Quero falar da Expo (1998)

Por João Fiadeiro

Estava eu a escrever um artigo sobre a situação da Dança, os seus problemas, circunstâncias e impasses, quando deparei com o texto de João Martins Pereira, publicado no PÚBLICO de 21 de Abril, intitulado “Não quero falar da Expo”. De tal maneira me identifiquei com o que lá vinha escrito, que mudei logo de rumo. Tinha pensado chamar ao artigo qualquer coisa como “Dia Mundial da Sopa dos Pobres”, mas decidi “querer falar da Expo”, para contribuir, enquanto parte das “gentes das artes, das letras e do pensamento”, para um debate que me pareceu urgente, por termos chegado tão depressa e sem quase nos darmos conta, a uma tão grande apatia.

E se a causa dessa apatia poderá estar centrada no facto de toda a “intelligentsia” estar a “trabalhar” na Expo e por isso, como frisa JMP, “um debate vivo e estimulante sobre a Expo” se ter tornado “praticamente inviável” (e é verdade que, “olharapo”, ou director de produção, lumino-técnico ou barman, penso não conhecer ninguém que não esteja a participar de uma maneira ou de outra neste evento), as consequências dessa apatia, pior do que a própria Expo, serão a sua própria ressaca.

Uma ressaca tremenda, com a factura a ser paga – e com juros! – pelos “filhos” da Expo, os tais que irão viver o futuro que a Expo apregoa pelos sete mares. Mas os políticos, até em relação a isso, devem estar com as suas consciências tranquilas. O povo, depois de ter sido presenteado com tal festa de arromba, manter-se-á sereno por uns anos e, entretanto, o tempo passará, as pessoas continuarão moles, esquecer-se-ão e, quiçá, deixarão de reivindicar, de exigir seja o que for e o país continuará a olhar para o passado (que nessa altura será a própria Expo), calmo e sereno, à beira mar plantado e agora com todo o género de plantas.

Portugal sempre foi para mim um país sem rosto. Falo, naturalmente, do Portugal onde cresci, onde fui buscar as minhas referências e onde criei e desenvolvi a personalidade que me faz hoje fazer o que faço, ser quem eu sou, dançar o que danço, dizer o que digo. Quando perguntava, ingenuamente, onde estava o nosso rosto, respondiam-me que ainda estávamos à procura dele. Que a falta de rosto momentâneo era natural. Que fazia parte da revolução. Que era preciso esperar.

Diziam-me “espera aí que agora é Portugal”.

E foi assim, à procura do rosto perdido ou desconhecido, acreditando que ele, mais tarde ou mais cedo se revelaria, que fui crescendo, tentando contribuir para que essa definição acontecesse o mais depressa possível. Se já me era difícil suportar a orfandade cultural e social para que me lançaram, o vácuo que herdara, custava-me, ainda mais, suportar a incompetência e a incapacidade para recuperarmos o tempo perdido.

Quando, nos finais dos anos 80, se deu o “boom” da Nova Dança Portuguesa, tinha eu acabado de entrar na vida adulta e já considerava que era tempo de começar a aparecer um esboço de rosto que fosse. Mas aí a desculpa foi a Europa, e a moda passou a ser rostos com características, sinais ou manchinhas (na cabeça se possível) europeias.

Diziam-me “espera aí que agora é a Europa”.

Como ainda era jovem e acreditava no que me diziam, tentei durante alguns anos articular a minha própria criação individual, que se regia e sobrevivia ao ritmo bem europeu da Europália 91 e da Lisboa 94, com aquilo que considerava ser urgente ao nível estrutural. E isso foi a criação de espaços de experimentação e reflexão, a colaboração com outras estruturas artísticas e o desenho de modelos de articulação entre o poder central, local e o artista. Isso porque sabia (ou me fizeram saber) que o “movimento” de que fazia parte era ainda tão jovem, pioneiro e sem a “mãe-tradição” que, caso não pensássemos a médio/longo prazo, no mesmo tempo que nos impúnhamos enquanto artistas, o nosso esforço seria inconsequente.

