Fernanda Mira Barros – Entrevista

Fernanda Mira Barros é a Directora Editorial da Livros Cotovia desde finais de 2016. Abraçou este desafio com unhas e dentes e tem levado a editora a novos projectos. Conversámos sobre como tem sido esse desafio, sobre o que procura num escritor, sobre os hábitos de leitura dos portugueses, e ficámos a saber que livros tem na sua mesa de cabeceira.

Como está a ser o desafio de liderar a Editora Cotovia?
Diz bem quando diz “desafio”. Implica dificuldade e eventual superação dessa dificuldade. O que não acontece sem esforço. Ora é exactamente o que se tem passado nesta casa desde o início do ano, que foi quando regressei. Trabalho em edição há muitos anos e nunca tive responsabilidades de gestão, nem as quis ter numa altura em que surgiu essa oportunidade. A partir do momento em que decidi regressar (e isso foi já bem no final de 2016) e pegar nesta casa como um todo, percebi imediatamente que também teria que gerir, uma vez que não temos dimensão para contratar um gestor. A única coisa a fazer nestas situações é reconhecer as nossas capacidades, o que implica, claro, reconhecer as nossas incapacidades. Ora, não percebendo eu nada de gestão, chamei pessoas que percebem e pedi um estudo minucioso, tanto desta casa como do mercado. Já tinha, muito cautelosamente, uma estratégia pensada, a qual se veio a verificar ter razão de ser. Depois foi ajustá-la aqui e ali. E agora estamos a implementá-la, esperando bons resultados.

Não sou de temperamento optimista mas, curiosamente, estou confiante. Mesmo sabendo que, por melhor que se estude o mercado, este é bastante insondável. Por mais que acompanhemos o que se está a editar noutros países, há sempre uma dose de imprevisibilidade. Trabalhamos com risco. Como os agricultores, que dependem da meteorologia, digamos assim. Ser editor independente não é nada mole. No nosso caso, há ainda as circunstâncias de uma casa editora pequena, com uma equipa pequeníssima. Trabalhamos muito. E há todo um catálogo e uma história da Cotovia, a que felizmente também pertenço quase desde o início (quando para aqui vim a editora teria 3 anos; vai fazer 30 em 2018).

Em suma, se tivesse que lhe responder brevemente diria que o desafio está a ser duro e empolgante.

O que procura num escritor?
Procuro uma escrita que me convença de que o tempo que lhe dedico não é tempo perdido, pelo contrário, é tempo ganho. Procuro elegância estilística, embora saiba ser este um conceito muito pouco objectivo. Para mim, vários tipos de escrita podem ocupar esse lugar. Um escritor pode ser estilisticamente elegante e duríssimo ao mesmo tempo. Talvez possa responder a esta pergunta pela negativa, ou seja, o que me aborrece num escritor, e que infelizmente ainda abunda, são os excesso estilísticos ocos de sentido, o uso recorrente a imagens estafadas, ou uma escrita barroca e fascinada consigo própria. Há escritores que poderiam ser bons mas que nos cansam porque exibem constantemente o seu talento e os seus artifícios. Não resistem a mostrar como são bons. Para não mencionar a auto-complacência, o excesso de lirismo ou de enfatuação, por exemplo. Enfim, não há uma fórmula para o que procuro num escritor. E o que procuro também depende do género literário e da idade do escritor. De um romancista de 30 anos não devo esperar o mesmo que espero de um romancista de 70.

E procuro entretenimento. É uma palavra que gosto de aplicar a bons livros mas muita gente desconsidera. Mas pergunto: se um livro não nos entretém, faz o quê? Aborrece-nos, entedia-nos. E ninguém quer ler livros enfadonhos. Eu, com toda a certeza, não quero. Nem os publico. Aliás, Shakespeare ou Camões ou Cervantes ou Eça ou Camilo, para dar exemplos que as pessoas reconhecem imediatamente, são entretenimento excelente, não são?

Que novidades podemos esperar nos próximos tempos?
Muita coisa. Além de continuarmos a colecção de clássicos greco-latinos (vai sair em breve uma notável tradução das “Epístolas” de Horácio, feita pelo Pedro Braga Falcão) e de planearmos fazer adaptações de clássicos universais para um público jovem, vamos dar continuidade ás grandes colecções da Cotovia. Poesia em edição bilingue (recentemente reimprimimos os três livros do Paul Celan), na colecção Sabiá, que é de literatura brasileira contemporânea, vamos lançar um livro notável do Estêvão Azevedo intitulado “Tempo de espalhar pedras” (o Estêvão é um autor jovem que nunca foi publicado cá), na colecção de Teatro prosseguem os volumes com as peças de Bertolt Brecht e planeamos volumes dedicados ao teatro de Lorca, de Strindberg, de Beckett, de Ionesco, de Pasolini, na ficção vai sair um romance de um autor de culto chamado Hubert Fichte (o livro chama-se “Um amor feliz” e haverá uma exposição dedicada ao Fichte na Maumaus), duas novelas de John Berger (e, deste autor, dois livros sobre arte sairão na nossa colecção de Arte), o “Mes amis” de Emmanuel Bove, enfim não me vou pôr aqui a enumerar, isso maçaria os leitores. Mas asseguro que temos uma excelente programação. E também temos surpresas. Vamos arrancar com uma chancela nova, intitulada “Libelinha”, ainda este ano. Nela sairão dois livros de que prefiro ainda não falar mas que são seguramente divertidos. Para o ano teremos, espero, mais duas chancelas novas a arrancar e distribuição no Brasil.

