Boca a Boca – Há pós-modernidade onde há dor? Haris Pašović e Frank Zappa

Haris Pašović

Há pós-modernidade onde há dor? Haris Pašović e Frank Zappa,
Ou
Did anybody cry?

Por Patrícia Portela

Eu não sei bem a história toda porque sou só mais um peão do seu labiríntico tabuleiro. Mas sei que o ano era o de 96.

Sei que tinha chegado há pouco a Utrecht para viver, estudar e trabalhar pela primeira vez sozinha. Sei que tinha pouco mais de 20 anos, o chão da sala onde estava tinha praí uns 200 e a carpete persa onde atuavam os músicos e atores da peça uns 500 e era o único adereço para além dos seus instrumentos musicais. O bar era improvisado, vendia cerveja e vinho em copo de plástico por menos de um florim e as cadeiras emprestadas não eram mais de 50 e todas de plástico. Lembro-me de um piano, de um microfone, um guitarrista, um baixista, talvez e também, um saxofonista em cena, mas não sei bem ao certo. O provável vocalista contava as histórias, intercalava-as com momentos musicais enquanto o baixista e o baterista acompanhavam com segundas e terceiras vozes.

Eu tinha uma ideia muito longínqua e distorcida do que era ou poderia ser uma Europa continental, uma imagem muito alimentada a literatura francesa do século XIX, alguns jornais locais e pouca experiência geográfica ou pessoal.

Ele, Haris Pašović, com pouco mais de 30 anos, era um encenador, ou produtor, ou autor, ou simplesmente o encorajador desta e doutras peças, um artista multidisciplinar e director do então MES, Festival Internacional de Teatro de Sarajevo, aquela que em tempos fora a capital da antiga Jugoslávia e de onde ele e a sua companhia não saíam há mais de 1425 dias de cerco. As fronteiras voltaram a fechar por breves dias e, sem poderem regressar de imediato à terra natal, Pamela Howard, diretora do então magnífico Masters of Art in Scenography lecionado na Grã Bretanha (na Central St Martins College of Art) e na Holanda em parceria com Henny Dörr (Utrecht Faculty of Theatre) ofereceu-lhes guarida em troca do que melhor sabiam fazer: espetáculos.

Foi neste preciso momento que os nossos percursos tão díspares se cruzaram de uma forma inacreditavelmente breve, radical e duradoura.

E ao som de Frank Zappa.

Frank Zappa

 

Entre programas de festivais antigos e traduções de algumas peças que se vendiam na entrada, encontrei um guia alternativo e pseudo-Michelin de Sarajevo, uma paródia trágica de pedras na mão sobre como sobreviver numa cidade cercada escolhendo os mais turísticos itinerários para fazer jogging enquanto se vai buscar água potável a sete quilómetros de distância todos os dias, como aquecer uma casa sem vidros nas janelas ou fazer um repasto gourmet com dois ovos e um punhado de arroz. Folheei algumas páginas com o horror de uma miúda que crescera de costas voltadas para Espanha, com uma família de emigrantes espalhada para lá dos Atlânticos e dos Pacíficos e que percebe, pela primeira vez, que a Europa em guerra é uma coisa ali mesmo, nem sequer é ali ao lado. O Kusturica só veio confirmar tudo isto um pouco mais tarde e com a mesma dose de incredulidade.

Confesso que roubei o programa dessa noite que guardei, algures, e tão bem, que por certo o reencontrarei, um dia, para minha surpresa e no momento certo. Nesse programa estava impressa a história de um homem disfarçado de leão, uma fábula dos tempos de hoje com que o espetáculo abria e que era mais ou menos assim, ou pelo menos, foi assim que ela me fez diferença na minha história de então.

Alguém que queria fugir da sua cidade em chamas é aconselhado a mascarar-se de leão porque há vagas no jardim zoológico e essa é uma oportunidade única de escapar aos horrores da Guerra e ter cama, comida e roupa lavada. Alguém decide correr o risco, disfarça-se o melhor que pode, passa no teste de admissão dos treinadores. Infelizmente a felicidade é uma ilusão breve, o teto que se oferece é na jaula dos leões. Atiram-no lá para dentro com um pedaço de carne. Esse alguém disfarçado de leão encara os outros leões. Frente a frente, o silêncio e a imobilidade parecem eternas. Um dos leões da matilha avança, robusto, vagaroso, assustador. Em pânico, o homem disfarçado de leão pensa que é o fim, sobrevivera a 4 anos de uma carnificina que chegara por todos os lados para acabar os seus dias comido pelo rei da selva, quando o outro leão lhe segreda ao ouvido: aqui somos todos irmãos vestidos de bichos, atreves-te a morder-nos e fazemos-te a folha!

