EIRA – Entrevista

eiraFundada em 1993, a EIRA é uma estrutura actualmente dirigida pelo coreógrafo português Francisco Camacho e o programador e gestor cultural Rui Silveira que tem desdobrado a sua acção pela criação, produção e difusão de espectáculos e audiovisuais, organização de festivais e eventos, promoção de actividades de formação e pesquisa, contribuindo para a oferta cultural em Portugal e para o desenvolvimento da arte contemporânea, muito particularmente na área da dança.  A EIRA é hoje reconhecida, quer em Portugal quer no estrangeiro, como uma referência por excelência da dança e da performance contemporânea portuguesa, quer enquanto estrutura de criação, produção e difusão de artistas, espectáculos e eventos, quer enquanto espaço de trabalho e cruzamento de criadores e projectos artísticos.

Depois de 16 anos no estúdio da R.Camilo Castelo Branco, a EIRA e toda a comunidade da dança, têm uma nova casa na Graça. Como vai ser este novo projecto?
A EIRA celebrou recentemente um protocolo com a Sociedade de Instrução e Beneficiência “A Voz do Operário” para a ocupação e dinamização das instalações do antigo Teatro da Graça em Lisboa pelo periodo (renovável) de dois anos. Esta oportunidade surgiu através de um convite à EIRA por parte da coreógrafa Sílvia Real ao nível da partilha de um espaço comum de trabalho, uma vez que EIRA, à semelhança de muitas outras estruturas portuguesas, esteve a inícios deste ano na iminência de deixar de ter um espaço de trabalho permanente para o desenvolvimento da sua actividade.

O novo espaço no bairro da Graça em Lisboa – Antigo Teatro da Graça-  será maioritariamente e prioritariamente um lugar para a dança. Um espaço de ensaio para coreógrafos portugueses e estrangeiros que procurem um lugar para desenvolver os seus projectos de criação e/ou investigação.   Nos tempos dificeis actuais, acreditamos mais do que nunca na importância de apoiar a dança em Portugal e continuar a investir no cruzamento com outras áreas que consideramos relacionadas ou complementares, sem que isso implique afastarmos-nos daquilo que nos tem vindo “a mover” desde há muitos anos e que queremos continuar a apoiar – o desenvolvimento da criação coreógrafica portuguesa e a sua promoção no âmbito nacional e internacional.

O espaço actual compreende dois andares.Uma zona de escritórios, um estúdio de ensaios e espaço para arrecadação de cenografia. Ainda que maioritariamente utilizado pela EIRA e a coreógrafa Sílvia Real, algumas das salas deste novo espaço – onde inicialmente previamos instalar estúdios de ensaio e salas de formação complementares que poderiam aumentar a nossa abrangência ao nivel de acolhimento de criadores e projectos em residência –  continuarão a ser utilizados pela Voz do Operário para a arrecadação de material desta associação.

À semelhança do antigo estúdio da EIRA este será o espaço de trabalho permanente  dos artistas associados à EIRA  (Francisco Camacho, Mariana Tengner Barros, Rafael Alvarez e Tiago Cadete) mas também da coreógrafa Sílvia Real que partilha agora com a EIRA este novo espaço. Serão apoiados também pontualmente outros artistas e estruturas portuguesas, quer ao nivel da cedência de espaço de escritório e mas também de ensaio.  Além do acolhimento e desenvolvimento de projectos criativos ao longo do ano, está prevista também a realização de ensaios abertos ao público, de apresentações informais bem como resultantes um “programa educativo”  junto dos alunos da Escola da Graça da Voz do Operário e da comunidade em geral que será desenvolvido sob a coordenação e direcção de Sílvia Real em colaboração com artistas integrantes deste programa que foram e serão convidados pela coreógrafa.

O antigo Teatro da Graça, será portanto mais um espaço de trabalho, encontro e diálogo de criadores e entre estes e o público em geral (com especial atenção ao moradores do Bairro da Graça ) mais do que propriamente um espaço  de apresentação de espectáculos.

