CICLO PLEX – 3 a 29/3 – Mostras de março em Lisboa, Coimbra e Viseu

Por Patricia Portela

“What best can I do? Exactly what I’ve done.
My voice for the voiceless.“
Philip K. Dick, The Exegesis

Sentada no parapeito de uma janela que faz esquina com um dos jardins botânicos europeus mais antigos, e enquanto me vou entrosando na arte do rascunho languidamente literário, um raminho de hera prende-me ao resto do mundo que se partilha e multiplica noutras geografias e em projectos que tive o prazer de ver nascer. Entre eles destaco os 13 solos de 14 artistas internacionais emergentes que terminam agora a primeira edição do PACAP – Programa Avançado de Criação em Artes Performativas – do Forum Dança, e do qual fui a primeira curadora.

Durante seis meses e na companhia de mui ilustres cúmplices das mais variadas áreas artísticas como Nuno Lucas, João dos Santos Martins, João Tabarra, Vânia Rovisco, Gonçalo M. Tavares, João Fiadeiro, Francisco Frazão, Miguel Gomes, Catarina Mourão, Adriana Sá, Manoel Barbosa, Clara Andermatt, Yukiko Shinozaki, Miguel Bonneville, Sónia Baptista, Peter Michael Dietz, Sofia Dias e Vítor Roriz, ou pensadores como Olivier Hadouchi, Nicolas de Warren, Willow Verkerk ou António Saraiva, entre tantos outros, debruçamo-nos sobre o processo individual de criação artística, sobre a interacção que queremos que os objectos performativos tenham com o público e os seus criadores e sobretudo, para quê dizermos como dizemos aquilo que queremos dizer. Através da prática e da reflexão conjuntas e através de uma partilha horizontal de processos e metodologias de trabalho, queríamos compreender no que consiste a Voz de um artista, o quanto desta Voz reflecte o diálogo diário do nosso corpo com o mundo e a nossa posição nele em permanente mutação, e de como essa Voz, enquanto corpo fantasma, é um espaço privilegiado para a manifestação das forças invisíveis que nos movem e nos movimentam em determinadas direcções em detrimento de outras, ganhando presença em cada obra e consequentemente no espaço público de uma cidade, de um país, de uma era.

Pretendia-se criar um espaço de laboratório para a exploração de uma linguagem individual num ambiente de co-habitação transdisciplinar. Longe da estrutura de mestre/discípulo, reportório/intérprete ou de educador/educando, este espaço de partilha e crescimento horizontal promoveu durante meio ano a convivência entre diferentes criadores em diferentes fases de desenvolvimento do seu percurso artístico, com o objectivo de produzir uma reflexão contínua acompanhada pontualmente por alguns dos pensadores que consideramos relevantes neste princípio de milénio, ao vivo ou através das suas obras. O objetivo principal desta deglutição e centrifugação simultâneas de linguagens individuais e colectivas através da experimentação, reflexão e apropriação de materiais diversos, a solo e em conjunto, era criar um espaço onde todos pudessem convocar diferentes influências numa horizontalidade saudável e multiplicadora. O resto foi a circunstância que ditou, tal como sempre dita.

À nossa porta veio parar uma inusitada geração de artistas sem medo de implodir. Uma colecção de artistas com formações, passados e países muito diversos e que adicional renascimento italiano ao seu expressionismo alemão, constroem panfletos activista através de cartas de amor, tentam matar o medo disfarçados com mascaras de carnaval. Tudo o resto foi uma dádiva de quem cuidou bem do terreno para alguém o plantar. E agora resta-me assistir, não sem um imenso orgulho, ao coro polifónico de vozes para as quais contribui apenas com a criação de um espaço – para pensar, para colaborar, para criar, para se ser ouvido.

É desconcertante confirmar ao longo de todo este processo que não é a forma, nem o conteúdo, nem a sua harmonia, nem o discurso que rodeia uma obra de arte o que confere a um objecto artístico a sua qualidade artística, e sim algo extraordinário aos elementos que a constituem, como se a Voz do artista, ou talvez devesse dizer, a voz do mundo através do artista estivesse presente e promovesse o encontro com aquilo que sem a arte é invisível.

