A velha-nova dança portuguesa (2006)

Por João Fiadeiro

Nos últimos seis anos, conhecemos outros tantos ministros da Cultura, o IPAE fundiu-se com o IAC para dar lugar ao IA, que, segundo consta, já tem os dias contados. (…) É triste, mas continua-se a agir em Portugal como se fosse preciso, sempre e outra vez, inventar tudo de novo

o 25 de Abril de 1974, muitos dos protagonistas daquela que viria a ser chamada “Nova Dança Portuguesa” (um movimento herdeiro da dança pós-moderna americana dos anos 1960 e da nova dança europeia, sobretudo a francesa e a belga) teriam entre 10 e 15 anos de idade. No final dos anos 1980, quando o movimento se afirmou através da conjugação de inúmeros factores, como o festival ACARTE, pensadores e críticos que suportaram teórica e estrategicamente os seus primeiros passos, o interesse internacional, etc., essa geração teria entre 20 e 25 anos. E quando, no fim dos anos 1990, se começou a desenhar uma política cultural em que, pela primeira vez, se dava à dança contemporânea uma identidade independente à da Companhia Nacional de Bailado, passando a haver concursos dirigidos a esta comunidade, eles teriam entre 30 e 35 anos.

Estamos em 1999 e, até aqui, as coisas seguiram os seus ritmos e rumos, com maior ou menor dificuldade, mas dentro do que seria de esperar num país à procura de identidade e com a população a construir a sua consciência cívica.

Se as coisas tivessem corrido normalmente, depois do investimento na criação – que aproveitou as dinâmicas das cidades europeias da Cultura de Lisboa (1994) e Porto (2001), da Europália 91 e da Expo “98 – os próximos passos de uma política cultural para a dança contemporânea teriam sido o estatuto dos bailarinos e das suas condições socioprofissionais, a transmissão, investigação e ensino da “dança contemporânea” através de um apoio sério e inequívoco às escolas que já trabalhassem com esta nova disciplina e a criação de infra-estruturas de acolhimento, apresentação e ensaio para os fazedores e fruidores de dança contemporânea.

Como sabemos, não foi assim que a história se escreveu. Nos últimos seis anos, conhecemos outros tantos ministros da Cultura, o Instituto Português das Artes do Espectáculo fundiu-se com o Instituto de Arte Contemporânea para dar lugar ao Instituto das Artes, que, segundo consta, já tem os dias contados, e foi durante este período que se praticou o desporto favorito de qualquer novo responsável político: a “tábua rasa”. Quais salvadores da pátria, num “agora é que é” confrangedor, não percebendo que a interrupção constante das estratégias culturais (mesmo das más) cria arritmias que podem ser fatais em áreas tão frágeis e sensíveis como é o caso das artes contemporâneas. É triste, mas continua-se a agir em Portugal como se fosse preciso, sempre e outra vez, inventar tudo de novo.

Agora, que essa mesma geração tem entre 40 e 50 anos, que a “nova dança” já lá vai – tendo dado lugar a uma comunidade complexa e diversificada nos seus propósitos, estéticas e formatos, assistimos perplexos à maneira arrogante e displicente com que o Estado continua a desperdiçar os seus recursos (neste caso humanos). E o mais triste é que não se apercebe que aquilo que foi construído por esta comunidade – os centros de residência artística, os festivais, as escolas de dança contemporânea, as companhias de autor e de apoio a coreógrafos emergentes, os espaços transdiciplinares e transgeracionais, o prestígio internacional, etc. – é património comum e raro mesmo a nível europeu. O Estado, quanto mais não seja para justificar e recuperar o investimento realizado, deveria preservá-lo.

Por isso, caro secretário de Estado da Cultura, falhados os canais directos, com as datas limite da abertura dos concursos a aproximarem-se vertiginosamente do fim e sabendo que seremos, mais uma vez, confrontados, via media, com factos consumados, aproveitamos esta oportunidade para lhe fazer algumas perguntas simples mas vitais para o funcionamento das estruturas que representamos. Qual o prazo estabelecido para a finalização do novo sistema de apoio aos projectos de iniciativa não-governamental (anunciado publicamente no início de Maio)? Se, como se diz, será de uma mudança radical, está prevista uma fase de transição? Quando é que a comunidade será chamada para dar um parecer sobre essa nova estratégia? Para quando se prevê a abertura dos concursos? A existência, como se especula, de contratos directos com algumas estruturas implicará o fim dos concursos de apoio aos projectos pontuais? E quais os critérios desta selecção directa?

Agradecíamos que respondesse neste ou noutro jornal de referência.

REDE – Associação de Estruturas para a Dança Contemporânea