Geração G.host (2009)

Por João Fiadeiro (1)

Dedico este texto a Isabel Alves Costa, com quem tive a oportunidade de discutir algumas das questões que abordo aqui, durante a viagem de comboio que partilhámos para Lagos, dias antes de o ler nos Encontros Alcultur 09. Pessoa importante no meu trajecto pessoal (apresentei no “velho” Tivoli o meu primeiro espectáculo – “Retrato da Memória Enquanto Peso Morto” – em 1992 e veio dela o convite para participar no Porto 2001), andou comigo ao colo em Paris nos tempos de exílio político, a Isabel foi uma mulher incansável na defesa de um equilíbrio são entre a contemporaneidade e a instituição. Deixa um vazio afectivo irrecuperável no já frágil e precário tecido artístico português.

A Companhia RE.AL , estrutura ligada à dança contemporânea portuguesa da qual sou director artístico, coreógrafo e, não menos importante, sócio-gerente, faz este ano 20 anos de existência. Olhando para trás (e já começa a haver alguma distância para se poder olhar para trás) nem sei como foi possível fazer tudo o que fizemos. A única explicação que encontro é a forma como herdámos a energia que as gerações anteriores nos deixaram no seguimento da tensão acumulada durante o período de contenção e repressão fascista. A minha geração tem feito o que tem feito, por nós e por todos os que não conseguiram fazer. Mas estamos, de certa maneira, a cumprir mal o nosso papel. Porque deveríamos estar a fazer por nós e por todos os que ainda não começaram a fazer. Deveríamos conseguir deixar este know-how que gerámos, bem organizado e preparado, de forma a ser utilizado pelos que aí vêm. Mas isso é uma tarefa que me parece ser cada vez mais difícil. A pergunta que se impõe é a seguinte: o que é que ficará desta bela história e para que é que ela serviu? E em relação à resposta, até para apimentar o debate, sou radical: receio que nada ficará e para nada servirá. Quanto muito ficaremos para a História e pouco mais. Só que a história está-me a acontecer agora e no futuro de pouco me servirá. A Dança Contemporânea Portuguesa vive este paradoxo terrível de ter tido um crescimento brutal nos últimos 20 anos – com a afirmação dos seus protagonistas na cena internacional e a criação de uma rede de estruturas extremamente complexa – ao mesmo tempo que ao nível local, é mantida à margem do sistema. E quando falo de “sistema”, embora queiramos fazer parte dele, é evidente que o que existe não nos serve. Por isso temos a tarefa acrescida de mudá-lo enquanto o ocupamos. E os “sistemas” mudam-se ao se identificarem as “ideologias” que estão ao nível mais subliminar. Por exemplo, esta caravela inocente que nos “persegue”… Está aqui desde sempre mas já não a vemos. E será esta uma das mais valias importantes dos artistas: quebrar padrões, dar a ver o que lá está e sempre esteve, deslocar o centro de gravidade da percepção, um milímetro que seja, para se poder ver o mundo de novo, como da primeira vez.

