Eu sou RE.AL (2015)

Por João Fiadeiro

Os três textos que se seguem relatam os acontecimentos no momento imediatamente antes da saída dos resultados dos apoios da Dgartes de 2015 para o biénio de 2015-2016, onde se ficou a saber que a RE.AL e o Atelier Real não receberiam qualquer apoio.

25 de Maio de 2015
uma semana antes da saída dos resultados

O ESTADO A QUE O ESTADO CHEGOU

“(…) o início de execução do projecto artístico não está dependente da decisão final, pelo que a opção de avançar com a implementação do projecto sem qualquer certeza de os candidatos virem a receber financiamento é da exclusiva responsabilidade das entidades proponentes.”

Está sintetizado nesta frase, que podemos encontrar nas “perguntas frequentes” do manual do candidato do Programa de Apoio Financeiro às Artes da DGArtes, a perversão que orienta a relação entre o Estado e as estruturas artísticas que concorrem aos concursos de apoio às artes. Para além de uma “lavagem de mãos” descarada da responsabilidade estatal, a formulação desta frase demonstra que o desenho do concurso parte da premissa que as estruturas que concorrem não tem uma actividade continuada. Como se a cada fim de ciclo de actividade as estruturas fechassem as portas, despedissem as pessoas, entregassem aos senhorios os estúdios e espaços alugados, vendessem na OLX o material de escritório, cenografias e adereços para pagar as últimas despesas e, dependendo do resultado do próximo concurso e em função do valor que recebam (se receberem), voltem a contratar colaboradores, a alugar novo espaço, a dar inicio aos contactos com programadores, etc…

Todos sabemos que não é assim que as coisas se processam, nem seria possível construir o património de relações de confiança com colaboradores, programadores e espectadores, se as suas actividades tivessem o carácter intermitente que o desenho do concurso pressupõem. Da forma como estão estruturados, estes concursos só fariam sentido se fossem abertos seis meses antes do fim do último ano de actividades da uma estrutura subvencionada. Para que ela possa, ainda dentro do ano em que tem apoio, saber se nos anos seguintes terá ou não financiamento e se poderá ou não dar continuidade ao seu trabalho. Mas não. O Estado deixa que o ano termine, abre concurso em Janeiro, dá os resultados quando lhe apetece e obriga as estruturas, que tem compromissos como qualquer organização pública ou privada, pequena ou grande, comercial ou não-comercial, a fazer das tripas coração para manterem a sua programação activa.

Estamos a entrar no mês 6 (seis) do primeiro ano para o qual o concurso foi aberto e ainda não temos qualquer amostra de resultado sobre se, quando e quanto teremos acesso a esse financiamento.

Será que não percebem que o modo como colocam as estruturas neste estado extremo de precariedade, tensão e pressão, estão a dar um tiro no próprio pé? Que o investimento que fazem nestas estruturas de criação, formação ou programação, com anos e anos de experiência e de trabalho mais que provado no desenvolvimento de públicos, na projecção do nome de Portugal no estrangeiro, de formação de gerações e gerações de artistas e espectadores (tudo missões que deveriam ser do Estado mas que são feitas, na prática, por esta rede de estruturas absolutamente única), pressupõem um retorno em qualidade artística, em diversidade cultural, em prestigio internacional, que ficam perigosamente em causa com este tipo de descaso e amadorismo institucional?

Ao visitar recentemente a livraria do Centro Pompidou em Paris, Tiago Bartolomeu Costa ficou chocado com a banca de livros da dança contemporânea que tinha “15 livros, 10 deles sobre a história da dança na europa. Em nenhum deles um só nome português.”(Facebook 22/5/2015). Ele prossegue dizendo: “A História interessou sempre pouco aos que decidem porque, focados no presente e na ação, se esqueceram da maior das evidências: estas coisas preparam-se e não podem depender do acaso ou da resistência dos próprios criadores. O resultado está à vista: perdemos a memória de uns por culpa da ignorância de outros. Ao não querer escolher, aquilo que o Estado (nas suas mais diversas composições – do central ao municipal, das programações à ausência de apoios para a difusão) fez foi esvaziar a História comum de protagonistas.”. 

Eis o estado a que o Estado chegou.


