E agora? Enterremos os mortos e tratemos dos vivos? (2001)

Por João Fiadeiro

A arte, tal como as ciências, pelos avanços que promove, propõe e protagoniza, precisa de ser protegida e acarinhada. O seu fim (ou asfixia) é o fim da consciência critica de uma sociedade e o princípio de um sistema arrogante, que não reflecte sobre si próprio e que se dirige perigosamente para a intolerância.

No final da década de 80, numa garagem lá para os lados do Rato em Lisboa, um grupo de “miúdos”, motivados pela necessidade de dar novos nomes ao que viam, faziam e sentiam, discutiam horas a fio à volta das relações entre a arte e as ciências, dos espectáculos que tinham visto na noite anterior no Acarte ou, pura e simplesmente, à volta de um frango assado e umas cervejas. Na mesma altura, não muito longe, um grupo de “graúdos” entrava em rota de colisão com a lógica vigente do “sistema” e organizavam-se, com outros “graúdos”, de forma a servirem de consciência critica a esses e outros “miúdos”. Ajudavam a contextualizar as suas novas propostas e estimulavam as suas ânsias em se afirmarem enquanto artistas contemporâneos e independentes. Estes e outros exemplos, mais ou menos nos mesmos locais, mais ou menos pelas mesmas razões, criaram as condições para que, em 1990, alguns dos protagonistas da dança contemporânea portuguesa da década de 90 apresentassem os seus primeiros trabalhos na Bianual Universitária de Coimbra (BUC), evento que ficou na história como sendo o primeiro de uma série que confirmou e consolidou a existência de um movimento de criadores com personalidade e identidade próprias, independentes das dinâmicas existentes e com uma forte projecção internacional.

Dez anos mais tarde, em 2000, a pretexto das comemorações de um percurso que consideram ímpar, os mesmos “miúdos” (agora “mais graúdos”) voltam a reunir-se para analisarem e compreenderem o que de facto se passou nestes últimos dez anos e editaram uma cartografia da dança contemporânea portuguesa: o Documento 10+10. A ideia era, com a experiência acumulada, prepararem-se para os próximos dez anos e exigirem uma participação activa na construção dos seus futuros e das gerações que se seguem. Na altura tive a oportunidade de escrever nesse documento que “os próximos dois ou três anos serão decisivos para sabermos se o Estado conseguirá aproveitar o que esse movimento foi capaz de conquistar, criando as condições para preservar, transmitir e reciclar as únicas matérias primas que poderão servir de base para a construção desses futuros: a nossa memória e a nossa experiência.”

Estávamos no final do consulado Carrilho e hoje, passados os tais “dois ou três anos”, confirmaram-se as nossas piores suspeitas e receios.

A nossa geração não só não foi aproveitada como foi completamente abandonada. O Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE), liderado na sua génese pelo visionário Ribeiro da Fonte e que nos permitiu sair da alçada da Companhia Nacional de Bailado (uma das grandes conquistas políticas da nossa geração), deixou de funcionar há pelo menos dois anos e muito em breve deixará de existir. Do prometido e tão falado investimento estrutural ao nível da criação das infra-estruturas até as redes de difusão e descentralização, passando pelo apoio a escolas de dança contemporânea ou a criação de um figurino socio-profissional que tenha em conta o carácter intermitente da nossa profissão, nada foi feito. Ficou tudo por fazer, em suspensão, e sob capa das bem fundamentadas mas cobardes desistências, primeiro do ministro da Cultura e, um pouco mais tarde, do primeiro ministro.

E agora? Enterremos os mortos e tratemos dos vivos? Mas que vivos? Onde é que eles estão? As pessoas mais parecem zombis, anestesiadas por esta novela da vida virtual que são os casos da Universidade Moderna, as promessas de um Parque Mayer como nos bons velhos tempos (antes ou depois de 74?) ou, parafraseando um artista popular, com a maldita convergência.

Sim, maldita convergência económica que nos obriga, de uma forma artificial, a sermos iguais aos Franceses ou aos Alemães, mas sem a tão necessária convergência cultural, social ou cívica. E isso tudo por causa do papão do alargamento e o medo de vir à tona a forma como os fundos estruturais foram gastos em fachadas monumentais. Sim, devem ter medo dos países de leste, mas não porque tenham mão-de-obra mais barata. Antes por terem mão-de-obra mais qualificada e uma bagagem cultural que faz com que já tenham recuperado, em pouco mais de dez anos, aquilo que ainda não conseguimos em vinte e oito.

No outro dia, em conversa com um coreógrafo um pouco mais novo, fui confrontado com a sua admiração por eu estar-me a queixar quando era dos que mais trabalhava. Confesso que por momentos fiquei sem resposta e pus-me a pensar. Se sou, de facto, dos que mais trabalho — duas grandes criações num só ano produzidas pelo Porto 2001, Festival de Almada, Centre Georges Pompidou e Centro Cultural de Belém — e tenho as dificuldades que tenho — expulso como se fosse um marginal do meu espaço de trabalho (espaço A Capital), acordos com o Estado congelados um mês antes de terem lugar (programa de difusão), espectáculos anulados a dois dias da sua apresentação (Vila Real de Santo António, a 27 de Julho), contratos que teimam em não ser assinados (com o ANCA no Porto), teatros mal equipados e sem técnicos qualificados (são tantos…), endividamento à banca (na Nova Rede), atrasos constantes nas tranches dos subsídios (IPAE), falta de interlocutor com o poder central (MC) e local (CML), etc., etc. —, como é que não estarão os mais novos, aqueles que não “estavam nem no sítio certo nem na hora certa”, como eu tive a sorte de estar? O que será daqueles que não beneficiaram da visão de alguém como a Madalena Azeredo Perdigão ou dos que não beneficiaram de uma curiosidade europeia, exótica mas honesta, do que se fazia por aqui, neste país à beira mar plantado?

Não tenho resposta e não sinto que alguém a tenha (ou mesmo que se importe).
E pronto. Está tudo dito.
Não, só mais uma coisa.

O que está em causa não é a sobrevivência da arte, do teatro ou da dança contemporânea. É a sobrevivência de todas e quaisquer actividades que não tenha nas leis predadoras do mercado o seu principal parceiro. É a sobrevivência dos valores humanistas, do respeito pelas minorias e pelo desenvolvimento de cidadãos mais críticos, intelectualmente sãos e espiritualmente realizados.

E para terminar, um último pensamento.

A arte, tal como as ciências, pelos avanços que promove, propõe e protagoniza, precisa de ser protegida e acarinhada. O seu fim (ou asfixia) é o fim da consciência critica de uma sociedade e o princípio de um sistema arrogante, que não reflecte sobre si próprio e que se dirige perigosamente para a intolerância.

Tenho dito.