João Mário Grilo – Entrevista

Monserrate

© Jonas Tavares

O realizador João Mário Grilo foi convidado para programar o ciclo de cinema “Esplendor na Relva, que decorre em Sintra durante o mês de julho de 2017. Imaginou este programa como se fosse um “filme feito de filmes”. Conversámos com ele para saber mais sobre esta e outras ideias em torno do Festival e do cinema.

Como surgiu a oportunidade para programar o ciclo de cinema “Esplendor na Relva”?
É um projecto que tem vindo a ser trabalhado há mais de um ano, através de um convite da Parques de Sintra – Monte da Lua, tendo em vista uma expansão do complexo cultural e museológico de Monserrate, aproveitando para experimentar a sua articulação com disciplinas artísticas heterogéneas. Neste caso, trata-se do cinema, o qual, a meu ver, pode beneficiar muitíssimo dessa convivência, como também beneficiará com certeza o público das projecções, uma vez que – pela dimensão e o entorno paisagístico – poderá ver esses filmes em condições que serão verdadeiramente únicas.

Penso que “ver um filme” não é, muitas vezes, suficiente. É preciso amplificar e intensificar essas condições de visionamento. Por alguma razão se fala de “Projecção”: projecção da imagem e do som, mas também dos sentimentos que os filmes contêm nessas imagens e sons e na sua montagem. Há mesmo quem diga que quando se desenrola o filme no projector há uma bobina que se enrola na mente do espectador e no seu espírito e memória. Essa bobina é o filme que cada um de nós acabará por levar para casa consigo. Acreditamos que o cenário de Monserrate ficará a fazer parte desse “filme interior” e da sua memória onde igualmente se exprime a nossa maneira própria de perceber e de sentir.

Em que critérios se baseou para as escolhas que vão ser apresentadas?
O principal critério foi a interpretação do espaço e de que forma ele poderia beneficiar dos filmes e também quais os filmes que melhor poderiam aproveitar das características especiais de Monserrate. Isso é especialmente importante nos filmes que serão projectados à noite, e no jardim, mas também naqueles que passarão no interior do palácio. Mas eu diria que não há aqui nenhuma “ciência”. O desenho do programa foi essencialmente intuitivo. À sua maneira, trata-se de uma espécie de filme, de uma interpretação cinematográfica da paisagem de Monserrate, olhada e sentida a partir da experiência de ver estes filmes ali mesmo, e em contacto directo com o “espírito do lugar”. Este conceito é, aliás, muito importante em várias disciplinas artísticas, a começar pela arquitectura, a acabar na música (nenhuma sala de concertos é igual a outra) e também, por força das evidências, no cinema. Por alguma razão e durante tantas e tantas décadas foi tão importante a arquitectura e a decoração das salas de cinema, como forma de ampliar a experiência de ver os filmes nesses lugares… cada um com a sua especialidade.

O ecletismo dessas escolhas foi procurado por si?
O ecletismo é decorrente dos factores que descrevi anteriormente, mas também de uma vontade de reunir grupos heterogéneos de pessoas, que não têm de ser “cinéfilos” para apreciar as qualidades de um filme como qualquer um daqueles que fazem parte deste programa.  São filmes que não excluem ninguém e cuja programação apela a uma grande diversidade de sentimentos: de Fantasia a Ran, por exemplo.

Existe, é claro, uma dimensão também pessoal nesta escolha e que passa pelo desejo de poder ver estes filmes naquele espaço. Desejo esse que espero possa vir a ser partilhado pelo maior número de pessoas, no contexto de uma experiência comum. Mas o ecletismo da programação tem também muito que ver com o ecletismo do próprio cinema; na verdade, se pudemos escolher estes filmes tão diversificados foi porque eles foram feitos e porque o cinema foi capaz de abrigar visões tão diferentes sobre o mundo, a vida e o que está além e aquém dessas dimensões mais contingentes do dia-a-dia, que é aquilo que alimenta os mass media.