Não percam durante as próximas semanas uma oportunidade única de assistirem ao nascimento de novos discursos artísticos, novos espaços de interacção transdisciplinar, novos discursos sobre o que nos rodeia. Não há nada melhor do que entrar numa sala de espectáculos, de cinema, num bar ou mesmo no reservatório da Patriarcal e sair de lá com a sensação de ter visto algo que desconhecemos, algo novo, que talvez não compreendamos inteiramente numa primeira leitura, que talvez inesperadamente nos emocione ou confirme algo que já tínhamos pensado e não sabíamos. É esse o poder redentor destes solos que recomendo vivamente!

Os Artistas e os seus SOLOS (e um dueto)

Clarissa Rêgo proporciona-nos em Bloom um (re)encontro comovente entre Francis Bacon e Rodin no seu próprio corpo num diálogo permanente com o público enquanto se metamorfoseia na história de arte. Bloom, como tão bem nos diz Natasa Pnin, não é um solo, é um dueto entre os braços de Clarissa e os nossos pulmões, entre a curva da sua espinha dorsal e os nossos corações, entre a sua expressão visível e a a nossas dores invisíveis.

Bartosz Ostrowski in Walkie Talkie propõe descascar os múltiplos filtros das múltiplas traduções  a que recorremos diariamente (analógicas e digitais) numa tentativa (sempre falhada? Sempre conseguida?) de comunicarmos uns com os outros. Sob o signo de David Foster Wallace e de uma enigmática frase “How exactly is this supposed to work is hard to pin down”, Bartosz move-se como o mais belo dos cisnes enquanto pisca o olho à realidade virtual das linguagens (físicas e verbais) e dos corpos (de carne e osso, de metal, feitos de algoritmos).

Navina Neverla em I see you_you see me convoca o seu alter ego Lakshmi Chellani, especialista em dança Kathak e práticas ritualistas de alteração dos estados de consciência, conduzindo-nos até ao seu mui peculiar mundo onde ironia e sinceridade se tocam num discurso que provoca, desafia, questiona posicionamentos simultaneamente políticos e rituais, artísticos e xenófobos, radicais e tradicionais, liberais e redutores através de uma sequência de eventos ou momentos que ocupam diferentes espaços e pedem ao espectador o seu envolvimento total incluindo a desobediência. Sem medo e sem rede, Navina Neverla leva-nos até a um lugar que desconhecemos, razão suprema para o encontro entre a arte e o seu leitor.

Em Does it Dance without a push? João Abreu revela-nos o seu talento enquanto natural-born-demiurgo e convoca o seu infinito arquivo de objectos e reflexões para discorrer sobre plástico, capitalismos, antropocenas, paranóias coletivas e uma imensa solidão que afinal nos une a todos. Com uma rara capacidade de nos comunicar o incomunicável, João Abreu cria um espaço confessional onde ninguém se atreve a dizer o que já todos sabemos: que ninguém escapa da rede, que ninguém sabe o que é a rede, que todos contamos sempre com uma solução, seja na experiência científica, no clic de um programa de computador, no encontro com a alma gémea, na recolha de informação, ou na dança que não diz.

Catarina Marcos em Entre o Tutti Fruti e a Natureza Morta convoca Cézanne e Jackson Pollock num momento de happening que homenageia as correntes mais radicais da história da performance. Criando um quadro em movimento de frutas vivas, Catarina bebe, come, escreve, desfaz, faz a fruta que apanha, atira, corta, espreme ou descasca e com ela desenha paisagens que se passeiam entre a abstracção e o figurativo. Uma peça para fazer pousar os olhos enquanto o pensmento se devaneia.

João Estevens encosta-nos à parede e entala-nos entre a nossa própria preguiça de reagir e a eterna curiosidade pela imagem mais banal na esperança de descobrirmos nela a pólvora. Na companhia de Mafalda Miranda Jacinto e João Abreu, Estevens lança-se num jogo avesso de sedução com o público, com os seus parceiros, com a rede digital e as suas promessas virtuais.

Em Hidebehind, Josefa Pereira transforma-se num bicho alado para nos perseguir de costas. Num movimento gradual cíclico e circular, Josefa entrelaça-nos na sua jornada e convida-nos a aceitar um estado de contemplação próprio do viajante que, quando a caminho, sabe desfrutar o seu lugar.

Em peça um, Blanca G. Téran propõe-nos uma instalação em movimento. Numa acumulação quase claustrofóbica de elementos, materiais, símbolos e movimentos, Téran adiciona e sobrepõe camadas de roupas, significados e adereços multiplicando o seu corpo, metamorfoseando-o, desfazendo-o, destruindo-se, construindo-se. Um objecto de rara beleza e susto.