Desde os anos 90 que a minha geração anda a atirar os foguetes, a bater as palmas e apanhar as canas. E se isso será aceitável, vá lá, nos primeiros 10 anos de um percurso, durante o período em que a comunidade se está a afirmar, a ganhar a sua legitimidade e pertinência, começa a ser obsceno passados 20 anos. Temos sido obrigados a ser hóspedes e anfitriões de nós próprios sem que aquilo que fazemos, por muito que façamos, se inscreva e contamine as instituições. Na verdade, é quase como se não existíssemos. Como se estivéssemos, por falta de comparência, lenta e pausadamente, a desaparecer. Ao traduzirmos as palavras “hóspede” e “anfitrião” para inglês obtemos as palavras guest e host. Se as juntarmos, teremos exactamente aquilo em que nos estamos a tornar: em g.hosts(2). Aos poucos vamo-nos tornando fantasmas, imagens pálidas do que nos poderíamos ter tornado. E isso é trágico, sobretudo nesta arte que depende do corpo e que, como nos diz Helena Almeida, “termina nos pés, nas mãos. Acaba ali. De repente, termina.”. Para suportar esta minha tese, que sei não ser pacífica (mas alguém tem que fazer o trabalho sujo), gostava de recuar ao início deste milénio. No ano 2000, a RE.AL e o Forum Dança, que contava ainda com Ezequiel Santos na sua direcção, comemoravam 10 anos de existência. Editámos nessa altura um livro a que demos o nome de DEZ MAIS DEZ e que aproveitava o pretexto dos nossos aniversários para reunir um conjunto importante de documentos e testemunhos, na tentativa de cartografar a situação da dança contemporânea portuguesa. Estávamos, na nossa previsão, a meio caminho do percurso que importava fazer para solidificar os alicerces de uma política cultural, que à data se apoiava sobretudo em mega-eventos esporádicos e no talento de uma geração espontânea, daquelas que acontecem uma vez, de vez em quando. No editorial, Ezequiel Santos escrevia que “Portugal é um país pré-moderno e provinciano. De outro modo, não se compreende que o Estado não tenha investido na dança à razão do que os seus agentes mereciam, devido ao seu crescimento artístico e aos reflexos da sua actividade.” E continuava dizendo que “eventos como a Frankfurt 97, Expo 98 e Porto 2001, têm dado real existência do que não existe. Retirando o enquadramento de circunstância, a fachada é removida para voltar a mostrar uma colecção de escombros.” Terminava a sua reflexão dizendo que “os próximos dez anos dependerão do que se fizer agora, i.e.; ou se faz um investimento sério no sector ou continuaremos a viver no Reino da Estupidez de que Jorge de Sena nos falava. E se assim for (…) os portugueses continuarão a fingir que são europeus, que não são um povo conservador e a ter problemas simbólicos com o seu corpo” . Um diagnóstico demolidor mas que traduzia na perfeição o sentimento à época.

Volto a colocar a mesma questão de há pouco, mas agora a partir de um novo prisma: será que passados quase dez anos, este cenário continua a ser actual? Não quero ser o “pessimista de serviço” mas em minha opinião, os anos 00 ficarão para a história como a década das oportunidades perdidas, onde fomos presenteados com mais ministros da cultura por metro quadrado do que qualquer outro pais europeu (numa média de 1.4 por ano) e onde quase tudo ficou por fazer. Sobretudo se tivermos em consideração o potencial da geração de artistas, programadores, produtores, pedagogos, críticos ou técnicos saídos do pós-25 de Abril e que atingiu o pico da sua maturidade exactamente durante este período. Depois dos anos noventa, em que se investiu no fugaz e no espectacular, fazendo com que tudo rodasse à volta da figura do autor, exigir-se-ia que a próxima etapa fosse no investimento estrutural a médio e longo prazo. Mas não. Questões tão elementares como a miserável dotação orçamental para a cultura (0,3% do OE em 2009!), a inexistência de enquadramentos legais que protejam os artistas intermitentes, a falta de sensibilidade e visão do Estado para a realidade da formação em dança contemporânea, a inexistência de circuitos de apresentação e espaços de acolhimento que reflictam e potencializem os novos paradigmas da criação artística, tudo ficou em banho-maria, à espera de melhores dias. Estamos “parados no tempo” mas, ao contrário do Peter Pan, nós vamos envelhecendo e somos assim testemunhas (e mesmo cúmplices involuntários) da nossa própria estagnação. E em cima disto tudo somos ainda tratados por marginais e subsídio-dependentes. Há alguns anos, quando rebentou o “caso Rivoli” no Porto, escrevi um artigo de opinião no jornal Público intitulado “Eu, subsídio-dependente, me confesso” . Assumia que “o tipo de trabalho que produzo, as dinâmicas que promovo e o debate que provoco com a minha arte, só podem existir se for apoiado pelo Estado. E não é porque procure a marginalidade (estou sempre disponível para um contacto directo com o espectador e desenvolvo com frequência iniciativas paralelas para contextualizar e enquadrar o que faço), antes porque um gesto contemporâneo, por definição, questiona o adquirido e coloca-se por isso e por princípio em causa. Ou seja, faz exactamente o contrário de um gesto convencional, convergente ou consensual: não entretêm. E devo dizer que nada tenho contra o entretenimento. Consumo-o como outra pessoa qualquer e sei que exactamente por isso nunca deixará de existir. Serei eu a pagá-lo. Mas a minha arte, a partir de um prisma meramente mercantil, está condenada ao fracasso. E em nome de uma exigência artística, política e cívica, não faço concessões. Porque acredito, ingénuo, arrogante mesmo, que o que faço contribui para preservar a atenção e a tensão necessárias para nos mantermos atentos ao tempo presente. Condição para a preservação de um espírito contemporâneo, tolerante e democrático.”

