Arte, Comunidade e Liderança em discussão no congresso do ISPA

Por Maria Vlachou

Este ano, sou fellow da ISPA – International Society for the Performing Arts e nesta qualidade pude participar no congresso anual que se realizou em Nova Iorque em Janeiro. O seu tema Balancing Acts: Art, Community and Leadership.

Na apresentação do congresso, ISPA afirmava que “A intersecção entre a criação e a apresentação das artes, o seu papel nas nossas comunidades e a transição para a próxima geração de líderes na área das artes é certamente um acto de equilíbrio. A sociedade global está a ser moldada por diversas forças e isso está a ter um impacto fundamental no sector das artes. Com esta mudança, temos a oportunidade não só de reflectir sobre os valores que estão a mudar na nossa sociedade mais ampla, mas também de os moldar. Como é que a próxima geração de líderes irá abordar esta evolução e promover as artes como um catalisador de transformação positiva?”.

O actual contexto socio-político norte-americano e global esteve subjacente à maioria das discussões. No seguimento do encontro da IETM – International Network for Contemporary Perfoming Arts em Bruxelas, em Novembro passado (Can we talk? Art in the Age of Populism), torna-se óbvio que há questões muito presentes em vários encontros de profissionais do sector, algumas comuns e outras específicas a certas zonas do planeta. No entanto, são todas relevantes e interligadas para quem trabalha no sector cultural.

O primeiro dia arrancou com as intervenções inspiradoras de duas mulheres.

Basma El Husseiny é gestora cultural e activista. Tem estado envolvida no apoio a vários projectos e organizações culturais independentes na região árabe. Em 2015, “sentada no sofá a ver uma reportagem sobre uma visita da Angelina Jolie aos campos de refugiados no Líbano” sentiu que tinha que se levantar e, assim, fundou a Action of Hope, que procura dar apoio a projectos de desenvolvimento cultural a comunidades em crise, com ênfase nos refugiados e comunidades que vivem em pobreza. El Husseini olha à sua volta e vê um mundo de guerra e de ódio. Vê ditaduras e terror, que matam e ocupam todo e qualquer espaço; excepto o da imaginação. Considera que, neste contexto, não interessa apenas a segurança física, mais imediata. Interessa, igualmente, assegurar o nosso futuro como seres humanos capazes de sentir compaixão. Acredita que as pessoas que mais sofrem, precisam mais de arte e, através do seu trabalho na Action of Hope, quer fazê-las sentir que são vivas, que podem ouvir, que podem sonhar. “A arte dá o poder de imaginar, o poder da esperança.”

Num mundo que às vezes olha para os direitos humanos como um conceito ocidental e procura criar excepções, esperando assim mostrar-se mais tolerante, Jude Kelly, directora artística do Southbank Centre em Londres, veio afirmar que a ideia da liberdade humana não é ocidental e que mulheres noutras sociedades consideram que homens e muheres devem ser iguais. A ênfase na causa feminista vem do seu trabalho em WOW – Women of the World festivals, que fundou em 2010 e que celebram a história e o potencial de raparigas e mulheres em todos os sectores da vida e chamam a atenção para obstáculos que impedem a igualdade de género. Em 2014, fundou ainda BAM – Being a Man, que procura apoiar homens e rapazes na exploração de questões que surgem da definição estreita da identidade masculina. “Estaremos a usar o nosso potencial activista?”, questionou Kelly. “Se houver pessoas suficientes a insurgir, às vezes o jogo acaba. As pessoas podem dizer ‘Estás por tua conta’ ou… podem apoiar-nos.”

O formato de “long table discussion” em várias sessões (pessoas que se sentam à volta de uma mesa para um debate, sendo que podem abandonar a mesa quando quiserem, deixando um lugar para quem quiser juntar-se) fez-nos pensar também na responsabilidade de um líder no sector cultural de olhar à sua volta, questionar-se sobre o que a sua comunidade precisa de discutir, identificar quem é que não está sentado à volta da mesa e deveria estar. A questão da representatividade é aqui importante. “Não podes ser o que não podes ver”, disse um dos participantes. Varios oradores norte-americanos e canadianos, ao chegarem ao púlpito, fizeram questão de iniciar saudando as primeiras nações, em cujas terras estava a ser realizado o congresso. O escritor e artista interdisciplinar Ty Defoe, da nação de Oneida/Ojibwe, tornou este questionamento mais concreto: “Quem não faz parte do sistema colonizado de tomada de decisões? Podemos descolonizar sem o colonizador? Como é que podemos ir além dos guardiões (brancos) e tornar-nos mais relevantes para a comunidade? E como podemos envolver membros da comunidade que se mostram hostis, porque sentem que perdem os seus privilégios? Podemos avançar sem as pessoas que até agora tiveram esses privilégios?”. Questões que estiveram muito presentes também no encontro do IETM em Bruxelas.

Uma das sessões mais envolventes foi aquela que teve Jenny Sealy como provocadora. Jenny é a directora artística do Graeae Theatre, companhia que envolve artistas Surdos e ouvintes, e veio no mês passado a Portugal, convidada pela Fundação Calouste Gulbenkian. Jenny questionou vivamente a ausência de artistas Surdos e com deficiência no congresso. “Porque é que sou a única aqui, quando conheço tantos artistas talentosos que deveriam estar aqui?”. Falou da falta de oportunidades, da falta de exemplos a seguir, de barreiras educacionais e atitudinais. E ainda do facto das pessoas e artistas com deficiência serem vistos como imperfeitos, serem vistos com pena e nunca como possíveis líderes no seu sector.

O congresso foi um encontro rico em ideias e, sobretudo, em contestações. Como a Jenny Sealy disse, não foi tão diverso como devia e podia, mas a mim, permitiu-me ser confrontada com pontos de vista de pessoas muito diferentes de mim, que têm uma visão do mundo que me permitiu enriquecer a minha. O próximo encontro do ISPA será nos dias 11 a 15 de Junho na cidade holandesa de Leeuwarden, Capital Europeia da Cultura 2018. O tema será Off the Beaten Track e irá procurar reflectir sobre o papel das artes nas comunidades rurais, no campo. Mais uma vez, em plena sintonia com a IETM, cujo próximo encontro plenário (Porto, 16-29 Abril) também irá abordar esta questão.

Maria Vlachou viajou para Nova Iorque com uma bolsa do ISPA e com o apoio da Acesso Cultura, da qual é a Directora Executiva.

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