Gonzalo Bénard, o artista que não é deste mundo

GBenard Antlers UpssEntre o muito que sempre haverá a dizer sobre o que é a Arte, e entre o pouco que sobre esta definição possa ser objeto de consensos, sobressai a sua dimensão transformadora.

A Arte transforma. Transforma, em primeiro lugar, o real que lhe serve de inspiração. Transforma, seguramente, quem dela se apropria, no sentido de fruir, de admirar a obra criada. E transforma de modo ainda mais profundo o criador – que diante do objeto recém-nascido de si, não mais será o mesmo.

Na história de vida de Gonzalo Bénard, a arte tem sido caminho. Diagnosticado aos 13 anos com um quadro no espetro do autismo de alto rendimento, fez da expressão artística uma passagem, ampla e generosa, para o mundo dos outros. Em vez de se esconder – seria o caminho mais fácil – decidiu expor-se.

Desta sua condição, o artista diz ter aprendido a privilegiar uma exacerbada consciência dos sentidos: os cheiros, os gestos, os olhares são códigos que decifra sem esforço, e que tantas vezes lhe servem de inspiração para as peças que cria, na escultura, no desenho, na pintura, na fotografia e também na escrita.

Aos 44 anos, Gonzalo Bénard prepara-se para lançar um livro autobiográfico, no qual descreve as fraquezas e forças de todo um trajeto. Mais uma lança disparada na direção de uma das suas cruzadas: desmontar ideias feitas. Um rótulo não seca uma vida.
Precocemente exposto à arte e à simbologia – influência de um pai heraldista – Gonzalo Bénard teve uma educação conservadora num colégio católico em Lisboa, cidade onde nasceu. Aprendeu dos clássicos e cedo se interessou por temas históricos e filosóficos. Preparou-se para encetar uma carreira estável e foi contratado por uma instituição cultural de referência.

Corriam os anos 90 e parecia o início de um percurso tranquilo. Até ao dia em que olhou para dentro de si e compreendeu que precisava de iniciar uma longa viagem, e que essa viagem seria, literalmente, a sua vida. Nos Himalaias, viveu três anos entre monges e xamanes tibetanos, com os quais estudou pintura e filosofia. Foi uma experiência forte – um quase renascimento, nas suas palavras. Regressou ao Ocidente, primeiro Lisboa, depois Barcelona, mais tarde Paris – onde, até agora, permanece.

Foi durante a década vivida em Espanha (2002-2012) que redescobriu a sua primeira câmara, uma Asahi Pentax. A partir de então deixou-se levar pelos trilhos da fotografia artística, uma área que tem vindo a aprofundar e que lhe tem valido referências em publicações de prestígio, como a Eyemazing, Gestalten e Thames&Hudson.

Representado em coleções públicas e privadas, tanto em Portugal como no estrangeiro, tem cativado o interesse de celebridades, como o músico Sir Elton John e a atriz Sharon Stone – ambos já adquiriram obras suas.

No seu trabalho são frequentes os modelos humanos e o uso da sua própria imagem, transformada. Num certo sentido, Gonzalo Bénard é também um performer. O corpo é matéria-prima de eleição. Fotografa preferencialmente em formato digital, recorrendo por vezes a técnicas pouco convencionais: webcams e ligações de satélite.

Gonzalo Bénard assume-se como um criador completo. O seu perfil é o de um experimentalista, que se diverte ao arriscar (provocar) os mais improváveis cruzamentos: da literatura com as artes visuais, da fotografia com o desenho ou a pintura, uma componente cénica sempre muito presente. Mistura linguagens, técnicas e materiais. Rompe tabus. A sua arte é despudorada – para chegar ao essencial, é preciso enfrentar o nu e o cru.
No próximo dia 31 de julho, pelas 19:00, o Centro Cultural de Cascais (CCC) recebe a última criação de Gonzalo Bénard – uma exposição de fotografia intitulada “Os Seres Imaginários”, que colhe inspiração no Bestiário Medieval, no Xamanismo Antigo e no livro homónimo do escritor argentino Jorge Luís Borges, uma espécie de tratado enciclopédico sobre entes bizarros nascidos nas profundezas da imaginação.

A mostra, comissariada por Bernardo Silva Pinto, ficará patente no CCC até 19 de outubro. Estranhos animais, híbridos e totens povoam as cerca de 30 obras expostas, algumas delas completadas com apontamentos de desenho e pintura. Fazem parte de uma viagem alucinante ao interior da mente humana.

Paralelamente, nesse percurso, coincidem alguns dos valores essenciais na obra do artista – os símbolos, as referências clássicas, a espiritualidade, a natureza, a humanidade. Focos de luz que têm alumiado caminhos entre o universo solitário de Gonzalo Bénard e outros mundos, que não o seu.

http://www.gbenard.com/
Exposição “Os Seres Imaginários”, de Gonzalo Bénard
Centro Cultural de Cascais
31 de julho a 19 de outubro
Visitas de 3ª feira a domingo, das 10:00 às 18:00
Entrada gratuita

Artigo Por Maria do Céu Novais

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