Bruce Lee: Tranquilo e Infalível

Por Sara Figueiredo Costa

Era de um “Índio” que falava Caetano Veloso quando gravou a canção onde se ouvia o verso “tranquilo e infalível como Bruce Lee”. E mesmo sem ser índio, a Bruce Lee assentam bem os epítetos dados por Caetano. A infalibilidade dos golpes, entre punhos e pernas, não impediu que morresse com apenas 32 anos, mas a marca que deixou no mundo acabou por superar as fronteiras dos filmes de artes marciais, criando uma lenda. A tranquilidade, essa, via-se no olhar e nos movimentos, simples, sinuosos, imitando os animais no seu habitat natural e fazendo de cada gesto uma continuidade natural do corpo.

No Heritage Museum, em Hong Kong, uma enorme exposição documenta a vida de Bruce Lee: Kung Fu. Art. Life. Não faltam os adereços de filmes, as armas das artes marciais e a múltipla memorabilia que a sua figura continua a originar, mas percebe-se desde a primeira sala que a intenção do museu e da Bruce Lee Foundation, co-organizadora da exposição, não era reunir material para entusiasmar os devotos e sim mostrar a herança de um homem e o modo como esta perdura muito depois da sua morte.

Nascido em São Francisco, em 1940, Bruce Lee regressa à terra natal dos seus pais, Hong Kong, no ano seguinte. Filho de um conhecido ator da ópera cantonense e da herdeira de um negócio próspero, Bruce só não teve uma infância mais pacata porque era pouco dado aos estudos e ao bom comportamento que dele se esperava. A figura do rebelde vem, portanto, de tenra idade, complementada por um interesse obsessivo pelas artes marciais e por uma tendência incontrolável para se envolver em lutas de rua. Estava traçado um perfil que haveria de encontrar no grande écrã o seu mais amplo eco, mas Lee Hoi Chuen e Ho Oi Yee, os pais de Bruce Lee, não poderiam ainda saber disso. Ainda assim, o grande ecrã foi presença que cedo chegou à vida de Bruce, que participou no filme Golden Gate Girl, filmado nos Estados Unidos da América em 1941, tendo integrado o elenco de mais dois filmes (The Kid e The Orphan) antes de chegar à fama como ator em filmes de artes marciais. De todos estes passos biográficos se dá conta nas paredes do Heritage Museum, entre fotografias, certidões, cadernos escolares, programas de cinema e alguns objetos pessoais.

Em 1959, Bruce Lee regressa aos Estados Unidos para continuar os seus estudos e será aí, em 1965, que a 20th Century Fox o convida para integrar o elenco de uma série, The Green Hornet. Depois de os episódios chegarem à televisão de Hong Kong, três anos mais tarde, começa o percurso do ator que hoje conhecemos. Uma produtora local, a Golden Harvest Limited, convida o ator para regressar à sua terra natal para uma série de filmes. Com a estreia de The Big Boss, em 1971, Bruce Lee salta dos ecrãs para o imaginário coletivo, onde se instala definitivamente no ano seguinte, com Fist of Fury e Enter the Dragon, já realizados por si. E será ainda em 1972, durante a rodagem de The Game of Death, que o ator morrerá, aos 32 anos, deixando o último filme inacabado e um imenso culto à volta da sua existência tão breve.

Numa das salas do Heritage Museum, o fato amarelo com uma lista preta que Bruce Lee usou em Enter the Dragon surge em destaque, quase sempre rodeado de visitantes que oscilam entre o deslumbramento e a vontade de tocar no tecido (tentação à qual vários vigilantes atentos garantem ser impossível ceder). Todos os visitantes passam pelo fato, mas o silêncio devoto e o tempo de permanência identificam imediatamente os fãs acérrimos do ator. Ecrãs espalhados pelas salas dedicadas ao cinema dão a ver excertos dos filmes protagonizados por Lee, bem como algumas cenas cortadas e outras captadas nos bastidores. As folhas dos guiões mostram o detalhe com que o também realizador planeava cada cena de luta, registando os movimentos com uma linguagem que podia ser a da coreografia e anotando os pormenores para assegurar que os combates não eram apenas o registo de duas ou mais pessoas agredindo-se. A épica cena de Enter the Dragon, em que Bruce Lee e Chuck Norris se enfrentam no cenário do Coliseu de Roma, está lá, devidamente anotada para que cada um dos atores saiba como contribuir para a transformar na sequência que acabou por eternizar-se na memória dos espectadores. Em dezenas de vitrines e molduras, há cartazes de filmes em várias línguas, materiais promocionais que incluem postais, autocolantes e xilogravuras, adereços de cena e muitos figurinos. E há a garra de ferro que o próprio Bruce Lee desenhou para ser adereço de Enter the Dragon, a mesma garra que lhe deixou no torso as marcas de sangue que fariam do seu corpo em tronco nu um dos ícones do cinema popular dos anos 70.

