Eu, subsídio-dependente me confesso (2006)

Por João Fiadeiro

A pretexto do caso do Teatro Rivoli ou do desabafo da pianista Maria João Pires, alguns comentadores, vulgo opinion-makers, têm tecido comentários pouco abonatórios sobre os artistas que funcionam e trabalharam tendo como referência o quadro de apoios do Estado.

Apoios estes que são atribuídos através da abertura de concursos públicos, que se limitam a tentar pôr em prática um esboço de estratégia cultural onde se reconhece a existência de actividades artísticas, precárias por natureza, que só sobrevivem se forem apoiadas.

A questão de fundo é saber se se considera necessário equilibrar uma oferta mais comercial, natural e espontânea em qualquer sociedade de consumo, com propostas que exijam outra disponibilidade e atenção por parte do espectador.

E se a opção for a criação de condições para que este tipo de propostas exista e possa estar acessível à população (mesmo que a uma população minoritária quando comparada com aquela que se interessaria pelos Morangos com Açúcar), é evidente que o “lucro”, a haver, não será nunca económico (embora esteja por fazer um estudo sobre o impacto económico deste tipo de actividade), mas político e social.

Eu confesso-me: o tipo de trabalho que produzo, as dinâmicas que promovo e o debate que provoco com a minha arte só pode existir se for apoiado pelo Estado. E não porque procure a marginalidade (estou sempre disponível para um contacto directo com o espectador e desenvolvo com frequência iniciativas paralelas para contextualizar e enquadrar o que faço), antes porque se trata de um gesto contemporâneo que, por definição, questiona o adquirido e coloca-se por isso e por princípio em causa.

Ou seja, faz exactamente o contrário de um gesto convencional, convergente ou consensual: não entretêm. E devo dizer que nada tenho contra o entretenimento. Consumo-o como outra pessoa qualquer e sei que, exactamente por isso, nunca deixará de existir. Serei eu a pagá-lo. Mas a minha arte, a partir de um prisma meramente mercantil, está condenada ao fracasso. E em nome de uma exigência artística, política e cívica, não faço concessões. Porque acredito, ingénuo, arrogante mesmo, que o que faço contribui para preservar a atenção e tensão necessárias para nos mantermos atentos ao tempo presente, condição necessária para a preservação de um espírito contemporâneo, solidário e democrático. Também me recuso a olhar para o espectador como um mamute passivo a quem se tem que explicar tudo como “se fossem muito, muito burros”.

Se se considerar que um gesto assim é inútil ou que o Estado nada tem a ver com a sua existência então, meu caro Rui Rio, pegue lá na vassoura que o Vasco Pulido Valente tão gentilmente lhe deu e comece a varrer tudo à sua volta sem parar, de uma forma obsessiva e com convicção. Talvez assim, quando a poeira assentar, verá que não resta mais ninguém à sua volta e poderá falar sem oposição como tanto parece gostar.

Mas por favor, parem com essa conversa ridícula sobre o coitado do “contribuinte” que paga as despesas do artista parasita. Como se a casa em que vivem, as batatas que comem ou as camisas que vestem não fossem todos, de uma maneira ou de outra, produtos subsidiados.

O que a “gentalha” como eu faz, fá-lo porque Portugal reivindica um posicionamento… como dizer… mais europeu (leia-se finlandês).

E nas artes isso significa não só um investimento nos criadores (como aconteceu nos anos 90 e aí, para ocuparmos as montras da Europália, das Capitais da Cultura e da Expo 98, já éramos necessários) como um investimento na formação artística, na criação de novos públicos, na formação de quadros técnicos como programadores, gestores culturais e produtores, na contextualização socioprofissional desta nova categoria de trabalhador, na criação de uma rede de teatros equipados, de espaços para ensaios, na internacionalização, etc. etc. etc.
Tudo isto ficou por fazer ou a meio de ser feito. E é com isso que o coitadinho do “contribuinte” se deveria preocupar.

Por isso não batam mais no ceguinho. Sim, sou subsídio-dependente, mas independente das ideias feitas e retrógradas que reivindicam. Não preciso de ser reabilitado, nem ir para uma clínica de desintoxicação ou participar nos AA (artistas anónimos). Preciso é de sentir que o investimento que é feito em mim se inscreva numa estratégia global e concertada, de se criar em Portugal um circuito artístico alternativo ao pimba, ao “ligeiro”, ao popularucho…

E meu caro Mega Ferreira, sim, eu como outros ficámos em Portugal, mas não é fácil. É uma conversa que tive já com o próprio Rui Horta, onde falámos sobre se o facto de termos ficado, de continuarmos a lutar e a defender uma forma de arte e de relação com as populações com as condições precárias com que a praticamos, não será um pau de dois bicos. Exactamente por caucionar discursos como o seu na entrevista na PÚBLICA de 6 de Agosto, onde fica no ar a ideia de resignação perante o “país real” e que o trabalho de meia dúzia de sebastiões escamoteia o verdadeiro atraso deste país ao nível de uma política e estratégia cultural moderna e visionária.