O público dá uma risada ou outra e o contador de histórias pergunta ao microfone:

– Alguém se riu?

A audiência congelou.

A partir daqui, as restantes fábulas foram semelhantes, o bastidor de cada uma o absurdo que é uma guerra entre vizinhos, o que é perder a família, chegar a um país que se desconhece sozinho, fazer-se passar por outro para não se morrer só porque se é o que nos aconteceu ser, trocar de identidade, de papéis, de profissão, recomeçar e recomeçar e recomeçar, em cada novo zoológico, sem se saber muito bem para quê. No final de cada conto, sempre uma pergunta:

– Alguém se lembra?

Nem uma resposta.

– Alguém viu?

Um espetador desconfortável ajeita-se na cadeira, alguém aproveita para ir ao bar buscar mais uma cerveja, alguém tosse, pega num lenço para se assoar entre canções.

– Algum de vocês estava lá?

E à medida que um concerto em cima de um tapete persa levanta voo, eu percebo que a Europa tinha acabado, logo agora que aqui tinha chegado.

A última história foi muito curta, e posso estar enganada mas era ou sobre a impossibilidade de Frank Zappa escrever canções de amor ou fui eu que concluí isso enquanto devorava cada palavra com o fervor de quem está atónito. Sei que, surpreendentemente, e contra o meu iniciático conceptualismo ali a morrer à nascença, a história terminou com a seguinte pergunta:

– Alguém chorou?

Ao que a rapariga, sentada ao meu lado, de nacionalidade libanesa, respondeu, com uma voz que me pareceu vir das entranhas da sua própria terra:

– Oh, yes!

O público caiu num pranto.

O concerto foi magnífico.

Foi nesse dia que percebi que não há pós-modernismo onde há dor.

Ou seja, não há pós-modernismo sem maquilhagem.

Ou se há, desvanece mal borramos a cara de rimmel por causa das lágrimas.

Ou seja, sem o verniz dos artistas, o século que insistiu em chegar ao fim da história, (com h pequeno e com H grande) comprou assim o seu próprio genocídio para disfarçar o engano da moda.

E tudo isto enquanto o concerto continua, sábio e acutilante, sobre a relíquia persa.

E tudo isto enquanto as vítimas fogem, disfarçadas de leões, na esperança de poderem sobreviver numa jaula, abocanhando ou sendo abocanhados pelos vizinhos, a troco de cama, pão, teto, um chão.

Frank Zappa and the mothers of Invention – Freak out!  – Trouble every day

Patrícia Portela
Patrícia Portela nasceu em 1974. Vive entre Lisboa e Antuérpia. Escreve para vários formatos. http://www.patriciaportela.pt/

Comments

  1. Rogerio Vieira says:

    Gostei muito, Patricia. A importância da memória que , hoje em dia, e’ tão atropelada, morta e enterrada…Abraco grande.

    • Patrícia Portela says:

      Querido Rogério, Muito grata pelo seu comentário. A memória hoje não é só atropelada e enterrada, mas revista, retorcida para encaixar no que queremos hoje e só hoje, sem pensarmos por mais um amanhã.

  2. Que experiência magnífica, pelas sensações de descoberta, do novo, que nos transmites sem perdermos a humanidade de um vizinho cidadão do mesmo planeta. É realmente algo que ainda não experienciei, não sei se por bem ou por mal. Se por um lado agradeço o não ter vivido até hoje qualquer tipo de horror, excepto o horror estético que por vezes adorna o nosso país. Por outro lado sinto que enquanto ser humano me faltam experiencias que me façam perceber certas acções humanas que não consigo compreender. Por cada homem que precisa de se disfarçar se Leão haverá um outro pelo menos que o quer matar. Não compreendo como, nem porquê, se pode sequer imaginar o privar alguém da possibilidade de viver. Obrigado Patrícia

    • Patrícia Portela says:

      Caro Eduardo, obrigada pelas suas palavras, penso que é por causa do que me diz que a literatura é tão importante e cada vez mais o último reduto para encontrarmos o outro que não figura em mais lado nenhum se não lhe dermos voz. É para comentários como o seu e para leitores como o Eduardo que escrevo. Para passar a minha parca experiência, sobretudo enquanto testemunha de um certo mundo que (também) é o meu.
      Muito, muitíssimo obrigada por aqui deixar o seu comentário

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