Dolores de Matos – Entrevista

(IN)CERTAIDADE, criação FIAR

(IN)CERTAIDADE, criação FIAR, Direcção Artística de Carlota Lagido, Dolores de Matos com dramaturgia de João Pedro Azul.

O Festival FIAR 2018 acontece dias 3, 4, e 5 de agosto em Palmela, e celebra este ano 20 anos de existência. Conversámos com a sua Directora Artística, Dolores de Matos sobre esses 20 anos, sobre a edição deste ano e a sua programação, e sobre as artes em Portugal.

Este ano celebram 20 anos. É um sinal de resistência?
É um sinal de resistência, sem qualquer dúvida, por todos! Ao longo dos últimos cinquenta anos, é frequente ouvir-se falar da morte desta ou daquela arte. Parece-nos mesmo que sem essa anunciação a sua vitalidade esmorece. Portanto é compreensível e natural o seu movimento contínuo de resistência, de convulsão do seu tecido criativo, ora provocada por forças internas, ora por forças externas. Mas estamos firmes na convicção de que os valores que inspiraram o Manifesto FIAR, em 1999, são hoje tão pertinentes como na altura, mas precisam, mais do que nunca, que os defendamos. Não nos intimida a falta de apoios institucionais; não nos demovem fronteiras; move-nos o apoio e carinho dos públicos e dos artistas que ao longo destes anos têm surpreendido e emocionado milhares de pessoas que assistem/participam no FIAR. Aos tempos de incerteza que ensombram o futuro, seja deste Festival, das artes ou da vida – de que a arte é afinal o espelho – respondemos como sempre: felizes como se fosse a Primeira Edição, intensos como se fosse a Última. A resistência é assim um movimento contínuo.

Este foi o primeiro ano em que a DGArtes abriu concurso directo às Artes de Rua e Circo Contemporâneo. Era urgente?
Foram anos a reivindicar, junto à Tutela, o apoio directo para este sector das Artes. Pela primeira vez, foi aberto um Concurso para as Artes de Rua e Circo Contemporâneo, sinal de que há mudanças em curso, ainda que lentas e tardias. Num momento em que o lugar virtual se assume como o mais apetecível, não deixa de ser irónico que a rua veja ser-lhe devolvida a importância política social e cultural, no fundo aquela que é a sua génese teatral. Não chega! Este apoio tem de ser visível, discutido com as Estruturas, por parte da Tutela, e continuado. Importa referir que a Rua é espaço de encontro, de potência, de política, de devir. Devanear pela rua com olhar atento é algo aconselhável a todos.

Como vão decorrer estes 3 dias de festival?
Trabalhar numa vila, longe do ruído urbano da cidade, exerce sobre os artistas uma grande atracção. É o lugar perfeito tanto para a concentração como para a inspiração. Palmela oferece muitos espaços únicos: as ruelas, os miradouros, a paisagem circundante, o mar, a serra, a história, a atmosfera de libertação e intimidade que se vive um pouco por todo o lado: espaços que promovem um clima perfeito para que os artistas, veteranos e emergentes, tirem o máximo partido desta experiência. O sentimento de estar e viver este lugar, potencia o sentido de coesão, fazendo de Palmela um lugar de encontro estimulante entre artistas e um público atento e numeroso. A rua é o palco, Palmela o lugar, e o FIAR vai tecendo mapas criativos e imaginários onde as gentes se possam perder e reencontrar, numa experiência única e imersiva, sensitiva e sensorial, simultaneamente individual e colectiva. Esta ocupação pela arte do espaço público, do seu meio natural e urbano, promove, inevitavelmente, a valorização cultural, patrimonial e ambiental do Município. Será com estas matrizes que mais uma vez se tecerá o FIAR 2018.

O que destacas da programação?
A Programação, como vem sendo hábito, é plural e diversa nas linguagens propostas, apostando quer em produções próprias e co-produções, quer no convite a estruturas emergentes nas Artes de Circo e Teatro de Rua, como são exemplo a Erva Daninha e Teatro da Didascália, a par de estruturas e artistas já com obra reconhecida, como são o caso da Leonor Keil, da Mónica Calle, ou do Teatro Praga. O FIAR não é um festival de destaques. Há até um itinerário, a decorrer sábado e domingo, a que damos o nome O QUE É PEQUENO É BELO, a comprovar que tudo e todos são o corpo do FIAR e merecem a devida atenção.

