Fernando Pessoa apresenta a sua vanguarda em Madrid

Por Ricardo Viel

Fernando Pessoa, que em vida nunca cruzou a fronteira de Portugal com Espanha, tem se tornado um habitué em Madrid. Nos últimos anos foram-lhe dedicadas três exposições na cidade: em 2014 na Biblioteca Nacional de Espanha, em 2016 no Círculo de Belas Artes e agora no Museu Reina Sofía. A diferença desta mostra para as anteriores é que Fernando Pessoa vai acompanhado. A exposição Pessoa. Toda a arte é uma forma de literatura, que foi inaugurada a 7 de fevereiro e fica patente até 7 de maio, leva ao museu mais visitado da Espanha as vanguardas portuguesas e explora o papel fundamental que o poeta de Tabacaria teve nesse modernismo luso.

São mais de 160 obras de arte (pintura, desenho, fotografia, gravura) de artistas como Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Sarah Afonso e Almada Negreiro, e centenas de documentos originais (livros, revistas, peças de teatro e correspondências). Tudo isso acompanhado de excertos de textos de Pessoa apresentados nas paredes com o mesmo destaque que os quadros, valorizando as palavras. «Toda a arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa», diz o verso de Álvaro de Campos que empresta o nome à exposição. E no Reina Sofía, a literatura é mostrada como uma obra de arte.

O português João Fernandes, responsável pela curadoria da exposição conjuntamente com a historiadora Ana Ara, conversou com a revista Blimunda sobre esse desembarque de artistas lusos na capital espanhola. Num domingo de sol em Madrid, com uma temperatura bastante agradável para o inverno, o subdiretor do Museu Reina Sofía guiou-nos pelas salas do museu e concedeu-nos esta entrevista.

Mais do que uma exposição sobre Fernando Pessoa, esta mostra pretende olhar para o modernismo português e o papel que o poeta desempenhou nesse momento cultural, certo?
Nem faria muito sentido num museu de arte uma exposição só sobre o Pessoa. Acontece que, entre as múltiplas facetas da sua textualidade, ele constrói conceitos de vanguarda e de modernidade que são extremamente singulares e curiosos porque se dissociam das vanguardas que vêm de Paris, que são aquelas de que ele tem conhecimento e são as dominantes naquela época – o cubismo, o futurismo etc. Pessoa contrapõe a essas vanguardas um outro sentido das coisas a partir da sua forma muito idiossincrática de se situar em relação à arte, à cultura e à vida. E é por isso que ele vai construir conceitos como o poulismo, o intersecionismo o sensacionismo que são conceitos de vanguardas muito próprios. E como muitas vezes ele não encontra protagonista para essas vanguardas cria os seus próprios, os heterónimos.

Há dezenas de revistas aqui expostas, qual a importância delas?
O Pessoa percebe que as vanguardas se difundem através das revistas. Cria algumas e participa noutras. Cria a revista protagonista do modernismo português, Orpheu, com Mário de Sá-Carneiro, que é quem lhe traz precisamente as notícias das vanguardas parisiense. Pessoa também tinha conhecimento do que se passava no mundo anglo-saxónico, sabe-se que ele assinava a revista Blast, que era uma das revistas de vanguarda da altura.

O Pessoa, que não é alguém que se interessava muito por artes visuais, vai coincidir nessas revistas com todos os nomes da modernidade portuguesa. Santa Rita Pintor, Almada Negreiros etc. Para ele, a literatura é a arte das artes.

Quais são as características das vanguardas aqui apresentadas?
Há uma coisa que é muito curiosa, a modernidade portuguesa não é uma modernidade que copia o que se está a passar em Paris ou noutros lados. Os artistas estão em contacto com essas formas de modernidade mas não as seguem mimeticamente. Há uma singularidade desses artistas portugueses e é muito tentador apresentar as suas obras a partir dos conceitos de Pessoa, pela singularidade também desses conceitos. Não se pode dizer que os artistas sejam uma consequência das ideias do Pessoa, nem que este intervenha no contexto da artes visuais da sua época, mas há esse paralelismo. E por isso pretendi ler a modernidade portuguesa, que é uma modernidade periférica, à luz dos conceitos do Pessoa. Apresentando-a como a primeira vanguarda periférica que é consciente dessa sua situação. A tentação, portanto, foi a de contar a história de uma vanguarda periférica a partir dos conceitos criados por alguém tão singular.

