Dez Livros com o Mar ao Pé

Por Sara Figueiredo Costa

Tempos houve em que os suplementos de Verão aconselhavam leituras ligeiras, narrativas cuja capacidade de inquietar leitores era inversamente proporcional à frequência desejada com que as ondas chegavam a uns metros da toalha. Isto, claro, presumindo que todos os leitores tinham férias no Verão, e que todos escolhiam a praia como lugar de descanso, e ainda que todos precisavam de repousar o cérebro de leituras densas e complexas feitas durante o resto do ano. Os suplementos abandonaram a prática e até já recomendam ensaios económicos ou grandes romances épicos para a época estival, pelo que está arrumada a ideia de que o calor e o repouso têm de indicar uma leitura específica. Ainda assim, e porque há quem sonhe com a praia o ano inteiro e só possa cumprir esse sonho em Agosto, as leituras temáticas não têm porque perder o sentido. Mas também não têm de ser ligeiras, incapazes de deixar marca, um repouso para as sinapses. Entre clássicos e leituras mais recentes, aqui propomos dez livros que têm no mar uma referência importante, um cenário, uma personagem, uma metáfora. E nenhum deles se lê melhor ou pior no Verão.

Jules Verne
20.000 Léguas Submarinas
Relógio d’Água

As deambulações do submarino Nautilus, comandado pelo capitão Nemo, começam por ser um modo de isolamento relativamente à humanidade, uma espécie de utopia marítima de auto-sustentabilidade e novos modos de sociabilização, para logo se tornarem uma fuga constante. Os acidentes que, inadvertidamente, o submarino provoca em algumas embarcações fazem com que seja encarado como uma ameaça, e porque o Nautilus era um segredo bem guardado, há até quem o imagine um monstro das profundezas. Metáfora poderosa sobre a natureza humana, o livro de Jules Verne não deixa de ser também uma narrativa de aventuras com o mar como cenário.

Herman Melville
Moby Dick
Relógio d’Água

A obsessão do capitão Ahab por capturar a baleia branca que dá nome ao livro, e que foi a responsável pela perda de uma das suas pernas, o que motivou a vingança, está no centro da narrativa de um dos grandes romances de sempre. Numa polifonia estilística e de géneros, Melville coloca o leitor perante questionamentos sucessivos, da existência de uma realidade à nossa capacidade de a percepcionarmos como tal, sempre com o desafio da coragem, do medo e da vingança como motores.

Virginia Woolf
Rumo ao Farol
Europa-América

Na verdade, o romance que Virginia Woolf publicou em 1927 não tem o mar como tema, ainda que parte da sua acção decorra numa casa de férias à beira da água e que haja um farol, presença tutelar que desencadeará alguns momentos relevantes da narrativa. Na boa tradição modernista, Rumo ao Farol é um livro introspectivo, com pouca acção, onde o sumo da narrativa está nas reflexões sobre a memória, as emoções, a infância e o modo como tudo isso nos vai definindo ao longo da vida.

Gerard Durrell
A Minha Família e Outros Animais
Editorial Presença

Na ilha de Corfu, na Grécia, uma família com várias crianças instala-se para fugir do frio inglês. Gerald, uma das crianças, terá nesta ilha o início de uma revelação, observando com interesse crescente todas as formas de vida que o rodeiam, em terra e no mar. Fascinado com a natureza, recolhe animais e plantas, enchendo a casa de frascos e caixas que começam a produzir efeitos – normalmente de incómodo – nos restantes membros da família, mas não deixará de fazer avançar a sua curiosidade inesgotável perante tudo o que o rodeia.

Marguerite Duras
Uma Barragem Contra o Pacífico
Difel

Num pedaço de terra junto ao mar da antiga Indochina, uma viúva instala-se com os filhos na tentativa de reconstruir a sua vida. A terra, afinal, impede esse objectivo, pelo facto de estar constantemente alagada. Começa aí a decisão de construir a barragem, protegendo casa, terra e família do imenso mar – uma decisão tão inusitada quanto destinada ao fracasso. Entre ameaças da água e tentativas de a dominar, Duras ensaia um retrato fortíssimo das relações familiares e das suas complexas teias de silêncios, segredos e não-ditos, todos prontos a rebentar com o mesmo estrondo que a barreira erguida contra o mar.

Homero
Odisseia
Cotovia

Talvez Homero não tenha existido, o que nada diz sobre a imensa marca fundacional que deixou na literatura e na cultura universais. A história do regresso de Ulisses a Ítaca, onde a sua família já não espera vê-lo voltar (com excepção da mulher, Penélope, que nunca perdeu essa esperança) é a história de todas as histórias, das aventuras marítimas que convocam medos profundos e golpes de sorte impossíveis aos dilemas morais que se nos colocam na relação com os outros e com o mundo. Dez anos para regressar a casa e a eternidade (ou a sua ilusão) como legado para a humanidade.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Coral
Assírio & Alvim

Na obra de uma autora que sempre teve no mar uma das linhas temáticas da sua poesia, Coral, originalmente publicado em 1950, é uma das escolhas possíveis. Num dos poemas, «Barcos», lê-se: «Dormem na praia os barcos pescadores/ Imóveis mas abrindo/ Os seus olhos de estátua// E a curva do seu bico/ Rói a solidão.»

Ernest Hemingway
O Velho e o Mar
Livros do Brasil

Há alguns ecos de Moby Dick nesta novela de Hemingway, uma narrativa sobre a persistência, o deslumbramento, a desilusão e, sobretudo, a inexorável passagem do tempo. Santiago, um pescador cubano há vários dias sem conseguir pescar, fisga um enorme espadarte no seu anzol. Arrastado para o largo pelo peixe que resiste a ser pescado, o pescador enfrentará uma luta aparentemente interminável com o animal, num braço de ferro cujo desfecho traz o eco da efemeridade de todas as celebrações.

Charles Darwin
A Viagem do Beagle
Relógio d’Água

Em 1831, Charles Darwin juntou-se à tripulaçao do HMS Beagle para uma expedição de levantamento topográfico na América do Sul planeada para um ano. Na verdade, foram quase cinco anos entre mar e terra, nos quais Darwin recolheu dados e informações sobre animais, plantas, questões biológicas e geográficas e toda a espécie de anotações sobre o que ia observando. Cabo Verde, Brasil e Argentina foram alguns dos territórios onde Darwin recolheu as suas informações, compilando-as num volume que ficaria conhecido com o título A Viagem do Beagle e onde vários registos podem considerar-se os primórdios do que seria a sua Teoria da Evolução das Espécies.

Ana Margarida de Carvalho
Não Se Pode Morar Nos Olhos de Um Gato
Teorema

A narrativa principal deste romance decorre a bordo de um navio que transporta escravos para o Brasil, já depois da abolição da escravatura, e na praia deserta junto da qual o navio naufraga. Há alguns flashbacks que vão desvendando as histórias de vida das personagens, mas é na interacção entre elas e as suas bagagens emocionais que está o nervo de um livro, bem como na reflexão sobre  a nossa capacidade de lidar com a alteridade, entre a empatia e o ódio.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de agosto de 2018.

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