Sustentado por essa convicção, não me preocupei com a falta permanente de condições, os inúmeros compromissos artísticos e pessoais que tive que fazer ou a inexistência de interlocutores estatais ou culturais. Porque sabia (diziam-me) que mal fossemos Europeus e o Cavaco passasse à história é que ia ser. O país já teria então passado pelas experiências dolorosas mas necessárias, da pós-revolução, da tecnocracia e da europeização e, então, o povo já estaria preparado para a experiência socialista.

O que, na minha leitura e em termos artísticos, significaria, sobretudo, uma enorme teimosia em investir nas estruturas e em tentar acabar com a política de fachada, uma tradição que vinha desde o nosso querido Sebastião. Mais, ir-se-ia aproveitar o “know-how” das primeiras gerações para começar, agora sim, a construir o futuro. Iriam recuperar-se teatros e criar espaços privilegiados para a pesquisa, experimentação e criação. Iriam-se criar as condições para a circulação de espectáculos. Iria promover-se o intercâmbio entre artes e também entre disciplinas do pensamento. Iria fomentar-se o desenvolvimento de uma formação alternativa, onde o aluno não seria visto como um potencial delinquente. Eu sei lá. Iria fazer-se tudo, porque nada estava feito – e também porque nos tínhamos habituado… a comprar feito. Quando perguntei, recentemente, se era desta que o rosto iria começar a definir-se, disseram-me “espera aí que agora é o mundo”. E assim, com os seus custos astronómicos e as suas programações descartáveis, Mergulhámos no Futuro.

Passados 24 anos da primeira desculpa, Portugal ainda é, para mim um país sem rosto. E é, sobretudo, um país a prazo. Não vislumbro ninguém que tenha a coragem e a força, repito, a coragem e a força, de incluir no pensamento e na estratégia política a importância do desenvolvimento da arte e de tudo o que ela movimenta.

Os criadores portugueses já não precisam de nenhum empurrão (desculpa central durante a Europália 91) e, felizmente, as possibilidades de apresentação já não se limitam ao serviço ACARTE da Fundação C. Gulbenkian (desculpa central durante a Lisboa 94).

O que eles precisam é de ser levados a sério!

É inadmissível que passados tantos anos de provas dadas por parte de criadores, organizadores, promotores e público, ainda não exista um único centro de apoio à investigação, à criação e à promoção, vocacionado para os problemas que a Nova Dança e os artistas performáticos contemporâneos levantaram durante esta última década.

É inadmissível que passados tantos anos de provas dadas por parte de criadores, organizadores, promotores e público, não existam escolas e centros de formação que dêem vazão e estimulem uma área com comprovada procura potencial tanto ao nível artístico, como ao nível social e económico.

É inadmissível que passados tantos anos de provas dadas por parte de criadores, organizadores, promotores e público, os profissionais da dança ainda não tenham acesso aos direitos e protecção social previstos pela legislação nacional ou pela legislação mais favorável de outros estados membros da UE em matéria de emprego, condições de vida e trabalho.

É inadmissível que estes últimos anos não tenham sido anos em que se investiu, de uma forma séria e perspectiva nas bases do nosso fazer e pensar artístico.

Há uma década que o ritmo criativo da maior parte dos coreógrafos independentes anda atrelado a projectos de “interesse nacional”. Os criadores estão transformados, disfarçados numa espécie de escuteiros culturais. Ora porque participamos nesses eventos (por convite…), ora porque, devido a eles, não tenhamos condições para fazer os nossos reais projectos pessoais.

É por tudo isso que não posso deixar de afirmar, neste Dia Mundial da Dança, que, ao contrário das aparências, ou melhor, por causa das aparências, a dança sobretudo a Nova Dança Portuguesa, está a passar um mau momento e que a EXPO 98 poderá estar a dar um duro golpe nas expectativas e ambições de toda uma geração.