Tirem-me deste filme (2001)

Por João Fiadeiro

A revogação da homologação aos apoios para 2001 não só revela um total desrespeito pelos artistas, como pode estar, sem que nos apercebamos, a dar a estocada fatal a uma comunidade ferida, que estava longe de ter atingido os níveis de anti-corpos necessários para sobreviver a uma tamanha asneira.

Fui convidado para participar na programação do Porto 2001 com a criação de uma obra que deverá estar concluída em Setembro de forma a ser apresentada no Teatro do Campo Alegre. Os meus co-produtores principais são a Porto 20001 SA, os Artistas Unidos n’Capital, a Amascultura e o Estado. A Porto 2001 oferece-me seis mil contos (um terço do custo da obra) mas avisa-me desde já que as despesas de viagem, estadia e alojamento terão que ficar a nosso cargo. Ou seja, sou penalizado por não ser um artista residente no Porto (para além de ser penalizado por ser português porque não acredito que um artista estrangeiro aceite estas condições). Os Artistas Unidos que nos acolhem na perspectiva da criação de um necessário e urgente Centro das Artes do Espectáculo n’Capital, são confrontados semana sim semana sim com ordens de despejo, cortes de electricidade e infiltrações (eu até tenho alguma sorte porque devo estar na única divisão do edifício que não chove). A Amascultura, associação cultural intermunicipal, está na mais profunda e total indefinição desde que Odivelas e Loures se separaram e o PS e o PCP passaram a dividir o poder dos municípios que a integram. O Estado, o meu principal parceiro, aquele que deveria ser o garante último, aquele com quem, a bem ou a mal, tenho vindo a manter um diálogo relativamente construtivo e que, em relação ao apoio para a dança, sobretudo desde 1995, tem vindo a fazer algumas melhorias (sobretudo através da elaboração de um despacho normativo), acaba de dar um tiro no pé. Em 1998, no dia 29 de Abril, dia mundial da Dança, escrevi neste mesmo jornal, em reacção a um excelente texto de João Martins Pereira o seguinte: “Há uma década que o ritmo criativo da maior parte dos coreógrafos independentes anda atrelado a projectos de “interesse nacional”. Os criadores são transformados, disfarçados em escuteiros culturais. Ora porque participem nesses eventos (por convite), ora porque, devido a eles, não tenham condições para fazer os seus reais projectos pessoais.” Um pouco mais à frente dizia que “colocar o artista na situação onde a única opção, para sobreviver criativamente, é a participação em eventos como a EXPO 98 é, a meu ver, alimentar, perpetuar e contribuir para que se mantenha uma política cultural de fachada, de aparências e, sobretudo, inconsequente.”No dia mundial da Dança do ano 2000, organizei uma iniciativa, com a cumplicidade de inúmeras estruturas de criação e produção independentes, onde denunciava a fragilidade da associação TJunction, uma estrutura Austríaca congénere às nossas, que “depois de 10 anos a proporcionar uma formação alternativa de alto nível à comunidade da dança independente austríaca e internacional, fechava as portas.” Um pouco mais à frente escrevia no dossier de apresentação que “poder-se-ia pensar, à primeira vista, que a tomada do poder por parte da coligação do partido conservador com a extrema-direita na Áustria, estivesse directamente ligada à estocada final que a organização acabou de receber. Não sendo totalmente mentira, o que está realmente a ser posto em causa são todos aqueles que se movimentam em áreas da investigação, formação e criação independentes.” E finalizava dizendo que “no caso de Portugal, todos sabemos que bastará uma ligeira mudança na arquitectura política em que vivemos (e não tem que ser nada de tão radical como na Áustria) para que as causas da dança independente sejam postas… em causa. As Lisboas 94, as Expos 98 e os Portos 2001 têm adiado o problema e mantido a ilusão de movimento, mas a nossa fragilidade é gritante.”Hoje, infelizmente, volto a escrever mas para contar os mortos e confirmar as minhas suspeitas. As Lisboas 94, as Expos 98 e os Portos 2001 já não conseguem adiar o problema. A nossa fragilidade é total e já não pode ser disfarçada. Estamos completamente à mercê de humores pessoais, tricas políticas e lutas territoriais dos barões, delfins e marqueses. Sejam eles autárquicos, governamentais ou culturais. A arte contemporânea independente (de iniciativa não governamental) é um peão num jogo demasiadamente complexo, que nos ultrapassa, e ao qual não temos acesso. E ainda bem, digo eu, porque caso contrário estaríamos a hipotecar a nossa própria condição de artistas e a caucionar a perda do norte (ops!) deste governo. Mas então quais são as opções que nos restam? Sair do país e ir ter com as Regos, os Saramagos ou os Damásios e voltar de vez em quando para dar uma conferência e receber um prémio? Ficar e sermos usados como moeda de troca, postos em pausa, ciclicamente adiados?