CineEco Seia – Entrevista

A Idade das Consequências (The Age of Consequences), de Jared P. Scott, (EUA), 2016.

Conversámos com José Vieira Mendes, programador do festival CineEco, que acontece há 22 anos em Seia. Fez-nos o balanço destes anos, e falou-nos do tema da edição de 2017, e da selecção de filmes deste ano.

Que balanço se pode fazer do festival desde 1995?
O balanço que se pode fazer do CineEco é muito positivo, ao longo desta caminhada de 22 anos, que faz dele um dos mais antigos do país e no mundo.

Tem contribuído fortemente para a afirmação de um território de montanha, no Interior de Portugal, na Serra da Estrela. Tem conseguido, simultaneamente dado notoriedade à cidade de Seia; tem atuado junto das comunidades locais e atraído o melhor da produção cinematográfica ambiental feita em todo o mundo.

Lançado em 1995 pelo município de Seia em parceria com várias entidades ligadas ao Ambiente, o CineEco começou por receber filmes muito ligados à natureza e numa vertente pedagógica acentuada. Ao longo dos anos, os documentários foram alargando horizontes nas abordagens apresentadas, pontuando a pedagogia e o aspecto científico, entroncando progressivamente na preocupação estética e artística das obras a concurso. Um alargamento ditado pela atenção dada cada vez mais às preocupações ambientais e de sustentabilidade, tanto de países altamente desenvolvidos, como de zonas remotas do mundo onde se enaltecem as riquezas naturais.

No duplo desafio de abordagens cinematográficas para criação de públicos e sensibilização para as questões ambientais, através da reflexão e denuncia, em defesa do planeta, o CineEco foi-se afirmando como um plateau privilegiado nestas duas vertentes – cinema e ambiente, com enfoque dado também à lusofonia. Uma janela aberta ao mundo, com o mundo a olhar para este pequeno fenómeno de grande dimensão internacional. Um caso sério que levou à criação de uma plataforma internacional de 40 festivais de cinema de ambiente, o Green Film Network, de que o CineEco é um dos fundadores e membro da direção.

Neste caminho de quase duas décadas, o público de Seia e da região viu muito e bom cinema e acolheu centenas de realizadores, artistas, actores e actrizes e muitos outras personalidades do mundo do espectáculo e de várias áreas culturais e ambientais.

Uma aposta continuada do município que tem proporcionado a esta pequena cidade, momentos únicos, quer nas várias sessões de cinema temáticas, quer no vasto leque de actividades desenvolvidas paralelamente – concertos, homenagens, exposições, conferências e acções de valorização do património natural e cultural da serra da Estrela.

A criação do CISE – Centro de Interpretação da Serra da Estrela é uma das consequências da existência do CineEco, que fez com que o município criasse este Centro de Educação Ambiental. O que quer dizer que o CineEco e a atividade do CISE entroncam num plano estratégico de valorização das questões ambientais, enquanto fatores de desenvolvimento. Uma estratégia que envolve os atores locais e que coloca muito enfoque na educação ambiental, sobretudo na envolvência das escolas do concelho e da região.

O que esperar do tema “Tudo pode mudar: Oceanos, Clima e Economia” da edição de 2017?
Tudo Pode Mudar: Oceanos, Clima e Economia foi efectivamente a ideia de base para construir esta grelha de quase 100 filmes, que vamos ver entre 14 e 21 de Outubro próximos. Degradação do ambiente, problemas climáticos, aquecimento global, extinção das espécies, são alguns dos temas que vão ser debatidos e questionados nos filmes que vamos apresentar. Mas vamos questionar igualmente o sistema económico capitalista em que vivemos e que não dá prioridade à sustentabilidade: um consumismo exacerbado e uma economia que se desenvolve sem respeito pelo ambiente. Estamos a pagar um preço muito elevado pelos nossos excessos: estou a lembra-me do furacão Irma, ou das cheias em Roma e outras cidades italianas, que são certamente uma consequência das mudanças climáticas. A defesa dos oceanos é também uma missão fundamental de todos os portugueses e por isso nos revemos também nesse triângulo, clima, economia….e oceanos. O sistema económico em que vivemos — o capitalismo — está a impedir-nos de atuar numa solução para as alterações climáticas. O mundo distópico da ficção científica e do apocalipse já chegou, nós é que não estamos a dar por isso. Mas ainda há esperança….e é essa a nossa reflexão.