 «Be water, my friend»

As artes marciais entraram cedo na vida de Bruce Lee e a sua vocação confirmou-se logo a partir dos treze anos, quando iniciou os estudos de Wing Chun com o mestre Ip Man. Talvez os passos do cha cha, dança à qual dedicava tanto do seu tempo livre, tenham tido um papel relevante na destreza física que veio a revelar, mas foi a entrega total ao estudo e à prática desta arte marcial que transformou o rapaz franzino e pouco dedicado aos estudos no jovem de corpo seco e duro que haveria de traçar um percurso sólido entre as artes marciais e o cinema. Já nos Estados Unidos, Lee começou a ensinar Wing Chung ao mesmo tempo que encontrava novas influências para o seu estilo, através do contacto com praticantes de outras escolas e artes marciais. Desse cruzamento de referências e das muitas horas aplicadas na reflexão sobre a filosofia que deve estar subjacente à prática de uma arte marcial terá nascido, em 1962, o Jun Fan Gung Fu Institute, academia onde Bruce Lee se tornou mestre. Na série norte-americana Longstreet, onde Bruce Lee participou, uma frase tornou-se célebre quando proferida pela personagem que interpretava, Li Tsung, um traficante de antiguidades: “Don’t make a plan of fighting. That is a very good way to lose your teeth. (…) If you try to remember you will lose! Empty your mind. Be formless, shapeless, like water. Put water into a cup, it becomes the cup. Put water into a teapot, it becomes the teapot. Water can flow or creep or drip or crash. Be water, my friend.” Foi esse o percurso que Lee desenvolveu ao longo dos anos, uma mistura de intuição com precisão, instinto com razão, cada movimento encontrando o seu caminho sem desvios. Ser como a água, uma máxima que se colou à pele de Bruce Lee e ao imaginário de quantos o admiraram. E de quantos o admiram.

Nas vitrines do Heritage Museum mostram-se os objetos de treino usados em diferentes momentos, começando por uns monos rudimentares, feitos de palha prensada, e evoluindo para máquinas complexas que pemitiam simular os movimentos de um hipotético adversário. Pelo meio, há fatos tradicionais, sapatos de treino, luvas de boxe e as famosas matracas, as nunchaku, outra das imagens de marca de Bruce Lee, que as manejava com uma destreza que se tornou lendária, mesmo entre praticantes experientes de artes marciais.

Entre armas e adversários virtuais, um par de óculos e a legenda a esclarecer que Bruce Lee sofria de miopia severa, 5 dioptrias que nunca o impediram de acertar no alvo, ainda que tivesse de recorrer a lentes de contacto nos filmes, talvez porque o grande ecrã não tivesse como dar credibilidade a um lutador equipado com óculos…

A biblioteca de Bruce Lee

Numa das salas da exposição, arrumam-se em estantes os muitos livros que Bruce Lee mantinha perto de si. A diversidade bibliográfica pode surpreender quem reparou unicamente no homem de músculos fortes e secos que ocupou ecrãs em longas cenas de luta, mas Lee era um leitor dedicado e não apenas aos livros de artes marciais. Estes ocupam um lugar importante nas suas estantes, certamente, acompanhados de volumes sobre medicina tradicional chinesa, anatomia e fisiologia, mas as prateleiras começam a revelar as muitas camadas de Bruce Lee quando vemos os livros de filosofia, literatura, história, entre clássicos (da Grécia Antiga ou do Império do Meio) e contemporâneos do ator. As peças completas de Sófocles, um volume intitulado English Literature and Its Backgrounds, livros sobre pintura e literatura chinesas, muitas obras sobre yoga, artes com espada, kung-fu, os volumes completos de The Chinese Classics, de James Legge, livros sobre Hong Kong e a sua história. Ao lado dos livros, material de escrita e cadernos de apontamentos dão a conhecer um leitor que dialogava com os livros e que, sabe-se há muito, arriscou várias vezes a mão em muitas páginas de poesia, para além dos diários e de anotações soltas.

Contrastando com a sobriedade da biblioteca, uma outra sala reúne centenas de materiais, memorabilia de diferentes origens colecionada por um fã, Jeff Chinn. Entre revistas, canecas, bonecos, cromos e lancheiras, há mais do que a coleção de um fã. Num dos posters, vê-se um Bruce Lee de olhar poderoso, lembrando uma vez mais a canção de Caetano, e na legenda, o colecionador explica que foi um dos poucos chineses na sua escola, em São Francisco, e que por isso mesmo era vítima de bullying, tendo encontrado no exemplo de Bruce Lee um escape e um modelo para contrariar a cruel ignorância dos seus colegas. Impossível não lembrar a cena de Fist of Fury, quando a personagem interpretada por Bruce Lee, Chen Zhen, parte com um pontapé a placa onde se lê «No dogs and chinese allowed».

A fechar a exposição, um placard convida os visitantes a deixarem uma mensagem. E onde se esperavam comentários à exposição, ou a algum dos objetos nela destacados, o que se pode ler são mensagens dirigidas a Bruce Lee, escritas em vários idiomas, como se o ator ainda pudesse ler aquilo que os admiradores lhe escrevem: «Bruce, you will forever be missed.»

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Maio de 2017.

Comments

  1. Excelente artigo! Raramente o campo das artes…toca nesta outra vertente, as artes marciais.

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