Jorge Gonçalves e Ana Rocha (Mezzanine) – Entrevista

Dias depois de termos tido a notícia do fecho da Mezzanine, estrutura de criação e programação criada em 2009 por Ana Rocha e Jorge Gonçalves, quisémos conversar com eles. Falámos das origens, dos momentos chave da instituição, das razões porque terminou, e do que o futuro lhes reserva.

Como surgiu a Mezzanine?
Em 2007/2008, nós, Jorge Gonçalves e Ana Rocha fundamos uma plataforma informal e não oficial para as artes performativas no Porto. Nesse momento o Porto atravessava um momento estranho em que apesar da produção e criação nesta área e nas artes visuais, como sempre era florescente e vibrante, e de extrema qualidade, não existia apoio ou back-up para os artistas independentes. Assim, surge a Obra Madrasta, quase num sentido irónico pois nem um nem outro tínhamos um sentido de pertença a uma estrutura fixa que produzisse os nossos trabalhos, que naquele momento começávamos a criar. A Obra Madrasta tinha a intenção de servir como um back-office de produção e divulgação de artistas independentes que estavam a começar ou a crescer de um modo mais consistente com os seus projectos, contudo trabalhavam sozinhos e eram exemplo de artista que cuidava de tudo que envolvesse o desenvolvimento das suas criações. Em conjunto, apoiamos de todas as formas, sem apoios e totalmente independentes, artistas como Marta Bernardes, Dinis Machado e Flávio Rodrigues, Mariana Amorim, além dos nossos próprios projectos. Criamos redes de difusão, apresentação e distribuição dos trabalhos, co-produções, condições e contactos para residências artísticas, demos apoio técnico, produção, dramaturgia e como performers. Também criamos projectos e programas de formação no Porto e fora da cidade.

E programamos em colaboração com o Teatro Campo Alegre \ Quintas de Leitura, e Fundação de Serralves \ Departamento de Artes Performativas, a apresentação do trabalho da coreógrafa e performer canadiana Antonija Livingstone, com o solo The Part (um workshop, participação nas Quintas de Leitura dedicado a Gonçalo M. Tavares, e a performance no Auditório de Serralves). Estávamos em 2010, e os vulcões no norte da Europa cobriam todo espaço aéreo europeu. Foi uma maravilhosa e verdadeira saga.
Em 2009, colaboramos com a OOPSA \ SOOPA na estruturação da candidatura anual à Dgartes, que ficou selecionada e que ganhou o seu primeiro apoio para 2010.

Em Março de 2010, após mais de um ano de trabalho, contactos nacionais e internacionais, investimento pessoal e investimento financeiro pessoal, achamos que estávamos num bom momento para criar uma estrutura própria: a MEZZANINE associação. Uma associação sem fins lucrativos, uma estrutura de produção, criação e difusão nesta área, sendo a base para os nossos próprios trabalhos e de artistas associados, com vista também em redimensionar e pensar a Cultura ao nível local e nacional, através de futuros eventos ao nível da curadoria \ programação.

E assim foi até Dezembro de 2017.

Quais os principais marcos que pontuaram a sua actividade?
Pergunta interessante.

Os principais marcos são aqueles que no fundo não são visíveis, são os do foro do investimento pessoal.

A apresentação de Antoine no Tanzfabrik em Berlin, uma peça de e com Jorge Gonçalves e Ludger Lamers e Henrique Fernandes, Julho 2010.
A colaboração, convite a Antonija Livingstone no Porto nas Quintas de Leitura, e o seu solo no Auditório de Serralves, Abril 2010.

O momento em que a Dgartes negou o apoio a uma candidatura nossa em 2011, a um projecto de programação em que tínhamos confirmações de Antonija Livingstone, Jennifer Lacey com a peça Culture & Adminstration no Mosteiro de S. Bento da Vitória \ TNSJ, e de Marten Spangberg com Power by Emotion no Salão Árabe \ Palácio da Bolsa do Porto.

O City Maquete, convite a Mathilde Monnier, como co-programadores e co-produção com a Capital Europeia da Cultura 2012.

Os festivais que visitamos a custo pessoal em nome da MEZZANINE, como o IDANS em Istambul na Túrquia, o Arteleku em San Sebastian, o Impulstanz em Vienna, a partir de 2009, e a visita de trabalho a Berlim em 2010 e o encontro com Barbara Friedrich, directora do Uferstudios.

A amizade com Meg Stuart e o trabalho em colaboração com a coreógrafa norte-americana, para e durante o Porto Sessions em Setembro e Outubro de 2015, com base na sala de ensaios do Teatro Municipal Rivoli.

O Paulo Cunha e Silva como Vereador da Cultura da Câmara Municipal do Porto que insistiu que fizéssemos parte do Tripartido do Porto.

O Ariadne na Praia Internacional do Porto em Março, Junho e Julho de 2015.

Os Simposiums Internacionais de Práticas Artisticas I e II em 2016 \ 2017, em que trouxemos aos Porto cerca de 40 artistas, coreógrafos, pensadores, críticos e programadores na área das artes performativas, com mais de 15 eventos e em que participaram cerca de 100 pessoas nos laboratórios, e colaboramos com instituições e organizações privadas e independentes.

E o OUT THERE em 2017, em que participaram artistas nacionais e internacionais como o artista britânico Hamish Fulton.

As colaborações com redes independentes internacionais como o Transloca.

Qual a importância da descentralização no vosso trabalho?
Com o trabalho nas estruturas institucionais a ser desenvolvido pelos seus programadores para nós foi sempre importante procurar outros sítios, outros locais, outras situações, outra tipologia de eventos, que nos aproxima-se à realidade, que testasse novas possibilidades para lá daquilo que são os parâmetros mais convencionais.