Este vosso novo espaço, foi-vos cedido pela Voz do Operário – Sociedade de Instrução e Beneficência / Escola da Graça. Pensam apostar mais na formação e educação artística?

Tal como referi, este novo espaço será o lugar onde a EIRA continuará a desenvolver a sua actividade ao nível da criação, produção e difusão de espectáculos dos seus artistas associados mas também ao nível de apoio a outros criadores – com especial atenção a criadores emergentes. Continuará também a desenvolver o seu programa de formação e sensibilização de público, através da realização regular da aulas da Oficina de Dança Contemporânea para Séniores ministrada por Rafael Alvarez ou as Aulas de Dança Contemporânea para Crianças ministradas por Dora Fonseca. Paralelamente, a

coreógrafa Silvia Real, com uma vasta e sólida experiência ao nível do trabalho com a comunidade coordenará um programa regular da sua autoria que compreenderá aulas semanais e ateliers junto dos alunos da Escola da Graça da Voz do Operário (e da comunidade em geral)  e que será realizado em colaboração com artistas convidados pela coreógrafa.

A agenda de espectáculos para 2013/14 é muito internacional. Têm tido mais propostas de fora?
Sim é um facto. Temos tido um maior número de propostas mas também desenvolvemos muito trabalho nesse sentido nos últimos dois anos, pois é um trabalho que se faz a longo prazo. Contudo, não se trata de termos tido mais ou menos propostas de fora. Essa não é a razão por termos uma agenda mais internacional face a outras de anos anteriores.

O trabalho de difusão em qualquer estrutura de produção e difusão implica sempre um grande investimento por parte da equipa de produção e difusão ao nível de contactos com programadores de teatros e festivais (internacionais neste caso) com vista à venda de espectáculos. Essa é a única forma de assegurar a promoção do trabalho dos artistas e consequentemente assegurar viabilidade financeira da estrutura.

A EIRA tem apostado sempre na internacionalização dos seus projectos e da dança contemporânea portuguesa em geral. Contudo, em anos anteriores temos procurado investir mais na circulação nacional de espectáculos  já que considerámos importante dinamizar e promover a dança a nível nacional. Essa foi a nossa prioridade nos ultimos anos.

Contudo, dada a actual conjuntura politica-economica portuguesa infelizmente a rede de  teatros e festivais nacionais está esvaziada mais do nunca de meios financeiros, o que é um problema.

O ano passado por exemplo, debatemos-nos com graves problemas financeiros devido ao não cumprimento contratual ao nível de atrasos e pagamento de honorários ou verbas de co-produção por parte estruturas nacionais. Algo que quase comprometeu a continuidade da nossa estrutura já que alguns dos espectáculos que realizámos não foram pagos (até hoje) e outros pagos com grandes atrasos que provocarão graves problemas de tesouraria.

Naturalmente, de forma a assegurar a continuidade da nossa estrutura houve um maior investimento por parte da nossa equipa de produção em apostar por uma maior circulação internacional, já que somos conscientes da realidade de muitos teatros e festivais nacionais e não nos podemos debater com os problemas do ano anterior.

Este ano conseguimos assegurar a presença de criadores associados à EIRA em importantes festivais de dança europeus como foi o caso de Mariana Tengner Barros no ImPulsTanz – Festival Internacional de Dança de Viena que terão seguramente um efeito multiplicador ao nível da difusão internacional de espectáculos. Obtivemos também recentemente um importante apoio por parte da DGARTES –  programa de internacionalização – que nos permitirá cobrir gastos ao nível de viagens e alojamento para a realização de digressões internacionais em 2013/2014 de criações de artistas associados à EIRA em importantes festivais de dança de África e da América do Sul, como é o caso, entre outros, do Dance Umbrella – Arts Alive Festival (o mais importante festival de dança da África do Sul e de todo continente africano) ou do Festival Internacional de Dança Contemporânea do Uruguai que por segunda vez nos convidou a apresentar alguns trabalhos em Montevideo.

