uma bifana na mão;

Votar no Mário Viegas já em outubro;

Confessar ao André e. Teodósio que sempre estive apaixonada por ele e embaraçá-lo em praça pública com versos de Kavafys.

Conversar com a Maria do Céu Guerra sobre o Laurence Olivier e perceber que é de gratidão que se faz a transfusão de sangue de um espectáculo;

Ter uma obra do João Tabarra na parede do meu quarto (mas não cabe!), encantar-me com as máquinas do Alexandre Estrela, beber Terras do pó em Paço de Arcos com Mahsa Mohebali e Isabela Figueiredo (que belo serão de musas daria!);

Ouvir Tom Waits ao vivo, e Sérgio Godinho, e Aretha Franklin e Chico Buarque com todas as suas Caravanas cheias de maridos a deixar mulheres e filhos, e mulheres a deixar homens e filhos, e homens a deixar homens e mulheres a deixar mulheres, e uns a encontrarem outros, a desencontrarem outros, a fazerem bem e mal a tantos outros, porque o amor não tem género e é uma chatice, um vinil raro que risca com facilidade.

Quero ouvir o Miguel Cardoso a cantar Zeca Afonso como se estivesse a ler um poema seu, o Miguel Martins a dizer o Cotão de cor, o Miguel Moreira a fazer o que ele quiser como ele quiser, mesmo! Sim, os Miguéis são os maiores! E quero esquecer-me das Servidões do Herberto Hélder se não nunca mais escrevo!

E quero com todos eles declarar morte aos Dantas! Aos nacionais e aos estrangeiros porque são todos um perigo global e disfarçam-se de gente como nós, mas morrem com um simples pim.

E com tudo isto juntar-me

ao Brasil que canta até furar os tímpanos de Temer;

à marcha boliviana que acaba com a privatização da água;

à dança da chuva que fará parar as tempestades militares,

ao teatro de Hamlet que denuncia os homicidas,

aos minutos de silêncio pelos mortos, pelos feridos, pelos deslocados, pelos desaparecidos…

Quero ser o espectador de todas as vozes, de todas as diferenças, a testemunha que faz aumentar o volume de cada grito.

Patrícia Portela
Patrícia Portela nasceu em 1974. Vive entre Lisboa e Antuérpia. Escreve para vários formatos. http://www.patriciaportela.pt/

Comments

  1. Dolores de Matos says:

    wahahaha! Muito bom!

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