Boca a Boca – Quem me traduziu Caetano

Por Patrícia Portela

– Traduzes-me esta letra? – pergunta-lhe ele com o seu sotaque suiço-alemão enquanto a música termina e ele retira a cassete do gravador do carro.

Ela não responde nem desvia o olhar da janela.

Saíram de Berna há uns dias num Toyota branco a cair aos bocados e acabam de deixar Barcelona para trás em direcção ao País Basco. A paisagem é de um árido amarelo torrado pontilhado por cactos e suculentas agaves.

– Fui ver um concerto do Caetano no mês passado…

Ela não demonstra qualquer interesse pela informação.

– … O concerto estava esgotado mas deram-me dois bilhetes…

Tinha sido ela a introduzi-lo na música de Veloso, de Buarque, Elis, Vinicius, e sempre que tinham um arrufo que teimava em demorar-se, ele trocava o último grito pop em inglês pela música brasileira e falava-lhe no seu português mais correcto

– … Quando ele cantou esta canção a plateia inteira acompanhou-o… à minha volta todos choravam… Eu não entendi a letra, e não me lembro de alguma vez me teres falado desta canção.

Ele era crítico de música num diário económico, vinha de um país desenvolvido com muito segredo bancário, podia trabalhar em part-time, falava muitas línguas e era viajado. Ela tinha uma curiosidade desmedida ainda com pouco mundo, vinha de uma península com mais mar que meios prestes a entrar numa CEE do carvão e do aço, e do medo de uma guerra nuclear. Aventurava-se nos bastidores do cinema com elegante falta de talento, seguia sem êxito um curso nocturno em direito internacional (na esperança de dar rumo certo à vida) e trabalhava em três turnos diferentes, num supermercado e numa escola, para pagar o delírio de perseguir o sonho artístico de graça por um lado, e garantir os reencontros com ele por outro.

Os dias não corriam bem. E passavam a correr.

– … Fui sozinho…Teria sido tão bom se tivessemos ido juntos, se tivesses vindo mais cedo…

Ela sabe o que ele quer dizer e sabe que ele não percebe. O romance de verão acendia-se todos os anos pela primavera para esmorecer paulatinamente pelo correio durante o inverno com o envio cada vez menos frequente de postais preenchidos com os planos das viagens maravilhosas que fariam juntos. Aos vulcões da Sicília, ao delta do Mekong, ao teatro de Epidauro e às pirâmides do Egipto. A geografia era o sonho a cumprir e o obstáculo entre eles. O direito social era a discussão política do pequeno almoço e a constatação nocturna de que o continente filosófico era uma manta retalhada de ilhas aberrantemente desiguais.

– … ele dizia aquela expressão que tu usas muito…aquela do errante navegante …

Ela não ouve. Ela quer voltar para a casa. Mas ficou sem chaves, sem dinheiro e sem documentos. Parados num semáforo nas Ramblas, um miúdo abriu a porta do carro, levou-lhe um saco com a carteira, a pouca roupa que tinha e o caderno onde apontava há meses todas as ideias para uma peça que um dia concretizaria na superfície lunar. Foi a matrícula suiça, pensou ela. Foi a mania dela de deixar tudo aberto, pensou, quem sabe, ele.

– … é sobre a Baía, não é?

Ele não lhe quer permitir o amuo.

Irritada, ela responde com uma lança apontada, rude, sem pensar noutra vitória que não seja a imposição incondicional do seu silêncio:

–  Deve ser… e sobre os sem-terra e sobre os índios, e a Amazónia, e assim … O Brasil, e depois o resto…

A má-educação funcionara como um ponto final. A paisagem árida à saída de Barcelona transformava-se numa vírgula e a passagem por Zaragoza num verde viçoso, o chão cheio de contrastes luminosos, o céu, sempre belo, a interferir subtilmente no ressentimento que ela carregava contra a distância.

Cedendo com descrição, ela pega na cassete com um gesto automático de quem passou muitas tardes, muitas noites a trocar canções preferidas. Tira a caneta bic rebentada do bolso das calças de ganga manchado e roda a fita para trás. Sempre de olhos postos na janela.