O que vai ser o Festival Cumplicidades?
O Festival Cumplicidades é um novo evento bienal organizado pela EIRA dedicado exclusivamente à dança contemporânea  e à organização de encontros inovadores entre criadores e profissionais da dança portugueses com outros colegas do resto do mundo.

Trata-se de um novo projecto que surgiu na sequência de uma necessidade, debatida e identificada já há alguns anos por muitos profissionais da comunidade da dança portuguesa: a importância de existir novamente em Lisboa um festival internacional totalmente dedicado à dança contemporânea.

Um festival que, por um lado, encomende e co-produza  novas criações a coreógrafos portugueses e que, por outro lado, promova nacional e internacionalmente obras estreadas de coreografos diversos – portugueses e estrangeiros e que por outro  dê a conhecer ao público português diferentes visões e abordagens artísticas no domínio da dança contemporânea mais além da programação que já é feita nesta área no nosso país.

De edição para edição, o Festival Cumplicidades convida dois programadores, um de Portugal e outro do estrangeiro,  a apresentar diversas propostas de espectáculos e eventos, num espírito de liberdade, ainda que em articulação e diálogo com a direcção artística da EIRA.

Ao convidarmos diferentes programadores de edição para edição, pretendemos  garantir que o festival, na sua linha programática, não esteja confinado a um só olhar de um programador  ou director  e que de edição para edição o próprio festival se possa reeinventar.

Cumplicidades pretende co-produzir,  apresentar e reunir maioritariamente coreógrafos portugueses, mas também apresentar coreógrafos de outras partes do mundo,.Centrar-se-á sobre artistas independentes, emergentes ou mais reconhecidos cujo âmbito de trabalho é a dança ou que desde outras disciplinas artísticas trabalham com o corpo, o movimento e o pensamento como referência.

Pretende constituir-se como ponto de referência internacional da dança contemporânea portuguesa e, a médio e longo prazo, recolocar Lisboa no mapa europeu dos festivais de dança, funcionando como um polo dinamizador pensado para toda a comunidade de dança portuguesa, mas não encerrado nela.

A primeira edição será realizada em Março de 2014 no Centro de Cultural de Belém. A programação desta primeira edição estará a cargo de Ezequiel Santos (programador convidado para as propor espectáculos portugueses) e Danjel Andersson (programador sueco convidado para propor uma séries de espectáculos de coreógrafos estrangeiros).

Que passos tomaram para lidar com a actual conjuntura económica?
Como referido anteriormente estamos a apostar pela venda de espectáculos mais do que nunca. Os apoios actuais não nos permitem de todo assegurar condições financeirasnos permitam desenvolver e expandir a nossa actividade, tal como pretendemos. Neste momento temos que trabalhar  infelizmente com grandes restrições orçamentais . O facto de deixarmos de pagar uma renda permitiu obviamente um grande alivio ao nivel de gastos mensais, mas o novo espaço comporta também ele novos gastos, nomeadamente de obras de remodelação e renovação. Neste sentido, obtivemos recentemente um apoio por parte da CML que nos permitiu realizar um conjunto de pequenas obras.

A EIRA acredita na importância de contrariar a lógica crescente de “não crescimento” e de “estagnação” que assola o nosso país dai aventurarmos-nos com o lançamento de novos projectos num tempo de crise. Iremos continuar a tentar desenvolver e expandir a nossa actividade bem como procurar apoios financeiros no estrangeiro.

Pese às dificuldades actuais, continuaremos a lutar obviamente pela viabilização do projecto artístico da EIRA.  Tal como disse o escritor brasileiro  Érico Veríssimo “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”.  Essa é a estratégia da EIRA  ser um moinho de vento e de mudança.

Comments

  1. Entrevista interessante (e felizmente escrita longe desse pesadelo que é o chamado (des)acordo ortográfico).

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