Em estocolomo ou Logomania, Daniel Lühmann é Patty Hearst e nós o exército simbionês de libertação. Partindo do rapto da filha do magnata em 1973, Luhmann transpõe a relação entre refém e sequestrador para a que mantemos entre língua e palavra, entre palavra e quotidiano, entre corpo e mente, entre poesia e a simples lista de compras e Kills us softly with the translation of his song num solo de cortar a respiração.

Querida Tia é a instalação, cabinet curiosité, arquivo privado, exposição epistolar, encontro discreto, fábrica de rebuçados selvagens e memórias afectivas de Margarida Bak Gordon, uma artista que dialoga com o passado e presente de uma certa Senhora M. combinando ilustração, literatura, nós de marinheiro e pasta de fígado. Entramos no seu mundo como quem entra por uma vida adentro num album de fotografias.

Anthi Kougia e Mafalda Miranda Jacinto convocam armas, palavras, tragédias gregas e estratégias troianas para uma luta comum contra aquele Mosquito. Aquele que está sempre presente. e que, ainda que mínimo, ainda que parecendo frágil, nos massacra diariamente. Aquele que parece intocável, infalível, indestrutível porque invisível.

Em e.le.men.to, Bruna Carvalho apresenta um manifesto coreográfico sobre os elementos básicos da liberdade: água, terra, fogo, ar. Num delicado equilíbrio entre movimento, imagem e composição musical, Tal como o caçador que reconhece uma melodia nas cordas que roçam o seu arco e fleche, Bruna Carvalho faz do seu corpo uma harpa que ode aos deuses e às musas deste evento a que chamamos vida. E grita. Mas sempre em silêncio.

Por fim em Ponte insular de Gabriela D’Angelis devolve-nos o lado de dentro do corpo num sensível exercício sobre a necessidade de transmissão de um gesto e o seu bloqueio. Num mergulho em profundidade, D’Angelis navega por fluxos híbridos e dissolve-nos em líquidos ainda que de pé no terreno mais sólido.

Não percam!

Nota: Ciclo Plex – de 3 a 23/3 de março em Lisboa em vários espaços, 27/3 no Teatro Gil Vicente em Coimbra e 29/3 no Teatro Viriato em Viseu. Mais info em https://plex2018.wordpress.com/recente/ e www.forumdanca.pt.

O PACAP 1 foi realizado com o apoio da Prado, Coffeepaste, O Rumo do Fumo, TAGV, Teatro Viriato, Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Casa Fernando Pessoa, Frame, Causas Comuns, ACCCA, EIRA, RE.AL- João Fiadeiro;

O Ciclo de Apresentações  do PACAP conta com o acolhimento de CCB, ALKANTARA, GALERIA MONUMENTAL, CCB, NEGÓCIO, ZDB, RESERVATÓRIO DA PATRIARCAL, ESPAÇO GAIVOTAS

Programa

6.03.2018 – 20h30 – RUA DAS GAIVOTAS 6 – Navina Neverla (AT), I SEE YOU_ YOU SEE ME, Bartosz Ostrowski (PL), walkie_talkie e Clarissa Rêgo (BR), Bloom

8.03.2018 – 19h00 – GALERIA MONUMENTAL – Catarina Marcos (Portugal), Entre o Tutti Frutti e a Natureza Morta e João Abreu (Portugal), But does it dance without a push?

16.03.2018 – 21h00 – CCB – SALA DE ENSAIO, Josefa Pereira (BR), Hidebehind e João Estevens (PT), http://www.we want waffles #1

18.03.2018 – 19h00 – ALKANTARA – Gabriela D’Angelis (BR), PONTE INSULAR e Blanca Gómez Terán (ES), peça um.

21.03.2018– 19h00 – RESERVATÓRIO DA PATRIARCAL – Daniel Lühmann (BR), estocolmo ou logomania

21.03.2018 – a partir das 19h00 – GALERIA ZDB – Margarida Bak Gordon (PT), Querida Tia,

23.03.2018 – 21h30 – NEGÓCIO, ZDB  – Bruna Carvalho (PT), E.le.men.to e Anthi Kougia (GR) & Mafalda Miranda Jacinto (PT), MOSQUITO

Dia 27.03 celebram o Dia Mundial do Teatro no Teatro Gil Vicente em Coimbra e no dia 29.03 terminam o ciclo em Viseu no Teatro Viriato.

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