Como foi possível fazer uma exposição assim tão completa fora de Portugal?
Esta exposição aqui é possível porque algo que nos interessa neste museu é interrogar a história da arte juntando-lhe histórias que não são conhecidas. E não são conhecidas precisamente pelas relações de poder que estruturaram a história da arte a partir dos centros artísticos, políticos e económicos dominantes do século XX. A vanguarda portuguesa é uma dessas histórias periféricas. Achámos que o museu deve escrever incessantemente a história, propor novas interpretações e mostrar coisas menos conhecidas.

Qual foi a maior dificuldade na realização desta mostra?
Por um lado este paradoxo do escritor que não se interessa muito pelas artes visuais e a nossa opção por fazer, num museu de arte, uma exposição a partir desse escritor. Mas os conceitos de vanguarda que ele desenvolve são tão interessantes e específicos que é muito tentador fazê-la. A segunda coisa é como mostrar tesouros da arte portuguesa que estão, na sua grande maioria, nos acervos de poucas instituições, que manifestaram uma enorme compreensão. A Fundação Gulbenkian, por exemplo, é fundamental, não se conseguia fazer esta exposição, de que é coprodutora, sem esta colaboração. Tivemos a participação também da Biblioteca Nacional, da Casa Fernando Pessoa, do Museu do Chiado e de outras instituições. E tivemos uma resposta extraordinária de todas elas, o que faz com que muitas das obras mais representativas da modernidades estejam aqui.

O Pessoa é uma figura que atrai muita atenção. Tê-lo como ponto central ajudou a que a exposição se realizasse?
Sim, é uma figura que atraí e que, às vezes, é usada de uma forma oportunista, em minha opinião. O Pessoa está ao serviço dessa indústria do turismo que coloca Portugal na moda. Há um mito que se constrói hoje em Portugal, e que passa por coisas tão simples como o Pessoa fazer parte do passaporte português ou de uma loja que vende sardinhas em conserva no Rossio ter os seus poemas nas latas. Não é isso que nos interessa. Há esse efeito que faz com que o Pessoa quase que entre para a indústria do espetáculo e passe a ser um ícone pop. Nós não vamos por aí.

O Reina Sofía recebeu no ano passado quase 4 milhões de visitantes. Esta mostra pretende divulgar artistas modernistas portugueses ao grande público?
É um objetivo do museu apresentar histórias menos conhecidas da história da arte. Sem dúvida que apresentar essa exposição no Reina Sofia ajuda na divulgação desses artistas são muito pouco conhecidos fora de Portugal e que mesmo dentro de Portugal nunca foram apresentados juntos. Sem dúvida que isso implica uma acessibilidade maior a esses artistas difusão das suas obras, mas isso contribuiu, sobretudo, para interrogar uma história da arte e para interrogar o que possa ter havido de distinto e periférico nessa vanguarda. E colabora, também, para divulgar uma faceta menos conhecido da obra do Pessoa que é o seu pensamento sobre as vanguardas, e as vanguardas que ele próprio protagoniza e cria como alternativa às vanguarda mais conhecidas.

Sente-se orgulhoso, como português, de ver uma exposição tão ampla sobre o seu país no Reina Sofía?
Estou contente por ver obras de arte que gosto muito, algumas das quais tenho uma relação quase pessoal, possam ser apresentadas numa exposição que acontece no museu onde trabalho. Isso é para mim significativo, mas estou em Espanha num projeto internacional em que a arte não se define por sua nacionalidade e ou bandeiras, mas é importante que a arte não seja acrítica nem seja algo de neutro em relação à própria história. Nós aqui contámos a história da arte a partir dos seus conflitos enquanto muitos museus contam a história da arte a partir de uma pretensa neutralidade da arte, isto para nós não é possível. Para nós é importante explorar esses conflitos e explorar o que foi esquecido, descolonizar o museu dos próprios poderes que fizeram do museu o reflexo dos discursos dominantes de uma época. Nós estamos muito mais com os discursos que foram vencidos, porque achámos que os derrotadas da história continuam presentes numa história que está em constante mudança.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de fevereiro de 2018.

 

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