Considera que estes filmes podem ser classificados como obras-primas?
Sim, na medida em que são filmes de uma grande singularidade e para os quais é difícil encontrar um termo directo de comparação – um par – muitas vezes até no interior da obra dos seus próprios cineastas. Qualquer destes doze filmes parece ter sido feito em “estado de graça”, levando ao limite as suas possibilidades narrativas, estéticas, etc. Veja-se, por exemplo, o caso de Vertigo, de Hitchcock, que é um filme que não pára de se desenvolver, muito para lá do ponto em que ficaria qualquer outro potencial cineasta; o mesmo para Tempos Modernos, de Chaplin, com a sua vertigem de gags que nunca poderiam ser melhores, ou os delírios de Serenata à Chuva, Fantasia, Ran… Há assim certos limites que são tocados nestes filmes, parece-me. Uma certa dimensão do sublime, mesmo que assumindo formas muito diferentes. Aurora, de Murnau, ou Senso, de Visconti, foram precisamente apontados como figuras privilegiadas desse sublime cinematográfico. Mas todos eles são filmes emblemáticos desta condição singular de ser uma “obra-prima”. São filmes que dão, por isso mesmo, um prazer completamente especial. E uma memória, também, que se quer, precisamente, potenciar com a sua projecção em Monserrate.

Em que medida é que o facto de ser realizador influenciou a escolha?
Ser realizador influencia tudo e isto também. Como já atrás disse, imaginei este programa como se fosse um “filme feito de filmes”. Daí ter falado de uma dimensão intuitiva, que não quis prejudicar por escolhas eventualmente mais “racionais” (ligadas, por exemplo, ao género, ao autor, ao país, ao ano de produção, etc.). Procurei assim ligar sensações a sensações, quase da mesma maneira que, quando se faz um filme, se liga um plano a outro, uma imagem a outra imagem. É certo que normalmente existe uma história que é preciso contar. Mas as possibilidades de a tornar visível são tantas! No melhor cinema, as escolhas do que um filme vai ser são muito abertas e, até, experimentais. Comunicam directamente com o espectador, quase sempre de forma passional. Foi o que tentei fazer com este programa que, por isso mesmo, tem vantagem em ser acompanhado de princípio a fim. Será uma experiência para todos; para mim, também. Já que nunca vi estes filmes organizados desta maneira e sobretudo num cenário tão especial.

É importante que estes filmes possam ser vistos em larga escala?
O cinema é para ser projectado; e quanto maior, melhor. “Bigger than Life” é uma das grandes “imagens de marca” do cinema, e é, aliás, o título de um filme que poderia fazer parte desta escolha (“Atrás do Espelho”, filme de Nicholas Ray, de 1956). Infelizmente, são já muito poucas as salas de cinema que podem projectar em verdadeira grande escala, principalmente pela pouca altura que têm. Tudo isso determina uma outra existência pública do cinema, que é assim “diminuído” pela escala das salas e à qual os espectadores se foram habituando, por via da cultura do “cinema-estúdio”, onde o ecrã é quase uma televisão de grande formato. Em Monserrate, ao ar livre, não teremos isso; e acredito que em vários filmes do programa se prolongarão na natureza que envolve o próprio espaço de projecção. Também procurei pensar nisso; particularmente, em filmes com fortes marcações naturalistas, como Esplendor na Relva, Johnny Guitar, Ran, Senso… E também em filmes que serão projectados na sala do Palácio, como As Leis da Hospitalidade, Aurora, As Férias do Senhor Hulot, Os Quatrocentos Golpes.

Como vê o estado do cinema português atualmente?
Felizmente que, com o surgimento do Cinema Novo no início dos anos 60, o cinema português encontrou uma via para o seu desenvolvimento e para a afirmação da sua identidade num contexto internacional, depois de ter estado estrangulado durante muitas décadas, por questões políticas – a censura do Estado Novo – e financeiras (ausência de apoios do Estado, inexistência de estruturas de produção realmente capacitadas, indiferença dos circuitos nacionais de distribuição e exibição).

O 25 de Abril e as conjunturas que imediatamente lhe sucederam contribuíram para reforçar o papel do cinema como um veículo essencial para uma compreensão poética e multidimensional do país: tanto a nível do documentário como da ficção. Paralelamente, o reconhecimento e o prestígio internacional da obra de Manoel de Oliveira abriu as portas à difusão do cinema português pelo mundo fora, situação que ainda hoje se verifica, com filmes portugueses recorrentemente admitidos nas selecções oficiais dos mais importantes festivais de cinema.

Mas como a realidade de uma cinematografia não pode ser apenas circunscrita à maior ou menor relevância da sua produção, é importante considerar, igualmente, a atenção aos públicos e à sua consolidação. Também nesse sentido me parece que a iniciativa da Parques de Sintra em programar este “Esplendor na Relva” é uma muito boa oportunidade para alargar e diversificar as formas de exibição do cinema e estimular a consciência (e os prazeres) dos seus presentes e futuros espectadores.

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