Filipe Pereira (FEST) – Entrevista

Conversámos com Filipe Pereira, Director do FEST – Festival Novos Realizadores, Novo Cinema. É um evento que decorre anualmente em Espinho, e que este ano leva 40 países a concurso.
Fez-nos o balanço de 13 edições, abordou o facto de estarem fora dos grandes centros urbanos, falou-nos de formação, de públicos, e do estado do cinema em Portugal.

Que balanço faz dos 13 anos de FEST?
Extremamente positivo. Começamos como um grupo de recém-formados em cinema que procurava criar um espaço para que os novos realizadores, os cineastas que, como nós, estavam a começar, pudessem mostrar o seu trabalho e, agora, o FEST é um caso de estudo por ser uma porta de entrada para uma indústria que é extremamente fechada. Temos o maior fórum em educação de cinema do mundo, um Pitching Forum que, com apenas 5 edições, já ajudou a construir projectos que estrearam na Berlinale, em Annecy, entre vários outros festivais de relevo. Acompanhamos o percurso de realizadores como Dome Karukoski, que em 2009 ganhou o nosso Lince de Ouro e este ano volta, mas a abrir o festival,com “Tom of Finland”. No Training Ground conhecemos há muitos anos o Diogo Costa Amarante, que este ano venceu o Urso de Ouro em Berlim. Vimos Eugenio Caballero, designer de produção d’”O Laberinto Del Fauno” a contratar uma participante do Training Ground como sua assistente para a mega-produção “The Impossible”, com Naomi Watts e Ewan McGregor. Ao fim de 13 edições, passamos de pessoas que fazem cinema, a pessoas que ajudam os outros a fazer cinema, e é óptimo acompanhar estes percursos de criativos verdadeiramente talentosos.

Quais os prós e contras em organizar um festival de cinema fora dos grandes centros urbanos?
Os contras, ou desafios, são óbvios: atrair público para fora dos grandes centros urbanos, onde estão habituados a consumir este tipo de eventos. Conseguir atenção mediática e conseguir atrair a atenção de possíveis investidores. Quando não se está numa grande cidade tem de se fazer o dobro do trabalho para conseguir metade dos resultados. No entanto, no caso do FEST, há uma vantagem muito grande: Espinho sendo uma cidade pequena, mas de fácil acesso, na semana do evento facilmente se transforma numa “cidade de cinema”. Conseguimos concentrar os participantes, que não se dispersam como fariam num grande centro urbano e assim cria-se uma comunidade, no verdadeiro sentido da palavra. Isto é da maior importância para nós. Para além disso, temos o carinho da população local e uma relação muito próxima com a autarquia, que valoriza imenso o projecto.

O que destaca do programa de formação desta edição?
Temos mais uma vez um programa muito forte. Destaco talvez as masterclasses do mítico director de fotografia Ed Lachman (“Carol”, “The Virgin Suicides”), da actriz oscarizada Melissa Leo (que está a preparar a masterclass com uma produtora e uma guionista – será de certo uma boa surpresa e uma oportunidade única para cineastas) e de Iain Smith, produtor de “Mad Max: Fury Road”. É difícil fazer destaques, porque um dos pontos fortes do Training Ground resulta da diversidade e abrangência dos seus conteúdos que, cobrindo todas as áreas importantes na produção cinematográfica, me parecem essenciais para os amantes da sétima arte.

É difícil atrair os nomes sonantes do cinema mundial ao festival?
Não e sim. Não, porque a forma como o fazemos é um bocado por passa a palavra – os próprios convidados do FEST acabam por sugerir o evento aos seus pares: vêm cá, gostam do projecto, acreditam no projecto e querem ajudar. Sim, porque como os nossos convidados são tão procurados nem sempre é fácil, por mais que queiram vir, encaixar o FEST nas suas agendas. No entanto, não nos queixamos – é um bom problema de se ter. Eram estes formadores que queríamos atrair e ter cá e conseguimos fazê-lo – estamos incrivelmente gratos por isso.

O que é, e como é que um jovem criador se pode apresentar no Pitching Forum?
O Pitching Forum é a plataforma de investimento do FEST. Acontece durante o festival e tem prémios de mentoria com pessoas como Gareth Wiley (produtor de “Vicky Cristina Barcelona”), Kami Naghdi (produtor de “Rescue Dawn”, Tim Corrie (antigo Chairman dos BAFTA), prémios de pós produção suportados pela Goldcrest Films, Halo e Envy, que trabalharam em filmes como “Carol”, “MacBeth” e “The Danish Girl” e ainda prémios de formação para workshops profissionalizantes. Os projectos são pré-seleccionados, pelo que há uma fase de candidaturas que normalmente abre no início de cada ano. Quando os participantes são escolhidos, não são logo atirados aos lobos: têm treino de pitching e melhoria de projecto com mentores que têm também muita experiência na área. Só depois apresentam os seus projectos a um painel de júris que inclui investidores, produtores, agentes de talentos, entre outros.

Qual a estratégia para atrair novos públicos ao evento?
Promoção, promoção, promoção. Fazemos várias actividades para atrair diferentes públicos ao evento: temos um evento de apresentação durante o Festival de Berlim, fazemos um roadshow pelas universidades portuguesas e algumas estrangeiras, temos uma área de contacto com a população numa zona muito central de Espinho, onde tentamos que as pessoas descansem um pouco do sol da praia à sombra do cinema. Este ano também tivemos um warm up no Porto, que incluiu sessões ao ar livre e num comboio urbano Porto-Aveiro.
Também investimos muito na inclusão de crianças e jovens, temos uma secção dedicada às mesmas, a FESTinha, que é feita em parceria com o Serviço Educativo da Câmara. Em vez de ser só uma audiência, tornamos as crianças em júris, discutindo os filmes com eles, que depois atribuem um prémio ao melhor.

Como vê o estado actual do cinema em Portugal?
Muito entusiasmante. A participação portuguesa em grandes festivais, como Berlim, Veneza e Cannes é óbvia nos últimos anos e há imenso talento a crescer no país. Há uma nova geração que tem um desejo quase revolucionário de criar cinema e, para acrescer a isto, penso que com os incentivos fiscais que foram anunciados no início do ano, e com a atracção de produções estrangeiras que os mesmos podem gerar, toda a indústria em Portugal sairá beneficiada. Há muita mão-de-obra extremamente talentosa no país e muitos criadores incrivelmente hábeis. O futuro parece promissor e, no que de nós depender, iremos sempre promover o cinema português junto dos agentes e influenciadores de todo o mundo.

Mais sobre o festival em http://site.fest.pt/pt

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