Qual a importância do trabalho que fazem com a comunidade local?
O trabalho artístico na e com a comunidade é fundamental, não podendo ser visto como uma moda passageira. Esta proximidade efectiva e afectiva resulta numa sociedade mais participativa, mais comprometida e, com certeza, menos distante destas discussões que nos assaltam. Desde a primeira Edição em 1999 que o FIAR tece relações próximas e diversas com todo o Movimento Associativo do Concelho e com eles construímos uma bela Estória que perdura, ao longo destes 20 anos. Foram e são muitas as experiências artísticas que envolvem membros e grupos das comunidades locais, centenas de músicos das Coleticvidades centenárias do Concelho que colaboraram nas produções do FIAR, alguns desses espectáculos foram premiados internacionalmente. O projecto Satélite FIAR, Teatro Avozinhas, reconhecidas Internacionalmente e que têm um trabalho continuado desde 2001, estreiam mais uma criação nesta Edição do FIAR – (IN)CERTAIDADE.

Que actividades promove o FIAR fora do festival?
O Festival FIAR teve início em 1999, em Palmela, sendo o primeiro Festival de Artes de Rua a acontecer em Portugal, após a Expo98, acontecimento que veio revitalizar este universo artístico, em todo o país. De forma a assegurar a produção do Festival, foi criada em 2000, a FIAR, Associação Cultural. Em parceria com a Câmara Municipal de Palmela e O Bando (até 2008), asseguram a organização do Festival. A associação foi-se estruturando até se definir como Centro de Artes de Rua (CAR), dando continuidade à sua missão de desenvolvimento destas artes, promovendo a criação de projectos que envolvam e dêem protagonismo aos habitantes locais, recuperando, para o universo artístico, as tradições, as rotinas, os ambientes, as estórias, enfim toda a herança sociocultural da região e o investimento ao longo destes anos na Formação e Criação própria em Circo Contemporâneo. Neste FIAR, estreamos mais uma produção em Circo – DAS CINZAS. Hoje o FIAR/CAR assume-se como uma estrutura profissional de programação, criação, formação e difusão, a desenvolver com persistência e coerência um trabalho no domínio das artes para o Espaço Público e Circo contemporâneo, merecendo o reconhecimento, ao ser convidada, em 2006, a integrar a Plataforma Europeia INSITU, única na Europa, onde estão representado festivais e estruturas de referência internacional, contribuindo fortemente para o desenvolvimento cultural da Região.

Que desafios encontras por estarem sediados em Palmela?
Por vezes, é em pequenos lugares, como Palmela, periféricos, longe dos grandes centros urbanos, que acontecem projectos improváveis e inovadores. Lugares que possuem as suas histórias, os seus contextos, mas não possuem uma identidade, uma política cultural integradora. Vai-se inventando, improvisando mediante o caso. É preciso mudar esta ideia de que nesses lugares só se faz animação cultural. Existem, sim, as festas, as celebrações, as manifestações culturais, e são muito bem-vindas, mas também existe um trabalho mais profundo e continuado, onde a pesquisa, a reflexão perante questões contemporâneas, o investimento nas singularidades artísticas, são eixos fundamentais de acção. Para que tal seja possível, é necessário que estes espaços sejam permanentes e que recebam apoio para se equiparem com materiais e infra-estruturas de qualidade. Porque é que aqui seria diferente?
Em Palmela, houve um investimento, ao longo destes 20 anos, na Cultura e nos projectos profissionais artísticos que aqui se foram desenvolvendo, como é o caso do Teatro O Bando e do FIAR.
20 Anos depois, as Ruas de Palmela são história viva do FIAR e da teia de emoções que alimenta a Vila.

Como vão as artes em Portugal?
A criação artística, em Portugal, é generosa e plural, atenta ao presente, rica em cruzamentos disciplinares e linguagens diversas. Os artistas portugueses vêem com frequência o seu trabalho ser reconhecido internacionalmente, seja no teatro, no cinema, na dança, entre outros. Infelizmente, as condições de trabalho ainda estão bastante aquém, gerando situações comuns de precariedade, quer de artistas quer de estruturas, A necessidade de estabelecimento de verdadeiras políticas culturais e de modelos de apoio às artes, adequados à realidade cultural do país, é urgente e fundamental.

Comments

  1. Alexandre Nobre says:

    Muito Bem!!!!

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