Henrique Amoedo – Entrevista

Foto de Henrique Amoedo

© Júlio Silva Castro

Esta semana viajamos até à Madeira para conversar com Henrique Amoedo, Director Artístico do grupo de dança “Dançando com a Diferença”. Trata-se de um grupo que integra pessoas com e sem deficiência e tem apresentado o seu trabalho em Portugal, mas também no estrangeiro. Conversou-se sobre as origens do grupo, sobre inclusão, sobre internacionalização, e também sobre o futuro.

Como surgiu o Grupo Dançando com a Diferença?
O grupo de dança, Dançando com a Diferença é, na realidade, fruto de um projeto mais amplo que começou a ser desenvolvido no ano de 2001 na Ilha da Madeira, em Portugal. No primeiro ano de atividades tivemos um grande processo de formação de intérpretes e monitores de Dança Inclusiva que fez com que anos mais tarde surgisse o grupo.

O Grupo é pioneiro a nível nacional. Que caminhos começaram a traçar e o que falta fazer a nível da inclusão social e cultural?
Quando cheguei em Portugal, no ano de 1999, eram inexistentes as iniciativas de Dança onde estivessem incluídas pessoas com e sem deficiência e que mantivessem alguma regularidade neste trabalho. Tínhamos trabalhos, normalmente no âmbito das instituições que trabalham com pessoas com deficiência, direcionados ao seu público alvo. Na Dança Inclusiva que propusemos desde então, há equidade também na forma de participação, desde o período inicial de formação. Fazemos com que a igualdade de condições durante o processo formativo aproxime todos, gerando diferentes referenciais que contribuirão para o desenvolvimento harmónico do próprio grupo.

Falta muita coisa. Falta criar legislação específica para que a experiência artística vivenciada por pessoas com e sem deficiência em projetos artísticos possam ser reconhecidas academicamente, faltam projetos profissionais que aceitem a participação de pessoas com deficiência em igualdade de condições com os demais artistas sem deficiência, enfim, muito já foi feito – o que é fantástico – mas ainda há algum caminho a ser percorrido.

Da Madeira para o Mundo. Como tem sido recebido o vosso trabalho no estrangeiro?
Relativamente a este ponto, não podemos nos queixar. O nosso trabalho tem sido muito bem recebido e apoiado na Madeira, no continente português e também no estrangeiro.

Este ano já realizamos um projeto de Dança na Comunidade no Brasil onde estiveram em cena setenta e sete pessoas, a maioria da cidade de Goiânia (onde foi desenvolvida esta iniciativa), mas também de Recife, Viseu e da Madeira. Tratou-se da remontagem do espetáculo ENDLESS, que criei em 2012 num projeto europeu e que tem como tema central o Holocausto na II Guerra Mundial.

A circulação da obra DOESDICON, uma criação de Tânia Carvalho para o Dançando com a Diferença em 2017, também está a correr muito bem. É um trabalho fantástico, que eu particularmente gosto muto e que consegue chegar a diferentes públicos. Para o nosso elenco também é um trabalho importantíssimo já que alguns dos intérpretes em cena têm, nesta criação, a sua estreia em grandes criações.

Neste momento estamos a ultimar os detalhes para a próxima estreia absoluta, uma criação da coreógrafa La Ribot chamada HAPPY ISLAND. Faremos a estreia numa temporada no início de setembro no La Bâtie – Festival de Genève e depois seguimos para Madrid, no Festival IDEM, da Casa Escendida.

HAPPY ISLAND (uma criação de La Ribot) / Dançando com a Diferença
Fotograma: ©Raquel Freire

Que actividades promovem?
São muitas. Ainda bem!!!

Em Viseu, desde o ano de 2017, numa parceria com o Teatro Viriato e o Conselho Local de Ação Social (CLAS) criamos o Dançando com a Diferença – Viseu. Através deste núcleo, o primeiro criado fora da Madeira, fazemos um trabalho regular de formação com alunos de instituições que atendem pessoas com deficiência na cidade. Por outro lado, mantemos um grupo principal, de índole inclusiva, onde participam elementos que anteriormente estiveram integrados em projetos desenvolvidos por nós naquela cidade. O Ricardo Meireles, que está à frente deste trabalho, tem sido incansável e muito profissional na manutenção da nossa filosofia de trabalho no Dançando com a Diferença – Viseu.

Na Madeira há as atividades regulares do Dançando com a Diferença e também há outros dois grupos, o de Iniciação e também o grupo Sénior. São três grupos em atividade regular, já há muitos anos. O Dançando com a Diferença – Sénior, por exemplo, tem neste momento uma bonita criação acerca das relações das suas intérpretes com o Bordado Madeira que merece ser vista. Estamos a trabalhar para que esta criação (GARANITO, de Natércia Kuprian e Telmo Ferreira, com assistência de Nuno Borba) seja apresentada em teatros fora da Madeira.

Em parceria com a Secretaria Regional de Educação desenvolvemos o projeto +INCLUSÃO. No último ano esta iniciativa centrou-se no desenvolvimento de competências individuais de alunos integrados em Unidades Especializadas sendo uma das nossas respostas a promoção do desenvolvimento das capacidades globais dos alunos com Necessidades Educativas Especiais, onde pretende-se criar as bases para a promoção da autonomia e vida independente dos alunos em contextos o mais aproximados da vida real, preparando-os para a vida adulta. São atividades que englobam aquisições e desenvolvimento de competências na área da culinária e limpeza de espaços comuns e privados, cuidados com a higiene e apresentação pessoal e mobilidade em transportes coletivos.

Enfim, há uma série de atividades desenvolvidas em diferentes núcleos de intervenção que têm sempre como objetivo final o desenvolvimento de competências sociais e artísticas, tendo estas últimas preponderância sobre o todo.

Que desafios/oportunidades encontram por estarem sediados na Madeira?
Relativamente aos desafios não estamos sozinhos. A insularidade a que estamos sujeitos torna o nosso trabalho mais oneroso e obriga-nos a um planeamento muito rigoroso do nosso calendário fazendo com que, algumas vezes, acabemos por perder algumas oportunidades. Infelizmente o princípio da continuidade territorial não é respeitado e muitas vezes acabamos por perder oportunidades. A distância dos grandes centros consumidores de cultura é um grande desafio, mas também acaba por ser uma oportunidade.

A proximidade que temos das pessoas e dos diferentes locais na bela Ilha da Madeira fazem com que possamos criar um ritmo muito próprio de trabalho. Podemos ser muito velozes, quando necessário, mas também podemos gerir tudo com mais calma e tempo.

Que planos têm para o resto de 2018?
Ainda há muito por fazer. Como já referi, logo em setembro preparamos a estreia absoluta, na Suiça, de HAPPY ISLAND de La Ribot, numa produção conjunta entre o Dançando com a Diferença e a La Ribot Cie. Depois seguimos em digressão com este trabalho. Depois preparamos o regresso à Portugal para a estreia nacional que acontecerá no mês de novembro no Teatro Viriato e seguimos em digressão.

Antes disso estaremos com DOESDICON (de Tânia Carvalho) no Teatro Virgínia em Torres Novas e acabaremos o ano novamente no Teatro Viriato com a reposição de ENDLESS (de Henrique Amoedo), o mesmo projeto que desenvolvemos no Brasil.

Para além destas atividades continuamos com as nossas aulas regulares (na Madeira e em Viseu), há alguns workshops e formações agendadas, um trabalho de consultoria em acessibilidade na implementação de uma exposição. Há muito por fazer, como disse no princípio.

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