Hugo Inácio e Telmo Ferreira (Caminho Marítimo para a Desgraça) – Entrevista

Hugo Inácio e Telmo Ferreira são os membros da Trincheira Teatro, um coletivo de atores de Coimbra que leva os seus  espectáculos um pouco por todo o país. Conversámos com eles sobre as origens do coletivo, sobre o tema dos descobrimentos, sobre os seus planos futuros, e sobre o que faz falta para animar a malta.

Como surgiu a Trincheira Teatro?
A Trincheira Teatro é um coletivo de atores de Coimbra que se juntou por dois grandes motivos: por sermos todos formados no mesmo curso (Teatro e Educação) e depois para contrariar a tendência de uma individualização da criação e dos projetos artísticos. Com o passar do tempo, a Trincheira Teatro foi ganhando a sua forma natural e hoje apresenta-se como um guarda-chuva para qualquer projeto que seja criado pelos seus membros. E é aqui que aparece o projeto DRA/MAT. É um projeto de dois atores (Hugo Inácio e Telmo Ferreira) a quem podemos chamar de saltimbancos do séc XXI. Como não temos todo o sistema normal de ensaios de uma companhia normal de teatro, resta-nos a nossa teimosia, profissionalismo, imaginação, criatividade e ousadia.  Ingredientes que são indispensáveis na nossa maneira de ver o Mundo e que foram moldando (e continuam a moldar) o que hoje é um projeto que procura levar a todo o público momentos vivos de provocação e divertimento.

O que vos levou a tratar o tema dos Descobrimentos?
Achámos que ao abordar os Descobrimentos estávamos a levar a cena um tema original nunca antes visto num palco … estamos a brincar… quer dizer, apenas em parte… apesar de muitas vezes já ter sido abordado este tema, poucos são os que falaram sobre infortúnios daquelas viagens.
Se pensarmos bem … viagens que passam por três continentes, que demoram meses e meses em alto mar, com aquelas condições de higiene e principalmente só com homens e as suas necessidades … não podem acabar em boa coisa, não pode ser tudo tão perfeito e limpo como imaginamos.
Foi a vontade de desmistificar algo que sempre assumimos como perfeito, que nos moveu a fazer o espetáculo. É mais bonito ver que foram pessoas com defeitos como nós aquelas que nos conseguiram tão grandes feitos, que vê-las como figuras divinas em que nada se relacionam connosco.
Todas estas peripécias não vieram só da nossa cabeça e é ai que vamos procurar inspiração às consagradas obras “Peregrinação” e a compilação de “Histórias Trágico-Marítimas”, histórias essas que faziam-nos rir de tanta tragédia.

Do que fala este espetáculo em concreto?
Fala de dois vagabundos que são condenados à forca depois de um assalto a um quintal e à filha de um nobre chamado Queiróz. Quando já estão no limite das suas forças e prestes a passar para o lado de lá, chega a notícia de que todos condenados à morte deviam embarcar na frota de Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia. O que seria um alívio para estes dois tornou-se na sua desgraça. Nada previa que uma viagem com a estrela nacional Vasco da Gama pudesse vir a trazer-lhes a fome, a miséria e uma tempestade que os mandasse do barco para fora. Sozinhos e no meio de uma tribo algures em África eles vão sendo empurrados de um lado para o outro, saqueados, roubados abusados e sem qualquer vislumbre de um horizonte. Mas porque depois da tempestade vem sempre a bonança, estes dois dão de caras com a sua fortuna: a terra que Vasco da Gama procura e que pela qual se escreveram tantos livros onde estes dois vagabundos, por certo não apareceram: a Índia.

Como tem sido a reação do público pelo país fora?
Surpreendentemente boa. Como já referimos, devido a todo um conjunto de circunstâncias não nos foi nem é permitido ensaiar num teatro e ter toda uma equipa que vai supervisionando o que vai sendo criado. Neste caso, nós somos os nossos próprios encenadores, figurinistas, técnicos e atores. E, por isso, por muito que tentemos ver de fora filmando ou saltando a meio de uma cena para poder ver o colega, nunca chegamos a ter a certeza do que é que funciona ou não funciona. Concordámos em deixar esse julgamento para o público. E tem sido uma surpresa. O que nós achámos que não funcionava tão bem parece que tem uma repercussão, e como o espetáculo é feito sob as bases da Commedia dell´Arte e Pantomima é criado sempre um ambiente muito descontraído e vivo de troca entre o espetador e nós. Tem sido sempre uma busca pelo aperfeiçoamento do espetáculo em cada apresentação, mas essa troca entre nós e o público tem proporcionado gargalhadas, imaginação e bons momentos por onde passamos.

O que têm planeado para os meses que se seguem?
Nos próximos meses daremos continuidade à digressão nacional e as datas de ancoragem mais próximas serão em Coimbra – Taveiro (dia 4 de Novembro), Santa Maria da Feira (10 de Novembro) e Oliveira de Azeméis – Carregosa 2 de Dezembro.
Como até nos damos bem e passamos mais tempo juntos que com as namoradas, pretendemos dar continuidade à dupla com mais um projeto, mas este não vamos revelar muito… até porque não sabemos bem… terá algo a ver com as lutas politicas.

O que faz falta para animar a malta?
Principalmente é assistirem ao nosso espetáculo!
Mas se fossemos imparciais diríamos que tem que haver mais do que o simples animar, o público tem que procurar para além do entretenimento … por exemplo o Caminho Marítimo para a Desgraça, embora tenha o seu caracter leve e cómico, dá mais ao público que isso, falamos de algo que não se costuma falar, falamos do reverso trágico daquilo que se fala na história como inteiramente bom e triunfante.
O Teatro e todas as formas de arte, na nossa opinião deve fazer o público ganhar sensibilidade e acordar para outras realidades. Se isto não acontecer, se não despertarmos quem nos assiste, estaremos a embalar o público, a adormecê-las … literalmente

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