A (rivo)lição de Pacheco Pereira (2006)

Por João Fiadeiro

Será que é tão difícil de aceitar que a grande maioria dos agentes culturais que dependem de subsídios, só os pedem por acreditarem que os espectadores merecem ter acesso a um tipo de teatro, de dança ou de cinema que, sem esses subsídios, pura e simplesmente não existiriam?

De tempos a tempos, quando o assunto do momento é propício para caucionar as teses de sempre, a “alta cultura” desce cá a baixo para conviver com o comum dos mortais. O artigo de José Pacheco Pereira de 19 de Outubro, “A Rivolução dos nossos dias”, é um hino à falta rigor e um manual de golpes baixos. A manipulação de dados é assustadora e se os mesmos princípios e critérios de análise do presente são aplicados na análise do passado, terei que voltar a ler todos os seus artigos, onde pensei estar a perante uma análise séria e cuidada dos factos históricos, e reconstruir a minha opinião sobre eles. José Pacheco Pereira parece ter perdido por completo o contacto com a realidade e falha redondamente o alvo de discussão. Limita-se a achincalhar os seus inimigos de estimação (a associação do Bloco com a ocupação do Rivoli é patética) e a perder-se com exemplos do passado completamente disparatados que, muito provavelmente, ecoam as últimas vezes que foi ao teatro. Revela ainda uma certa propensão para as teorias de conspiração. A cultura é uma forma de propaganda? Mas em que mundo é que vive? A guerra-fria já acabou e sim, já sabemos que a comunicação é uma arma, mas as guerras a combater são exactamente os exemplos de desinformação e contra-informação gratuita e palaciana que praticou neste artigo.Será que é tão difícil de aceitar que a grande maioria dos agentes culturais que dependem de subsídios, só os pedem por acreditarem que os espectadores merecem ter acesso a um tipo de teatro, de dança ou de cinema que, sem esses subsídios, pura e simplesmente não existiriam? E sim, não existiam porque não há público suficiente para este tipo de espectáculo. E qual é a surpresa? É claro que não há público! Ele tem que ser criado, estimulado, formado, e isso leva tempo e a responsabilidade está longe de ser só dos artistas. A questão que deveria estar a ser discutida, como já tinha escrito neste mesmo jornal a 16 de Agosto, é o falhanço da política cultural dos últimos anos “na formação artística, na criação de novos públicos, na inexistência de quadros como programadores, gestores culturais e produtores, na contextualização socioprofissional desta nova categoria de trabalhador, na criação de uma rede de teatros equipados, de espaços para ensaios, na internacionalização, etc. etc. etc. Tudo isto ficou por fazer ou a meio de ser feito.” O que é que sugere? Que abdiquemos? Que nos resignemos? Será que José Pacheco Pereira propõe é a extinção pura e simples dessa oferta cultural?

Mas como sou um pobre bailarino pós-moderno e ainda por cima subsídiodependente, permitam-me que recorra a Augusto Santos Silva, que até é ministro e terá a sua quota de responsabilidade nesse falhanço da estratégia cultural, quando, num artigo do PÚBLICO de finais de 2003 intitulado “Uma Elite, Dois Sistemas”, chama “a atenção para a flagrante (mas pouco anotada) descoincidência, se não contradição, entre o que a elite afirma no âmbito da educação e o que afirma no âmbito da cultura.”. Nesse artigo, citado pelo crítico Augusto M. Seabra num recente debate na Culturgest sobre a crítica de teatro organizado pelo blog “O Melhor Anjo”, Augusto Santos Silva propõe uma hipótese que me parece extremamente actual e serve na perfeição para este debate: a de que “existe uma elite social, constituída por reputados académicos, dirigentes políticos no activo ou na reserva, directores e colaboradores de jornais, que goza de uma justificada influência, de tal modo grande que se pode dizer que hoje define parte considerável da agenda pública. Essa elite dedica particular atenção aos temas da educação e da cultura. O registo geral é a crítica severíssima do que entende serem as consequências nefastas de uma alegada hegemonia, no passado recente, de duas correntes e modos de pensamento: os “filhos de Rousseau”, na educação, e os “subsidiodependentes”, na cultura”. Não vou reproduzir o artigo na íntegra, mas não posso deixar de citar uma das suas conclusões mais importantes: a de que essas elites, numa espécie de esquizofrenia nas políticas públicas, fazem “a apologia do “gosto médio” e da “arte média” como estrada de acesso à mais alta cultura. Nós que queremos banir os regulamentos da disciplina de Português e não nos conformamos com o excesso de vida quotidiana nos programas de História, nós que vilipendiamos (e bem!) a deriva hodierna para as equivalências globais, para a negação de hierarquias de qualidade e gosto, se rumamos à cultura logo descobrimos as imensas virtualidades da música ligeira como antecâmara da fruição cultivada dos eruditos e do teatro comercial como formador do gosto pelas artes do palco. Como se, a bem dizer, não houvesse diferença essencial entre Filipe La Féria e Jorge Silva Melo, ou entre Inês Pedrosa e José Luís Peixoto, ou entre Joaquim Leitão e Pedro Costa, ou entre a banda do coreto e a orquestra sinfónica.”. Meu caro José Pacheco Pereira, o Pedro Santana Lopes já não anda por aqui, o perigo já passou, já pode ir para Bruxelas.