Não é no nosso ponto de vista necessário replicar o que foi feito, o que já está a ser feito, e para lá da discussão entre os pares, para lá das candidaturas a apoios públicos ou co-produções institucionais, para nós foi sempre determinante que o trabalho de criação e pesquisa que sempre desenvolvemos se reflectisse na chamada curadoria e \ ou programação que fomos desenvolvendo, como uma espécie de linguagem.
No nosso ponto de vista o trabalho com e para a comunidade deve ser continuado, como uma escrita de uma espécie de História e\ou história.
Daí também ser determinante que qualquer tipo de programação fosse sempre composto por acompanhamento e diálogo com os artistas convidados e as organizações com quem colaboramos.

Desfocar mais do que descentralizar, como se tratasse de um trabalho de (re) desenho de luz.

Despolarizar, semear, plantar, recolher, ver crescer, tratar e repartir os bens, o bem que é para a Humanidade e para o desenvolvimento Humano e da Sociedade, esse pilar que é a Cultura como estrutura potencial de ligações diversas.

Daí ter sido importante trabalhar e programar nos cafés emblemáticos da baixa portuense, na Praia Internacional que é charneira entre Porto e Matosinhos, ter a sala de ensaios do TMP Rivoli como base mas estar na rua, nas artérias principais da baixa do Porto ou fazer high-jack a vizinhos como a Culturgest, colaborar com organizações como o TUP – Teatro Universitário do Porto, na sua sala de ensaios que pertencia à Universidade do Porto – uma sala de ensaios que foi da ACE – um lugar em decadência \ ruína com falta de manutenção, mas com um potencial de espaço incrível, programar com organismos privados como o Ateneu Comercial do Porto onde se diz que lá foi instituída pela primeira vez a República de Portugal. Ou o espaço Mira-Artes Performativas em Campanhã, pouco tempo de ter sido inaugurado no inicio de 2017.
Ainda na esfera da descentralização, isso está bem presente na linguagem de cada programa, dos nomes \ títulos de cada programa e do modo como vemos e tratamos o tema “Internacionalização”, por exemplo.

O que provocou o fecho da estrutura?
Não houve um provocar, mas sim uma certa exaustão.

Somos dois na equipa.

Uma equipa que por mais que tivéssemos tentado, não tinha possibilidade de aumentar.

Nunca ganhamos financeiramente as nossas “vidas” com os projectos da MEZZANINE.

Os orçamentos com que trabalhamos nestes anos todos nunca “deram” para mais, e claro não era comportável termos mais colaboradores pagos por projecto na equipa. Era irracional.

Os dois fizemos os nossos próprios projectos, acompanhamos outros, desenvolvíamos o conceito dos nossos programas, construímos os conteúdos para os programas, site, redes sociais, tratávamos do design e divulgação e comunicação, cuidávamos da pré e pós produção, tratávamos da gestão de produção e financeira, administração da associação de um modo ou de outro, procurávamos dar respostas ao que chegava (aos emails, às propostas que fazíamos a outros e às propostas que nos chegavam), acompanhávamos os convidados num serviço 24horas sempre que necessário, distribuíamos a divulgação…. etc etc etc …

Fizemos o “impensável”, mas fizemos o que sempre desejamos com quem quisemos.

A exaustão não é do trabalho que nos propusemos a fazer, mas sim do modo como nos retirou sanidade mental, emocional e física.
Chega um momento que por mais que seja óptimo ou excelente o que fizemos para todos e com todos, lembramo-nos que temos de parar.
A verdade é que “ninguém nos paga” para fazer o que fazemos.

E no fim do dia, precisas de um certo sossego na vida.

O que vai acontecer à rede de contactos e parcerias que estabeleceram?
A rede de contactos e parcerias são resultado e fruto de uma espécie de património imaterial, privado e pessoal.
Iremos manter e dar continuidade, foi o que sempre fizemos e o que já existia antes de termos lançado a MEZZANINE.

Que planos têm daqui para a frente?
Não há nenhum plano.

Existe o desejo de concretizar uma edição em livro do que foi feito e desenvolvido desde o Porto Sessions’15, Regime de ½ Pensão, Symposium Internacional de Práticas Artísticas I e II, e OUT THERE, em colaboração com os artistas e pessoas que convidamos para estes programas. Mas nada previsto de como e quando fazê-lo.

De resto, continuar o trabalho que sempre fizemos, mas de que modo ainda não sabemos. Mas o desejo contínuo de no futuro colaborarmos em conjunto, a pensar e criar enquadramentos e programas como sempre criamos, mas longe do lugar da administração \ gestão \ produção a “solos”.

Como vêem o futuro das artes performativas em Portugal?
A resposta é directa e simples: há imenso a fazer, muito mesmo.

As agendas têm mesmo que deixar de ser pessoais, tanto ao nível dos criadores, como das instituições e programadores.
Sempre nos “repelou” de pés juntos esta expressão: mas continuamos a anos luz dos nossos “pares” internacionais. Parece que estagnamos ou que “retrocedemos”, apesar de existirem diversos movimentos e outras “gerações” \ projectos a surgirem e em acção. Talvez seja um estado de moratória.

Mas acreditamos que não há tempo para moratórias. É tempo de agir, criar, dar e gerar espaço(s) de pensamento \ registo \ discussão que despolarizem e accionem efetivamente o desejo do fazer e das ligações que “andam por aí bem visíveis” em potência para brotarem.

Foto: Jorge Gonçalves & Ana Rocha “Open Season | Berlim”

Mais sobre a Mezzanine em http://www.mezzanine.pt/

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