How Deep Is Your Love

Por Ana Rocha

O que é esperado da Cultura? O que fica depois da Cultura? O que era a Cultura antes da Cultura existir? O que havia nesse território? Quem é que morava lá?

O que é suposto ser a Cultura, aqui agora, e de sempre? O que é Cultura para todos? O que é para todos e todas essa  dita Cultura? A Cultura é menina ou menino? Nasceu no privado ou no público? Alguém foi visitar a Cultura a horas certas?  Quem foi que a baptizou? Qual a sua religião? Qual o seu capital social? Foi a Cultura constituída, instituída ou sem fins lucrativos? Tem a Cultura palácio, edifício de arquitecto premiado, telhado de vidro, telhado de palha inflamável, paredes amovíveis? Ou terá bilhete de transporte, cartão de cidadão ou passaporte? Terá a Cultura morada, emissor ou remetente, destinatário ou destinados, familiares ou adoptado?

Onde é que a Cultura vive?

Onde é que a Cultura bate?

Onde é que a Cultura arranha?

Onde é que a Cultura deixa de ser bio produto de si mesma?

Onde é que a escala é igual a qualquer substância natural psicadélica, ou comprimido qualquer que Lewis Carroll deu à Alice? E depois a Alice desapareceu, foi raptada, ou ficou detida em um interregno.

Da memória do corpo, da valsa humana, daquilo que é naturalis verbalis sexualis animalis linguisticus e assim mesmo não o é, existe essa entidade que como uma ninfa, uma sibila, uma tecedeira, uma adualeira, uma mulher que vive algures no coração da floresta, está a Cultura.

Um dia visitaram a Cultura, e disseram que o território livre que era seu e da Natureza do Efémero, que tinha sido das suas mães, que tinha sido dos seus pais, amantes e amantas, que outrora viveram os seus passados com quem esta comunica em paz, em que onde “faz muito tempo” já sem conta desse espaço de medida, do buraco saiu a Luz .. disseram naquele dia, datado fora do calendário gregoriano, que iria ser despejada.

Um dia visitaram a Cultura, e disseram que se tornaria propriedade e que lhe iriam erguer um monólito com o seu nome, e que alguém reverencial e muito entendido sobre o assunto que porventura tinha o casaco pesado de medalhas, encontrou nela o símbolo da Humanidade. E que sendo assim, por aí em diante, teria lugar nos epítetos dos Arquivos dos Nomeados como “Aqueles Representativos do Todo e de Todos”.

Um dia a Cultura, acordou, e bateu a porta.

Um dia chegou alguém à tal casa na floresta, com fome.

Na mesa encontrou três malgas.

As ditas malgas estavam vazias.

Um dia, esse alguém ficou com um buraco na HISTÓRIA.

Tomar conta é a maior manifestação de esquecimento de si mesmo.

Tomar conta de nenhum voto é a maior manifestação de que algures se pode tomar conta sem conta de retorno esperado, ou ficha com retenção a pagar.

Tomar conta da fala e dela perder porque sim ou não, é a maior manifestação de cuidado e de curandoria.

Tomar Cultura é tomar conta do impossível de medir e quantificar, tomar conta do solto e desprendido, o Amor.

Tomar conta do que Nós, esquecemos.

Ana Rocha (1982, PT)
2211, Galáxia da Patagónia, Constelação 3355.A.R. \ AQUI AGORA.
#produtora, curadora, co-directora artística da MEZZANINE, coreógrafa, performer, dramaturga e ás vezes escritora#

Deixa o teu Comentário