Nó Cego (2010)

Por João Fiadeiro

Nenhum ministro da Cultura se apercebeu de que não havia nada para acabar, porque nada tinha sido construído.

O olhar é doce, sereno, sincero mesmo. Os lábios, suavemente tensos, esboçam aquilo que pode vir a (ou acabou de) ser um sorriso. Os brincos ao longe, desfocados, lembram-nos que estamos perante uma mulher sofisticada, segura de si e “que não entra nas coisas por tentação”. Mas no meio desta composição idílica, algo não bate certo com o retrato de Gabriela Canavilhas feito pelo fotógrafo Pedro Cunha na primeira entrevista da ministra pós-PEC (PÚBLICO, 25/6). E o que não bate certo é o que ela diz. No famoso livro O Homem Que Confundiu a Mulher com Um Chapéu, de Oliver Sacks, existe uma passagem hilariante, onde um grupo de doentes com afasia ri perdidamente ao assistirem ao discurso de um presidente da república na televisão. Mesmo não percebendo as palavras, são-lhes “óbvias as grotescas incongruências e falsidades” do que é dito. E é por isso que riem. Porque sabem que aquelas palavras, por muito sentido que façam, são falsas e artificiais.

Que saiba, não sou afásico. Mas sou extremamente sensível ao discurso que jorra da boca dos nossos governantes sem o mínimo sentido do grotesco. Frases como “este é um período que será benéfico para a revisão dos princípios e dogmas que damos como dados adquiridos” são verdadeiros insultos à nossa inteligência e ao trabalho que temos vindo a desenvolver ao longo de 20 anos. Mas de que “princípios” e “dogmas” fala a ministra? A primeira vez que existiu um apoio estruturado do Estado à dança independente foi em 1997. Esse deveria ser o primeiro de outros passos a dar para se criar um tecido artístico maduro, autónomo e “europeu”. Mas como todos se lembram, Carrilho sai de cena dois anos depois e seguiram-se-lhe um “sem número” de ministros da Cultura (já lhes perdi a conta), cada um com a sua solução milagrosa e todos a quererem acabar com os “princípios” e os “dogmas” instalados. Nenhum se apercebeu de que não havia nada para acabar porque, pura e simplesmente, nada tinha sido construído. Como é que se pode mudar uma coisa que não existe? A nossa geração perdeu o barco (se é que alguma vez houve algum barco para apanhar) exactamente porque o know-how que gerámos não foi transformado em “conhecimento”, não tendo por isso um valor “palpável” social ou de mercado.

Em crise, há que reagir. Quem está “no terreno” sabe disso melhor do que ninguém. Mas sem floreados, sem negações e sem branqueamentos. Aliás, o primeiro passo para uma reacção bem sucedida, a esta ou a outra crise qualquer, é saber aceitar. E aquilo que esta ministra deveria aceitar – acompanhada de todos os outros que a antecederam – é que falharam. Falharam redondamente. A reacção a esta crise seria encontrada num ápice, sem dor e em conjunto, se o vosso trabalho tivesse sido feito. Se à volta destes apoios avulsos, que agora nos cortam, não fosse o deserto. Se existisse um plano, uma estratégia qualquer, a enquadrar e a estimular as nossas actividades.

Nos anos noventa investiram-se recursos humanos e financeiros astronómicos em eventos efémeros e de fachada (Lisboa-94, Expo-98 e Porto-2001), sob o argumento de que era preciso primeiro dar um “empurrão” aos artistas e ao país para depois se dar início ao trabalho de fundo. Criticável e discutível – eu escrevi uma série de artigos a dizer isso mesmo -, mas poderia ter resultado se tivesse havido o tal trabalho de fundo. Como não houve, o “empurrão” ganhou momentum e cá estamos nós, à beira do precipício.

A decisão de se cortar 10% aos apoios concedidos pelo Estado às estruturas independentes, sob o argumento de que o esforço cabe a todos, é absolutamente discricionária e suicidária. Penso que é desta que vão conseguir aquilo que nem o “pântano” do Guterres ou a “tanga” do Durão (e respectivas fugas “prà frente”) conseguiram: acabar de vez com a arte independente. O que estão a fazer não são cortes cegos. Estão-nos a dar um “nó cego”. Ao longo dos anos, os artistas independentes têm sido usados como cobaias involuntárias de uma experiência que tem como único objectivo manterem-nos para sempre no mesmo lugar, exilados nesta “terra do nunca”, no “(far-) West Coast of Europe” onde se encontra Portugal. Não digo que o façam de propósito – as intenções serão as melhores -, mas isso só piora as coisas. É como se não aprendessem com os erros do passado. É como se estivessem estado sempre aqui, suspensos, neste presente sem parto.