O que se pode fazer para desenvolver o hábito de leitura nos portugueses?
Não sei se se pode fazer alguma coisa. Parece, embora desconheça estudos recentes, que há mais gente a ler, vendem-se muitos mais livros. Ou seja, haverá mais leitores. Mas essas vendas parecem estar concentradas num número reduzido de títulos. Ou seja, vendem-se mais best-sellers.

Ora, eu não sei se ler best-sellers é um hábito de leitura a desenvolver. Quero com isto dizer que não me parece que ler seja o que for precise de incentivo. Por que haveria de precisar? Que bem vem daí ao mundo?

Mas se me perguntar como fazer para ter a alegria de ver o povo a que pertenço mais interessado pelas coisas belas da vida, entre as quais os livros ocupam um lugar inegável, aí talvez eu tenha uma resposta. Mas é uma resposta banal. Por um lado, fazer as pessoas perceber que, como disse atrás, ler livros bons é também um entretenimento. E, como disse um amigo meu e nunca esqueci, é o privilégio de podermos conviver em nossas casas, ou numa esplanada ou numa biblioteca, com os espíritos mais extraordinários que habitaram este planeta. Se as pessoas tiverem curiosidade em relação ao que eles pensaram, ao que criaram, à forma como viram o mundo, ao que tiveram para dizer e sob que forma, então vão ler livros bons. E quando se começa bem, viciamo-nos. Viajamos com grandes pensadores que, ademais, usam a língua de forma encantatória e elegante.

A escrita contemporânea é mais acessível em geral porque os autores se expõem e, se se mostram interessantes ou bonitos (que é outra forma de ser interessante, embora dizer isto não seja nada correcto), têm logo mais leitores.

Mas não tenho certezas na vida, portanto não estou absolutamente certa do que estou a dizer. Gostava que houvesse estudos sobre estes assuntos.

Como vê o estado da indústria editorial em Portugal?
Há um excesso de oferta muito idêntica, parece-me. Basta entrar numa livraria e vemos uma imensidão de livros que parecem versões da mesma coisa, uma espécie de repetição de um mote. Até as capas são muito parecidas. Mas da indústria do livro sei muito pouco. Presto mais atenção ao labor em pequena escala, que não tem que ser artesanal — embora haja pequeníssimas editoras portuguesas, aquelas que têm muita dificuldade em aparecer nas livrarias até porque muitas vezes nem ISBN têm, com um trabalho louvável. Na área em que incluo a Cotovia há, de resto, excelente concorrência.

O sector livreiro está a mudar e espero que mude rapidamente, que se recuperem as livrarias de bairro. São muitas as cidades que não têm livraria; vilas então, nem se fala. Há capitais de distrito, com polos universitários, que só têm papelarias que também vendem alguns livros, e, claro, grandes superfícies. Isso condiciona muito a oferta de qualidade nesses lugares. Estou convencida de que há muito a fazer fora dos grandes centros urbanos. E também nas vendas on-line. Mas os frutos desse trabalho levam tempo a maturar.

Que livros tem neste momento na sua mesa de cabeceira?
A minha mesa-de-cabeceira tem uma pilha de livros sempre. Tenho sempre um policial, alguns poetas e a poesia do Drummond anda comigo de um lado para o outro, sou amantíssima. Tenho sempre um Graham Greene, pela mesma razão. É dos amores da minha vida. E tenho autores portugueses de que gosto, porque preciso de ler a minha língua usada por quem a usou bem. Quando estamos habituados a ler originais e a rever traduções, impõe-se, até para nossa salubridade mental, este exercício que é ir às melhores fontes. E é sempre um exercício prazeroso. Pode ser a Irene Lisboa, o Nuno Bragança, o Mário de Carvalho, o O’Neill, a Adília Lopes, a Hélia Correia.

Tento não levar leituras de trabalho para a cama mas às vezes acontece. Não há outro remédio. E agora estou também a ler a autobiografia da Rita Lee. Eu e a minha gata Maria Vitória Augusta, que já comeu as primeiras páginas da Rita. O que só prova quão delicioso o livro é.

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Comments

  1. Excelente entrevista. Tenho a maior admiração por esta senhora e pelo seu trabalho. Obrigada!

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