– Um dia vão inventar uma espécie de linha telefónica para transferir canções de um país para o outro sem termos de as compilar em mini-discos… – diz ele, sempre de olhos postos num futuro teletransportável.

Mas depois a música começa a tocar …

Quando eu me encontrava preso,

Na cela de uma cadeia,

Foi que vi pela primeira vez

As tais fotografias…

Devem ser fotografias aéreas de sua casa, pensa ele. Deve ser do tempo do exílio político, em Londres, pensa ela, sem dar o braço a torcer a resposta anterior. A letra continua, e em parte, ambos desmente.

Em que apareces inteira

Porém lá não estavas nua

E sim coberta de nuvens…

A mudez quebra-se colada ao sul dos Pirinéus que a paisagem agora traduz:

– Terra! Terra!

Por mais distante

O errante navegante

Quem jamais te esqueceria?

Ela replica palavra a palavra a letra da música em alemão nos intervalos da respiração de Caetano.

Ela não comenta porque o mapa já confirma.

A terra morena como estrela azulada.

O abraço, o da chegada, o da partida.

Visto à distância, qualquer distância é, afinal, pequena.

Visto no cinema, a história deles era o mais belo filme.

Eu estou apaixonado

Por uma menina Terra

Signo de elemento Terra

Do mar se diz Terra à vista

Terra para o pé firmeza

Terra para a mão carícia

Outros Astros lhe são guia…

Rigorosa na interpretação da língua, ela substitui as palavras repetidas por sinónimos: Terra! Planeta! Solo! Globo! Orbe! Universo! Pátria? Casa, chão. A canção de Veloso relata os postais que se escreviam, retrata a sua separação, para que se possam ver, de longe, inteiros. E juntos.

Os olhos de ambos, tão cheios de horizontes, acrescentam, molhados, mais azul aos rios.

Eu sou um leão de fogo

Sem ti me consumiria

A mim mesmo eternamente

E de nada valeria…

O dia  acaba por se deflagrar num incêndio vermelho que uma lua vespertina e pálida apaga cedo numa competição pelo cenário do grande final deste concerto no drive-in. A cassete em loop analógico, a caneta bic quase a partir a fita, o Toyota quase a chegar a Bilbao, eles a acontecer como gente, que gente é como outra alegria diferente das estrelas.

– Olha… – pergunta ela.

– Diz – pede ele, ansioso pelo início da conversa.

– Levas-me ao mar?

A mão esquerda dela procura a mão direita dele, o resto da viagem sem música, sem tempo nem espaço, só coragem para o carinho.

Duas décadas mais tarde, já sem romance, muito mais wireless, mas a um outro tipo de distância dele que não vem nos mapas, ela descobre a tal fotografia.  Em dezembro de 1968, um astronauta da missão Apollo não pousou um pé na lua lá em cima mas tirou a fotografia que mudou para sempre a imagem do nosso chão cá em baixo.

Preso numa cela do batalhão do Exército em Realengo, Caetano vê o nascer da Terra na capa de uma revista e escreve.

Ela sorri, abre uma das caixas de sapatos onde ainda guarda as dezenas de postais que recebera dele e passa revista às cassetes de colectâneas musicais que ele lhe gravara na esperança vã de encontrar aquela daquele verão. Nem de propósito, na rádio tocam Caetano. A ondas hertzianas a celebrar o seu aniversário no mesmo dia em que ela relembra o dia em que ele deixou de ser só gente, para passar a ser estrela, e…

Terra! Terra!

Para ele (inverno de 1970-verão de 2009)

Patrícia Portela
Patrícia Portela nasceu em 1974. Vive entre Lisboa e Antuérpia. Escreve para vários formatos. http://www.patriciaportela.pt/

Comments

  1. Rogerio Vieira says:

    Gostei muito. Abraço.

  2. Gostei ! Mesmo .

  3. Arlete de Sousa says:

    São estes pequenos retalhos que nos alegram a vida… pois também há alegria em se ‘ler’ a vida vivida pelos outros…! Parabéns! Ó que de ‘retalho’!

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