A dança contemporânea portuguesa (2001)

Por João Fiadeiro

A dança contemporânea portuguesa deve ser das únicas na Europa que, depois de se ter afirmado enquanto movimento fracturante e transversal no panorama da arte contemporânea, de ganhar uma projecção internacional ao mesmo nível que uma nova dança belga, francesa ou espanhola e de ter desenvolvido em Portugal inúmeras iniciativas pluridisciplinares de qualidade para a comunidade, continua a não ter espaços de trabalho próprios e adequados para a prática e desenvolvimento dos seus projectos, não está representada de uma forma assumida e consequente nas instituições de formação artística e é tratada pelo poder político — depois de ter sido usada durante a última década para ocupar as suas montras culturais — com uma arrogância confrangedora e um total desconhecimento da sua especificidade.

É verdade senhores e senhoras decisores, existe uma especificidade na dança contemporânea de uma Pina Bausch, de um Jan Fabre, de um William Forsythe, de um Alain Platel ou de um Steve Paxton idêntica à especificidade que encontramos em coreógrafos portugueses como Vera Mantero, Francisco Camacho ou Clara Andermatt, para mencionar alguns da primeira geração ou ainda Miguel Pereira, Teresa Prima ou Filipa Francisco para mencionar alguns da última. Essa especificidade, que passa pela aceitação de um corpo real, humano, que existe com os seus defeitos e virtudes, por uma clara e desinibida relação com temáticas políticas, sociais e filosóficas contemporâneas, por transformar o espectador numa parte activa e não passiva da compreensão do que vê ou por partilhar com o intérprete a responsabilidade do fazer artístico, destituindo do pedestal o coreógrafo todo poderoso, essa especificidade, dizia, que foi conquistada e confirmada e testada e apresentada vezes e vezes sem conta durante a última década, não está representada no Instituto Português das Artes do Espectáculo de hoje. A ter como referência os resultados e os critérios do ultimo concurso de apoio às artes do espectáculo, a dança que lá está representada é aquela que já lá estava no início dos anos 90, no tempo do célebre Instituto Português para o Bailado e para a Dança. Tudo se passa como se os últimos dez anos da dança contemporânea portuguesa não tivessem acontecido. Tudo se passa como se os últimos cinquenta anos de dança pós-moderna americana, da nova dança europeia ou do thanztheater alemão não tivessem acontecido. Tudo se passa como se os últimos cem anos de arte contemporânea não tivessem acontecido.

Estamos naturalmente a sofrer as consequências dos dois anos onde os ministros da cultura andaram a brincar ao poder o que, para além de virarem ao avesso todo o trabalho que vinha sendo feito desde a direcção de José Ribeiro da Fonte, criou, com a saída do professor Gil Mendo, um vazio incompreensível e insustentável de representação da dança no interior do próprio instituto. Mas a origem do problema vem da política de fachada de mega-eventos-para-Europa-ver da década de 90 e da forma como Manuel Maria Carrilho foi incapaz de criar, depois de ter conseguido regularizar o estatuto da dança contemporânea e retirá-la da alçada da Companhia Nacional de Bailado, as condições estruturais — através de um investimento claro em infra-estruturas e nas condições de formação — para que agora ela não estivesse tão fragilizada. E se alguém olhar para essa fragilidade como um sinal ou uma prova de que então deve-se é deixá-la morrer eu vejo como mais um sinal e uma prova de que Portugal continua à deriva, refém de uma incapacidade crónica em aproveitar o que de bom se faz por cá.

Mas ainda existe uma esperança: a de que estes subsídios de apoio às artes do espectáculo agora apresentados não representem o início do consulado Santos Silva mas o fim, o resto e o rasto do consulado Sasportes.