O festival conta com mais de 100 filmes em competição, oriundos de mais de 25 países. Como se chegou a esta selecção?
Chega-se das mais diversas maneiras. Começamos a trabalhar no próximo CineEco mal termina uma edição. Vamos à procura dos filmes ou eles vêm ter connosco. Os grandes festivais internacionais de cinema generalistas e os de documentários, têm uma secção ou acompanham cada vez mais o tema ambiental — recordo por exemplo que Al Gore — An Inconvenient Sequel, estreou no Festival de Cannes —; e depois estamos presentes ou acompanhamos a programação dos festivais da Green Film Network — a rede dos maiores festivais de cinema de ambiente do mundo e da qual o CineEco é membro fundador — através de uma partilha de informação e de filmes, mas sempre procurando uma identidade na programação de cada um de forma a satisfazer o público nacional. Por outro lado já somos bastante conhecidos internacionalmente e mal abrimos as inscrições — geralmente no início de cada ano — começamos a receber filmes na nossa plataforma e naquelas que nos estão associadas como a Movibeta e a Festhome. E recebemos filmes verdadeiramente surpreendentes. Por outro lado estamos atentos à programação e às novidades dos filmes nacionais e dos países de língua portuguesa. Embora, na verdade  à excepção do Brasil — onde as preocupações ambientais são elevadíssimas — a produção em língua portuguesa — incluindo a nacional — não está muito virada para o tema ambiente.

O que destacas da edição de 2017?
Como programador acho que tudo é importante num festival, dos filmes às actividades paralelas senão não estava lá. Mas arrisco a lançar algumas pistas começando com uma programação de curtas-metragens muito forte e que incide no tema da escassez de água. A programação de longas e documentários para televisão que gira à volta do tema Tudo Pode Mudar: Oceanos, Clima e Economia é excelente com filmes como: A Idade das Consequências (The Age of Consequences), de Jared P. Scott, (EUA), Este filme pode ser muito polémico já fala-nos da mudanças climáticas vistas da perspectiva de alguns especialistas de defesa (Madelein Albright, por exemplo) e das agências de segurança norte-americanos. Logo discute uma visão muito conservadora próxima de Donald Trump; Rio Azul: Pode a Moda Salvar o Planeta? (Riverblue: Can Fashion Save the Planet?)  de David McIlvride, Roger Williams (Canadá): a maioria das pessoas não sabe que a indústria da moda, dos tecidos e curiosamente das jeans são grandes poluidoras das águas e do ambiente; Ondas Brancas (White Waves), de Inka Reichert (Espanha): Um filme que mostra o combate e a reação dos surfistas de vários pontos do globo, contra a inadvertida contaminação dos oceanos e ainda um e ainda um Linha da Frente da RTP, sobre o mesmo tema Atolados em Plástico, de Berta de Freitas, (Portugal), que concorre a documentários e reportagens de televisão. Perseguindo Corais (Chasing Corals), de Jeff Orlowski sobre a protecção dos Oceanos e dos corais, que nos é particularmente caro e que curiosamente foi produzido para a Netflix. Podes destacar  ainda o Filme de Abertura no sábado, 14 de Outubro às 21h30 no Cineteatro da Casa da Cultura de Seia. Na verdade um filme-concerto, do clássico mudo português Os Lobo, de Rino Lupo, que saiu há pouco tempo em DVD, edição da Cinemateca Portuguesa. O filme vai ser apresentado pelo Tiago Baptista, que é actualmente vice-director da Cinemateca e do Anim e acompanhado ao piano pelo pianista Nicolas McNair. Rodado entre 1922 e 1923, em vários lugares de Seia – Valezim, São Romão e Senhora do Desterro, entre outros, o filme contou com a participação de actores e figurantes não-profissionais. A estreia absoluta em Portugal do filme do Al Gore, na quarta, 18 de Outubro de: Uma Verdade (Mais) Inconveniente (An Inconvenient Sequel: Truth to Power) de Bonni Cohen e Jon Shenk.

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