Cabo Verde, centro do mundo

Por Ricardo Viel

Germano Almeida conta num de seus livros que Cabo Verde foi um descuido divino. Após criar os continentes e distribuir neles as “riquezas que deviam alimentar os seus filhos”, Deus repartiu as criaturas: os brancos na Europa, negros em África, amarelos pela Ásia e América. E então, distraído, sacudiu as mãos, sem perceber que as tinha sujas de barro, e assistiu como, derramadas sobre o Oceano Atlântico, as gotas de barro formavam um conjunto de pequenas ilhas. E assim nasceu o arquipélago do Cabo Verde, segundo a mitologia que narra o romancista cabo-verdiano.

Uma das estrelas do FLMS – Festival Literatura-Mundo do Sal, que teve lugar na Ilha do Sal, entre os dias 6 e 9 de julho, Germano Almeida foi quem deu o mote para o encontro realizado na Ilha do Sal. “Para mim, Cabo Verde é o centro do mundo. Escrevo para ser entendido pela minha gente e ficaria desiludido se os cabo-verdianos não me entendessem. Se lá fora for lido e traduzido também fico contente, mas não escrevo a pensar nisso, nem é uma preocupação minha”, disse o escritor logo na primeira mesa do festival.

Organizado pelo cabo-verdiano Filinto Silva, pela brasileira Márcia Souto e pela portuguesa Patrícia Santos Silva, o FLMS teve a curadoria de José Luis Peixoto e reuniu meia centena de convidados entre escritores, jornalistas, editores, tradutores, académicos e programadores culturais. Além das conversas, durante o festival foram realizadas oficinas, concertos musicais e uma obra de teatro (“As estrangeiras”, de Peixoto). O poeta cabo-verdiano Corsino Fortes e José Saramago foram os escritores homenageados.

Responsável pela conferência inaugural, a professora Inocência Mata, especialista em literatura africana, dissecou o conceito de “literatura-mundo”, eixo central dos debates que se seguiram. A académica – natural de São Tomé e Príncipe e atualmente professora na na Universidade de Macau – defendeu a necessidade de se “ampliar e amplificar” o cânone para que a literatura produzida em África deixe de ser classificada de periférica. Ao questionar o conceito de literatura universal (o cânone ocidental), a corrente a que se filia Inocência Mata propõe um novo olhar da produção literária em que a crítica que legitima os cânone passa por uma renovação. E foi a partir dessa proposta de uma nova maneira de ver a produção literária despida dos preconceitos que brotaram assuntos a serem discutidos. O papel da tradução e das pequenas editoras na difusão da literatura produzida em países que não estão no centro do mercado dos livros; a questão da identidade na obra literária e as muitas vozes possíveis de um autor/a; o exílio e a diáspora, a necessidade da existência de politicas de Estado para que os autores nacionais cheguem a outros territórios, a importância dos festivais e eventos literários internacionais, foram alguns dos temas discutidos.

A ideia de Cabo Verde como o centro do mundo seria repetida durante os três dias seguintes no encontro literário.

O colombiano Jerónimo Pizarro, que aprendeu português e tornou-se português por amor à literatura de Fernando Pessoa, discursou no último dia do festival. O catedrático da Universidade de los Andes partiu da ideia de Cabo Verde como centro do mundo para sugerir que o arquipélago sirva de pórtico, “dobradiça” que faça a ligação entre “continentes ocidentais e orientais”. “Um arquipélago se assemelha a uma constelação e das constelações nascem os mitos”, acrescentou.

Os desafios do festival

A possibilidade de um visitante ser abordado em português na Ilha do Sal é a mesma de que caia água do céu. Em media, na ínsula cabo-verdiana chove 4 dias durante o ano. E como o turismo é o que move a economia local é compreensível que os moradores abordem os estrangeiros em outro idioma que não o português ou o crioulo. E por isso é tão importante que numa mesa com criadores de várias parte do mundo seja o português o idioma em que eles se comunicam. Dejan Tiago Stankovic (Sérvia), José Manuel Fajardo (Espanha), Karla Suarez (Cuba), Sérgio Rodrigues (Brasil), Guiomar de Grammont (Brasil), José Luis Tavares (Cabo Verde), Yolanda Castaño (Espanha-Galiza), Jerónimo Pizarro (Colômbia), Eric M. Becker (Estados Unidos), foram alguns dos presentes no festival em Cabo-Verde. Cada um levou para o festival a sua maneira de falar português, e só por isso já teria valido a pena o encontro.

Não é nada fácil colocar em marcha um festival literária num local sem tradição de reuniões literárias e onde a aquisição de livros é uma tarefa bastante complexa. A população total de Cabo Verde é menor do que o número de visitantes que a Feira do Livro de Lisboa recebe anualmente, e o FLMS foi o primeiro desse porte no país de cerca de 400 mil habitantes (espalhados por nove ilhas).

