Doclisboa – Entrevista

doclisboa16Está a decorrer até 30 de Outubro, a 14ª edição do festival internacional de cinema documental Doclisboa. Conversámos com Cíntia Gil, da direcção do festival, para saber mais sobre o evento, a edição de 2016, e o estado do documentário em Portugal.

Que balanço faz de 14 edições do Doclisboa?
Até agora, parece que é evidente que o Doclisboa tem evoluído de uma maneira muito positiva. Para balanços aprofundados, talvez seja melhor esperar pela próxima edição, que será a 15ª… e dedicar-nos-emos precisamente a olhar para os primeiros 15 anos do festival.

Quando compara os últimos anos com as primeiras edições, quais as principais diferenças que encontra?
Creio que, sendo o princípio e os objectivos do festival, no fundo, os mesmos, ele se transformou enormemente ao longo dos anos, de forma muito natural. Não só a sua estrutura e critérios de programação acompanharam as transformações na própria prática do cinema documental, como o festival cresceu, profissionalizou-se, começou a intervir em diversas áreas, como a formação de públicos, a distribuição, etc. Mas tudo isto só foi possível porque desde o seu início o Doclisboa construiu um público interessado e assíduo, que faz dele um festival verdadeiramente popular.

doclisboa01Que evolução nota no público do festival?
O público do Doclisboa é cada vez mais crítico, mais interventivo e exigente. É muito interessante perceber como cada vez aparecem mais pessoas que conhecem profundamente as obras de alguns realizadores, que já os conhecem a eles de outras edições do Doclisboa, que se sentem em casa no festival e crescem com ele. Estudantes que passam a realizadores, espectadores que começam a participar de modo cada vez mais presente.

Por outro lado, o Doclisboa soube conquistar públicos diversificados, através das suas diferentes secções e da identidade de cada uma delas. Isso sente-se cada vez mais.

Qual a importância da homenagem que vão prestar a Abbas Kiarostami?
Se reconhecermos a importância de Abbas Kiarostami para a história do cinema, para a relação entre o cinema contemporâneo e as artes visuais, para as novas formas no cinema documental, para o questionamento da ideia de cinema político, esta homenagem parece um gesto evidente.

Para além disso, será muito comovente mostrar o último filme feito por Kiarostami e testemunhar uma conversa do realizador com um amigo, que durou 25 anos da sua vida, do seu trabalho de fazer filmes.

Quais os principais destaques da edição deste ano?
Para além das retrospectivas de Peter Watkins e do documentário cubano dos anos 60 e 70, destaca-se um pequeno foco de filmes de correspondência, bem como uma série de filmes acerca de realizadores e artistas portugueses, de enorme importância, por exemplo “Silêncios do Olhar” sobre José Álvaro Morais, por José Nascimento.

O contingente luso está bem representado no Festival?
Muito bem. Em várias secções: Competição Portuguesa (12 realizadores de diversas gerações), Da Terra à Lua (Catarina Alves Costa e Teresa Villaverde), Riscos (Augusto M Seabra, José Nascimento, André Gil Mata), no Heartbeat, Doc Alliance e, claro, nos Verdes Anos, de onde já saíram vários realizadores que passaram pela competição. Também no Arché os projectos portugueses são de enorme qualidade.

doclisboa02O Festival tem uma componente de formação. Qual o seu impacto?
O Doclisboa tem uma componente de formação em diferentes níveis e escalas: desde as crianças mais pequenas (com ateliers), a acções mais estruturadas com escolas (ao longo de todo o ano através de sessões e debates), passando por acções de formação para professores, colaboração com universidades em estágios curriculares e, claro, o laboratório de realização durante o festival.

O impacto traduz-se num crescente e impressionante número de estudantes que frequentam o festival (cerca de 2000 por ano), mas também em pequenos sinais, como realizadores que, ao apresentarem os seus primeiros filmes no Doclisboa, falam da importância de alguns programas passados do festival para a sua formação.

Como vê o estado do documentário em Portugal?
É muito difícil responder a essa pergunta sem generalizações redutoras. Em Portugal existem inúmeros realizadores, todos com trabalhos e processos de trabalho muito diferentes. Assim no geral diria que um país em que tantos realizadores tão jovens fazem filmes com tanta qualidade em condições bastante precárias, é muito prometedor. Existem mesmo realizadores muito singulares, no nosso país. Outra coisa é perceber que esta precariedade (de toda a classe artística) tem consequências claras ao longo do tempo, não só na vida pessoal das pessoas, como no sector e na produção. Instalou-se o espírito de que a arte se faz com poucos meios e muito sacrifício pessoal, mas isso tem consequências bastante perversas.

Portanto eu diria que o panorama do cinema documental em Portugal é contraditório: por um lado uma enorme vitalidade de criação, por outro lado uma grande falta de visão política (por um ICA reduzido a órgão administrativo e uma televisão pouco interessada em cinema). Ainda assim, sou optimista e sei que a longo prazo o que fica na história são os bons filmes que se fazem, e não as circunstâncias em que os mesmos se fizeram.

Comments

  1. Lamentações.
    Nunca assisti a um único mas saber que existe e que posso faltar já é um enorme conforto.

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