2 de Junho de 2015,
logo após a saída dos resultados

EU SOU REAL

Pela primeira vez em quase 20 anos, a RE.AL e o Atelier Real não foram contemplados com apoios do Estado nos concursos abertos pela DGArtes. A primeira reação, à flor da pele, foi dizer basta. Chega. Não quero mais brincar a este jogo perverso, arbitrário, disfuncional. Mas passado o primeiro impacto e ultrapassada a crosta que se transformou a minha pele, a sensação de perplexidade começa a espalhar-se pelo corpo e agora, que já vai ao nível dos ossos, ficou claro que não sou transparente e invisível como quase nos fizeram querer. Sou REAL, estou aqui e estou presente.

Um projecto que atravessa um quarto de século de actividade intensa, ininterrupta e transversal; que se move pelas áreas da criação, investigação, acolhimento, residências e programação, de modo articulado e cruzado com a arte, a ciência e o quotidiano; com uma projecção e um impacto internacional como poucos; com um contributo inegável para a construção de uma ideia de comunidade artística e de um tecido afectivo, sensível e crítico em relação ao pensamento contemporâneo… não é reconhecido pelo Estado? Como é que se podem dar ao luxo de desperdiçar um projecto (em parte financiado pelo próprio Estado) já feito, já pronto, já provado, já testado, já implementado, já internacionalizado, já localizado, já entranhado e que, ainda por cima, é-lhes oferecido de bandeja, a preço da uva mijona? Como é que podem?

Se estivéssemos moribundos e a arrastarmo-nos pelos cantos, até compreendia. Mas estamos a passar por uma das fases mais vitais e vibrantes do nosso percurso. A REAL acaba de voltar em força ao trabalho coreográfico, com estreia no Maria Matos e no Rivoli na próxima temporada e com vários teatros europeus na calha para nos programar em 2016. E isso depois de alguns anos dedicada a um trabalho de investigação e sistematização minucioso (e, por definição, silencioso) em torno dos modos de operar da improvisação e da composição, em colaboração com universidades e escolas da Argentina, Brasil, Chile, Uruguai, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Roménia, Rússia, Ucrânia ou Estados Unidos, só para mencionar os mais recentes. Por seu turno, o Atelier Real tem contribuído de uma forma absolutamente evidente para a dinamização cultural do país e da cidade de Lisboa, com uma programação pujante e reconhecida nas áreas da poesia, música, edição, artes plásticas ou performance. E se houvesse duvidas em relação à sua importância enquanto espaço de residências artísticas, reparem nos países de onde nos chegaram propostas para o Programa Matéria Bruta que acabamos de abrir: Portugal, Irão, Lituânia, Brasil, Suécia, França, Espanha, Áustria, Alemanha, EUA, Itália, República Checa, Holanda, Irlanda, Suíça, Bulgária, Bélgica, Taiwan, Roménia, Turquia, China, Coreia do Sul, Síria, Finlândia, Hungria, Chile, Japão, Polônia, Ucrânia, Israel, Sérvia e Egito…

Sim, cometemos a heresia de separar as duas estruturas em dois concursos diferentes (dança e cruzamentos disciplinares), porque as suas respectivas programações, dimensões e diferenças, corriam o risco de se asfixiarem mutuamente. Talvez não tenha sido a melhor opção. Mas daí a sermos penalizados, deixando-nos de fora dos financiamentos públicos, roça a negligência.

E (cereja em cima do bolo) têm o desplante de nos informar que “foi declarada a inexistência da fase de audiência dos interessados” prevista por lei (onde poderíamos rebater várias imprecisões e omissões concretas que fizeram a nossa pontuação baixar dramaticamente), revogada por se considerar que isso atrasaria muito a entrega dos financiamentos ás estruturas. O quê? Importam-se de repetir? Esse argumento seria justificável se as causas tivessem sido externas (um incêndio, um vírus informático, uma dúvida de Cavaco Silva), mas como é que alguém que promove um concurso para 2015 (que só abre em dezembro de 2014 e fecha no final de janeiro de 2015) e só divulga os resultados no fim de maio (após uma média de 2,5 encontros por mês por parte do júri), vêm dizer que, por questões de tempo, não haverá audiência de interessados?

Shame on you!

Esta é a prova provada de que o sistema colapsou, entrou em pane, fez tilt. E que é tempo de fazer zoom out e tentar que esta situação não passe impune e desapercebida. E, sobretudo, que sirva para alterar profundamente a lógica do sistema. Não por mim, que tenho os meus meios e redes e formas de continuar a trabalhar (se não for aqui, será lá fora), mas por Todos.


