O futuro, essa outra margem (2000)

Por João Fiadeiro

A criação de conteúdos para a elaboração do documento DEZ MAIS DEZ(1) aconteceu durante o ano 2000. Ou seja, antes da crise desencadeada pelo novo Ministro da Cultura José Sasportes no inicio deste ano. Os vários textos aqui apresentados já refletem um pessimismo e uma apreensão perfeitamente naturais em relação ao futuro, para uma comunidade minoritária e frágil que já começava a sentir na pele (no corpo todo) as consequências nefastas de uma política de fachada e rendida ao imediatismo dos mega-eventos. Essa política estava, como se de um virus se tratasse, a tomar conta de todas as decisões, iniciativas e estratégias culturais. Sentimos por isso, a necessidade da elaboração de um documento que reflectisse o posicionamento da comunidade. Mas na leitura dos vários textos e transcrições, também se nota que é um pessimismo e uma apreensão construtiva. Nota-se uma chamada de atenção e não um ultimato. E sobretudo nota-se (sente-se) que quem reivindica sabe que tem um interlocutor que o escuta e que está atento ao desenrolar dos acontecimentos. Essa “figura” do interlocutor, fundamental para o bom funcionamento das relações entre a “sociedade civil” e o Estado, começou a aparecer no nosso vocabulário à bastante pouco tempo.

Rewind. Corria o ano de 1993 e acabávamos de sair – os vários representantes das estruturas independentes ligadas à dança – de uma reunião com o administrador do então recém formado Instituto Português do Bailado e da Dança. A nossa estupefacção era total. Não sabíamos se pelo facto de o senhor administrador nos ter confundido com meninos mal comportados de um qualquer colégio privado ou se por termos sido olhados como representantes de uma espécie rara, que urgia compreender de modo a desenvolver defesas mais eficazes para impedir a sua propagação. O nosso desespero era real. A APpD – Associação Portuguesa para a Dança, que também tinha sido recentemente criada por algumas das estruturas e indivíduos presentes na reunião, apercebeu-se que a tarefa seria bem mais complexa do que imaginávamos. E isso porque, e ao contrário do que ingenuamente pudéssemos pensar, não estávamos perante uma estratégia cultural da qual, de uma forma saudável, discordássemos ou sob a qual pudéssemos intervir e contribuir. Estávamos perante uma ausência total de visão política e de um profundo desconhecimento (e consequente desprezo) da realidade do terreno. Olhando agora, à distância, havia uma relação óbvia de causa-efeito (entre o desconhecimento e o desprezo) que só a nossa inexperiência nos impedia de discernir. Na verdade não era assim tão estranho… estávamos no reinado Santana Lopes, das palas do Sporting e dos violinos de Chopin.

Fast-forward para dois ou três anos mais trade: estou no meio de um armazém abandonado de Cacilhas a fazer um curativo na cabeça do José Ribeiro da Fonte. Lustrada e brilhante, tinha ido contra uma barra solta num corredor mal iluminado na Lemauto, um espaço onde o Grupo OLHO tinha acabado de fazer uma das edições do seu Festival X. O Zé, que gostava de “meter as mãos na lama” (embora andasse por outros corredores, bem mais iluminados, durante o dia), fez questão de visitar aquele espaço sujo, na periferia de Lisboa, com “pessoas estranhas” dentro. A razão da sua visita era simples: estava a desenhar o IPAE (Instituto Portugês das Artes do Espetáculo) e precisava de saber quem éramos, o que fazíamos, o que queríamos. Queria ouvir-nos para que o IPAE não fosse um mero instituto sem alma e fosse, de facto, nosso interlocutor no então futuro Ministério da Cultura. Todos sabemos que o IPAE levou uma ferida de morte com o falecimento de José Ribeiro da Fonte. Mas aguentou-se. E a prova é que a elaboração deste documento DEZ MAIS DEZ não só acontece em perfeito dialogo com o IPAE (estiveram presentes nas conversas a então Secretária de Estado da Cultura Catarina Vaz Pinto, a então diretora do IPAE Ana Maria e o então responsável pela dança no IPAE, o professor Gil Mendo) como é parcialmente financiado por ele.