Fazer com que o Cabo Verde se torne um sitio que atraia visitantes também pela parte cultural, além do sol e da praia, é o grande desafio. E um festival como o realizado na Ilha do Sal pode ser o primeiro passo. É um desafio que pode trazer frutos, mas que não acontecem de um dia para o outro. E foi sobre isso que o Ministro da Cultura, Abraão Vicente, falou na conferência de encerramento do festival. “Perguntaram-me o que é que muda na literatura cabo-verdiana este festival e eu disse que amanhã não terá mudado nada. Não muda nada se não fizermos mais, se não tivermos livrarias que mereçam esse nome, se a Biblioteca Nacional não for realmente uma biblioteca nacional.”

Um festival literário não altera o panorama cultural de um lugar, mas pode ser uma centelha. Nem bem havia terminado a primeira edição do FLMS e organizadores e participantes faziam balanços, pensavam no futuro do encontro. A ideia é que na segunda edição a população esteja mais presente nas sessões, que as escolas participem nas oficinas, que haja uma mini-feira do livro e que mais editoras, livrarias e entidades associem-se ao projeto. Muitas ideias e uma certeza, Cabo Verde e a língua portuguesa ganharam um encontro literário internacional cuja história apenas começa.

Cinco olhares sobre o festival

Se o objetivo deste 1º Festival de Literatura-Mundo do Sal era abrir e aprofundar um diálogo—dentro da lusofonia, entre a lusofonia e outras culturas do mundo—conseguiu. Além de ganhos concretos—uma apreciação e conhecimento maior da literatura cabo-verdiana, amizades forjadas tanto com escritores quanto com editores, tradutores, críticos do mundo afora—guardarei para sempre estas conversas que são simplesmente o começo de uma participação neste esforço para levar a literatura cabo-verdiana a outras margens do mundo. Como Germano Almeida ressaltou, lembremos que o Cabo Verde também é o centro do mundo, e é bom fiquemos atentos.
Eric M. B. Becker
(tradutor e editor da revista Words without Borders: wordswithoutborders.org)

Voltar ao Brasil, depois de quatro dias na Ilha do Sal e conversar sobre tantas culturas diferentes me deixou com dois sentimentos. O primeiro é que somos nós, um país continental, que nos comportamos como ilhas, voltados para nós mesmos. O segundo sentimento é aquele que dá em todos que visitam Cabo Verde: a sôdade.
Julio Silveira
(editor e produtor cultural brasileiro)

Antes de viajar a Cabo Verde não sabia, agora sei e não esquecerei: Cabo Verde é o centro do mundo. Quando Germano Almeida disse não entendi, foi necessário que o tempo passasse, que se convocassem iniciativas literárias surpreendentes, e que surgisse a editora Rosa de Porcelana para colocar no papel as razões, intuições e sentimentos que nascem no arquipélago. Então tudo se clarificou e agora é fácil chegar a Cabo Verde, basta olhar o mapa sentimental, que é o que contempla todas as moradas.
Pilar del Río
(jornalista e presidenta da Fundação José Saramago)

O FLMS foi um convite a afirmar a literatura cabo-verdiana além das fronteiras desse arquipélago atlântico e a discutir questões sociais, históricas e literárias que incidem nessa literatura. Foi também um alargamento de outros festivais, num conjunto de ilhas em que a música domina o âmbito cultural, e uma celebração de um país de grandes escritores. Foi, por último, o início de uma “mensagem” que novas edições do FLMS vão reiterar: Cabo Verde é insular, mas quer articular-se, ou “arquipelar-se” com outros pontos, cidades e países do mundo.
Jerónimo Pizarro
(editor e professor catedrático na Universidade de los Andes – Colômbia)

Cabo Verde abriume os brazos cun contraste estimulante: a diferenza dunha paisaxe (xeográfica e humana) ben afastada da miña e a familiaridade dunha lingua máis-que-irmá; un espazo distinto e un idioma igual. Sobre ese fascinante pano, toda unha antoloxía viva de novos nomes (da creación escrita, dos estudos literarios, da crítica, da edición, da xestión cultural) que incorporar ao meu acervo persoal e á miña rede, e dos que tanto puiden aprender. E detrás deses nomes concretos: problemáticas, inquedanzas, aspiracións, circunstancias e mesmo soños de enteiros sistemas literarios que se poñen en común, que se comparten, se contrastan, se apoian, se comprenden mellor, se matizan. Foi tamén a oportunidade de levar noticia da miña propia lingua, sistema literario e universo cultural. Como autora galega, experimentei o orgullo de facer parte dunha manifestación máis centrada nas escritas lusófonas (aínda que non só). Crear rede, alimentar contactos, asomarnos a novas poéticas, testar a propia condición. Comprobar a viabilidade do discurso galego dentro do universo lusófono nunha esfera de enriquecedoras tensións entre: linguas masivas/minoritarias, poder/periferia, colonizador/colonizado, etc. E aprender dunha cultura crioula (e como non vou sentirme eu tamén nalgún sentido periférica, atlántica e crioula?) da que, xa de agora en diante, namorei.
Yolanda Castaño
(poeta galega)

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Julho de 2017.

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