Cruzo-me com frequência com alguns dos meus companheiros de geração da dança europeia, todos eles subsídio-dependentes em fase “terminal”. Não vale a pena citar nomes, porque todos os conhecemos. E é em conversa com eles que me apercebo da dimensão do nosso atraso enquanto comunidade e país. Porque com eles tenho um termo de comparação: começámos mais ou menos ao mesmo tempo, partimos da mesma linha de partida, partilhámos os mesmos palcos, mas continuamos a anos-luz de distância do tipo de financiamento e das condições de que têm para trabalhar. Só para dar um exemplo recente e actual: a Alemanha lançou em 2005 um programa a que deu o nome extraordinário de TanzPlan (um plano para a dança) e onde o principal objectivo é “juntar artistas e pedagogos, políticos das cidades, das regiões e ao nível federal, bem como a academia e as associações de dança, criando as condições para a colaboração […] e desenvolver assim as bases para uma política cultural.” Para desenvolver esse plano, têm à sua disposição 12,5 milhões de euros para gastar em cinco anos. Este valor em nada afecta as verbas que já existem para financiar a cultura. É dinheiro “a mais” e que tem como único objectivo fazer com que a dança tenha, ao nível institucional, um peso mais consonante com a sua real importância e influência no tecido artístico e económico. Eu sei que não somos a Alemanha (nem a França, nem a Bélgica, nem a Suíça, nem a Espanha, nem a Áustria… e por aí fora) e esta é uma comparação injusta se olharmos exclusivamente do ponto de vista financeiro. Mas eu não estou a comparar números. Estou a comparar visão, estratégia e coragem política. E se me perguntarem a mim, um artista “empreendedor” (como se diz na linguagem economiquês), é só isso que espero dos políticos: visão, estratégia e coragem. O resto fazemos nós. O que eles não percebem é que o seu trabalho não é substituírem-nos como tantas vezes tentam (sobretudo quando precisam de ornamentar as suas montras, para receber os votos dos “indígenas”), mas criarem as condições para que a arte de cada momento, aquela que traduz o nosso tempo, possa emergir. E para isso as ideias, os espaços, os corpos e por acréscimo, as políticas, têm que ser abertas e sensíveis aos movimentos das pessoas. Mesmo quando aparentam estar paradas.

E será esse, talvez, um dos problemas da invisibilidade da Dança Contemporânea: como não nos esta – mos sempre a mexer, aparentamos estar parados. Mas se olharmos com mais atenção, como nos diz o teórico e ensaísta André Lepecki, a Dança Contemporânea “muda lugares por via de uma radicalidade que lhe é própria: a co-presença de corpos em reformulação das suas normas interactivas.” E continua dizendo que “a dança, mais do que ser a linguagem do ‘indizível’ é, antes de tudo, a manifestação física de uma teorização radical do corpo – a dança pro – blematiza qual o lugar que o corpo biológico, o corpo social e o corpo fantástico, sempre em processo de serem (re)inventados, podem habitar”(3). Essa capacidade de mudar lugares que a dança tem, “num eterno estar-em-passagem”, confere-nos características difíceis de catalogar e “agarrar”, mas nem por isso menos palpáveis ou concretas. Em Dança Contemporânea nem tudo é “espectáculo” e muito do que se passa, passa-se “entre” as coisas, nos espaços-fronteira entre o pensamento e a acção, a ficção e o documental, o corpo e “tudo o resto”. E se nos quiserem “agarrar” têm, como nos volta a lembrar Lepecki, que “suspender os vossos hábitos (motores e políticos) de ‘estabilidade’, ‘centro’, ‘sentido’ e ‘gosto’.

(1) Texto adaptado da comunicação proferida no âmbito dos encontros Alcultur, Lagos em Abril de 2009

(2) Neologismo proposto pelo ensaísta e encenador esloveno Janez Janša a partir de um comentário de João Fiadeiro sobre o problema do anfitrião-convidado, durante uma mesa redonda em que ambos participaram no K3 em Hamburgo, Alemanha

(3) “A Pele Nómada”, 1995, texto para o programa do Festival “A dança muda lugares” organizado pela RE.AL no Centro Cultural da Malaposta