É evidente que enquanto chamamos a atenção para problemas concretos, estamos conscientes de que esses problemas não nasceram agora e que são uma consequência directa de um país que passou ao lado do século XX, que teve uma das últimas revoluções democráticas da Europa Ocidental e que, por essa mesma Europa, está mais preocupado em criar uma imagem de si, do que encontrar e solidificar a sua própria identidade. Estamos, “simplesmente” a pagar a factura desse atraso. Mas mesmo assim, mesmo estando conscientes disso tudo, as dificuldades de antecipação e visão dos nossos governantes, sejam eles de que cor política forem, são um dos maiores e mais estruturais problemas da nossa sociedade. Por muitos avisos e chamadas de atenção que se façam, por muitos estudos que se apresentem, os nossos governantes só se apercebem do problema, só o aceitam como real, verdadeiro, quando ele acontece. O exemplo mais recente, triste e mediático é o do desabamento dos alicerces da ponte de Entre-os-Rios.

Mas outros alicerces existem que estão em idênticas condições de fragilidade e que sustentam plataformas vitais de relação com o futuro, essa outra margem. As pontes de que falo não são palpáveis e se caírem, passarão desapercebidas ao comum dos mortais. E isso porque as câmaras de televisão não as saberiam filmar, logo, não seriam transmitidas nas únicas janelas da realidade que esses mortais comuns têm na sua sala de estar. E, como toda a gente sabe, não sendo filmadas, não aconteceu.

O que pode vir a acontecer são gerações que se arriscam, por falta de visão ou total incapacidade de antecipação dos seus governantes, a ver mais um século a passar-lhes ao lado. O que lhes pedimos não são sequer novas pontes. O que lhes pedimos é que se apercebam das pontes que já têm. Ou melhor, não lhes pedimos nada, oferecemos-lhes. Oferecendo-lhe o que de mais precioso temos: pessoas. Pessoas com ideais, projectos, soluções alternativas. Pessoas que não se deixam apanhar nas malhas do imediato, que, ao agirem, estão conscientes de que pertencem a um todo e que esse todo não pode ficar reduzido ao palpável, ao adquirido, ao conhecido. Falo de artistas que pensam a sua arte, não como um mero instrumento de confirmação dos seus saberes e egos, mas como meios para contribuírem para uma maior compreensão dos nossos medos, sombras e dúvidas. Artistas que se confundem com cientistas. Cientistas loucos, talvez, mas com a visão de quem contacta frequentemente com o outro lado da margem e que tem, por isso, a sensibilidade e a possibilidade de contribuir para a construção de uma percepção de quem somos, condição sine qua non para a criação de identidade.

Outra das nossas motivações, ao avançarmos para a edição deste documento, teve a ver com a consciência que temos de que as imagens que utilizamos (reais ou metafóricas), para ilustrar a memória que transportamos e que nos vêem hoje à mente, muito facilmente podem perderem-se, tornarem-se difusas, desfocadas. E, por estarmos convencidos de que o que experimentámos e vivemos merece ser preservado, patinhado e transmitido, o DEZ MAIS DEZ representa uma esforço para não perder essa memória. É claro que essa consciência também representa que se não formos nós a fazê-lo, ninguém mais o fará. Também representa que não foram criados os mecanismos e os instrumentos para preservar, partilhar e transmitir essa memória. E representa sobretudo que o futuro é de uma enorme incerteza.

É por isso que este documento tanto pode representar o início, como o meio ou o fim de algo. Só daqui a alguns anos, gerações talvez, o saberemos. E por isso, desde já, aqui fica o meu pedido pessoal de desculpas às próximas gerações caso este documento, quando o estiverem a ler, represente o fim de um momento e não a confirmação de um momentum. E são desculpas sinceras de quem se sente impotente para fazer mais e melhor no sentido de mostrar aos políticos do vosso passado que, ao adiarem o nosso futuro, estão a hipotecar o vosso presente.

(1) Livro-documento DEZ+DEZ foi publicado em 2000 pela RE.AL e o Forum Dança. O título fazia referência aos dez anos de vida das duas estruturas, ao mesmo tempo que olhava para os dez anos precedentes e os dez anos que estavam por vir). Tinha o sub-titulo de “Contribuição para uma cartografia da Dança Contemporânea Portuguesa” com testemunhos de vários agentes ligados à dança contemporânea – coreógrafos, bailarino, programadores, produtores, tutela, etc. – transcritos de jornadas de trabalho e discussão que tiveram a duração de um mês.