9 de Junho de 2015
uma semana depois da saída dos resultados

O QUE FAZER DAQUI PARA TRÁS?

A REAL/Atelier Real precisa de olhar para as consequências práticas, directas e imediatas de tudo o que tem acontecido após a divulgação dos resultados dos concursos da DGArtes. Depois do impacto dos primeiros dias, em que a questão era o futuro, neste momento a questão que temos em mãos é o “passado”. À pergunta: o que fazer daqui para a frente?, há uma outra que se sobrepõem: o que fazer daqui para trás?

O prolongamento obsceno dos resultados do concurso, associado à sua abertura anormalmente tardia, obrigaram-nos a manter a programação prevista, mesmo sem saber dos resultados. Programação essa que precisa de espaço, de recursos humanos, de recursos técnicos, de comunicação, de, de, de, de… E tudo isso custa dinheiro. Dinheiro esse que não tínhamos. Ou melhor, tínhamos, mas não era nosso. Era da banca que, para nos emprestar, confiou no nosso projecto de gestão, no modo continuado como vínhamos sendo apoiados desde 1997 e no próprio dossier enviado para a DGArtes, que consideraram bem construído e fundamentado.

De um dia para o outro, aquilo que era para ser um adiantamento financeiro para fazer face à tesouraria, transformou-se em dívida. Dívida essa que podíamos não ter contraído se tivéssemos parado a programação em Janeiro, no dia seguinte à entrega das candidatura. Eles bem nos avisaram que a “opção de avançar com a implementação do projecto sem qualquer certeza dos candidatos virem a receber financiamento é da exclusiva responsabilidade das entidades proponentes.” Mas alguém terá que me explicar um dia (como se eu tivesse 4 anos) como é que poderíamos parar uma programação para a qual nos candidatamos? Como é que se justificaria o incumprimento dos primeiros meses de compromisso com o Estado?

São eles próprios que reconhecem esta contradição quando, no despacho que sustenta a decisão da DGArtes em “declarar a inexistência da fase de audiência de interessados”, escrevem que uma das razões para acelerarem o processo é o facto das “candidaturas admitidas ao presente programa de apoio (…) terem a programação prevista em fase de execução (…)”. Para a sua argumentação chamam a atenção da “importância dos apoios estatais para que as entidades beneficiárias possam implementar as suas actividades artísticas de forma a cumprirem o desiderato constitucional de serviço publico”. E por fim dizem esta coisa extraordinária: “(…) o Estado poderá estar a criar as condições para que as entidades possam entrar em situação de incumprimento contratual por inobservância do seu objecto, porquanto existe o risco e a instabilidade de não serem implementadas actividades artísticas já programadas, com claras repercussões sobre a sustentabilidade do setor artístico e no acesso dos cidadãos à fruição cultural”. Pode ser incompetência minha, mas como posso, ao mesmo tempo, cumprir (a programação para a qual me candidatei) e entrar em incumprimento (por não programar o que prometi)?

De qualquer forma, nada disto interessa agora. Esta situação precipita o inevitável: o fecho do Atelier Real enquanto espaço de programação. Bastou dois ou três números numa folha de cálculo Excel, para “cairmos na REAL” e perceber que quanto mais tarde pararmos, mais nos afundamos. E que, consequentemente, quanto mais cedo aceitarmos o fim, mais rapidamente começamos a preparar o espaço para gerar as receitas que precisamos para pagar a dívida que estes 6 meses de programação geraram. É duro, é triste, é estúpido, mas não há volta a dar. Vamos só manter algumas residências artísticas com quem possamos partilhar o estúdio e que estão desenhadas ao abrigo do parco (mas indispensável) apoio da CML. Mas o resto terá que cessar.

Resta dizer que o meu trabalho, como é evidente, continuará (começo os ensaios em Julho e estreio uma nova peça de grupo em Novembro no Maria Matos). E isso é algo que Estado não percebe: ao não financiarem um projecto como a REAL/Atelier Real (ou Cão Solteiro, Primeiro Sintomas, Citmor, NEC…) não estão a afectar o artista A, B ou C. Não se destrói um artista. O que se destrói é a própria ideia de comunidade, porque estão a mexer na fundação do viver juntos: uma rede delicada e sensível de relações, sinergias e dinâmicas de encontro, que dão corpo àquilo que chamamos de “estar vivos”.