Letras de Músicas

Foto: POD

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Este artigo pretende debruçar-se sobre a temática da escrita de letras para canções.

Sendo esta tema demasiado abrangente para consolidar toda a informação num único artigo, irei apenas abordar algumas ideias e conceitos importantes nesta prática.

Tendo em conta que a maior parte da literatura sobre o assunto é escrita na língua inglesa darei alguns exemplos nessa língua mas aplicáveis igualmente à língua portuguesa.

Embora não haja grandes variações, as definições dadas neste artigo aplicam-se essencialmente à música popular e a estilos próximos como rock, soul, RnB ou música de dança (ex: house).

O QUE É UMA LETRA DE UMA CANÇÃO ?

Convém definir primeiro o que é uma letra de uma canção. A letra de uma canção define-se como “as palavras de uma música”.

Uma letra de uma canção não é um poema nem uma obra literária. Esta obedece a uma série de parâmetros e limitações que são impostas por diversos factores como melodia, harmonia ou ritmo musical e que não são aplicáveis a um poema.

A função de uma letra musical está intimamente ligada com a melodia da música, mas igualmente com o estilo musical e com as diferentes sensações sonoras criadas.

Por exemplo, não faria muito sentido colocar uma letra de uma canção de “heavy metal” com características revolucionárias numa balada de amor a ser cantada pela Celine Dion e vice-versa.

Esses casos resultam quase sempre em músicas que soam, ora ridículas, ora irónicas, já que uma das funções principais da letra de uma canção é criar uma ligação emocional com o ouvinte, havendo como é óbvio sempre ligação à parte musical.

FORMA NA MÚSICA

Uma canção é definida por diferentes secções musicais onde a letra de uma canção pode ter diferentes funções e transmitir informações distintas ao ouvinte. A essa caracterização de como a música evoluí ao longo da sua duração chama-se forma.

VERSO

Esta secção serve essencialmente para descrever eventuais personagens, locais, sentimentos bem como expor a temática da letra da música. Convém relembrar que muitas das vezes uma letra de uma canção assemelha-se ao desenrolar de uma história.

Os versos são geralmente a parte da letra mais descritiva e mais rica no seu imaginário. Os diferentes versos da música devem ser diferentes entre si para que possam manter a conexão emocional com o ouvinte.

REFRÃO

O refrão de uma música consiste na conclusão ou seguimento da mensagem transmitida nos versos. Podemos ter várias hipóteses para um refrão: este pode enfatizar o que está descrito nos versos, fornecer nova informação sobre o tema da música ou mesmo contrariar a informação anteriormente transmitida.

O refrão implica por vezes a repetição de uma ideia central que está quase sempre associada ao título da música que serve como tema central.

Esta repetição poderá ser apenas uma frase como:

We will, we will rock you
We will, we will rock you
We will, we will rock you
We will, we will rock you
(WE WILL ROCK YOU – QUEEN)

Ou o título da música fazer parte de apenas um verso do refrão:

“It’s a hard life
To be true lovers together
To love and live forever in each others hearts
It’s a long hard fight
To learn to care for each other
To trust in one another right from the start
When you’re in love”

(IT’S A HARD LIFE – QUEEN)

Os versos e refrões constituem as partes essenciais de uma letra e de um canção.

Existem no entanto mais duas secções que são regularmente usadas e que são o pré-refrão e a “bridge” que se chama ponte em português mas que irei manter o termo em inglês por ser um léxico comum entre músicos.

PRÉ-REFRÃO –  esta secção da música serve como ligação entre os versos e o refrão da música e costuma ter uma ideia melódica e muitas vezes harmónica diferente dos versos.

“BRIGDE” – esta secção funciona como uma terceira secção da música que difere significativamente dos versos e do refrão. Geralmente esta secção é usada antes do último refrão da música, podendo ser apenas instrumental (contendo por exemplo um solo de um instrumento musical) ou podendo ser igualmente cantada com uma melodia distinta dos versos e refrões.

Irei analisar a música “Living On A Prayer” dos Bon Jovi quanto à sua forma tendo em conta as partes anteriormente definidas.

PRIMEIROS VERSOS (fornecem informação sobre as personagens e os seus problemas financeiros, os seus nomes, o que é que fazem, quem são, os seus sentimentos, etc…)

Once upon a time not so long ago:
Tommy used to work on the docks
union’s been on strike

He’s down on his luck – It’s tough
so tough.
Gina works the diner all day
working for her man

She brings home her pay for love
for love.

PRÉ-REFRÃO (a melodia da voz modificou-se e a mensagem da música forneceu novos dados sobre uma das personagens sendo o seu conteúdo mais positivo)

She says: We’ve got to hold on to what we’ve got
‘Cause it doesn’t make a difference if we make it or not.
We’ve got each other and that’s a lot for love –
We’ll give it a shot.

REFRÃO (temos uma explosão na melodia da voz com uma afirmação e repetição do tema da música)

We’re half way there – Livin’ on a prayer

Take my hand and we’ll make it
I swear – livin’ on a prayer.

SEGUNDOS VERSOS (fornecem nova informação sobre as personagens deste vez num tempo mais presente, a situação de cada personagem inverteu-se nestes versos)

Tommy’s got his six string in hock
Now he’s holding in what he used
To make it talk – so tough, it’s tough
Gina dreams of running away
When she cries in the night
Tommy whispers baby it’s okay, someday

PRÉ-REFRÃO (a melodia da voz modificou-se como anteriormente mas o ponto de vista da mensagem passou do ponto de vista singular “she” para o ponto de vista plural “we”)

We’ve got to hold on to what we’ve got
Cause it doesn’t make a difference
If we make it or not
We’ve got each other and that’s a lot
For love – well give it a shot

A seguir ao pré-refrão voltaríamos de novo o refrão da música, seguido de uma parte instrumental que definida como “bridge”. Após esta, geralmente a secção que se segue é de novo o refrão para finalizar a música, mas neste caso os compositores decidiram colocar um curto pré-refrão e consecutivamente o último refrão da música mas criar maior interesse a nível musical.

Existem diversas formas de música popular que são usadas com maior frequência na composição de música popular.

Uma das formas mais comuns de analisar estas formas é de atribuir letras às diferentes secções da música. Por exemplo podemos definir que os versos são a letra A, os refrões a letra B, e a “bridge” a letra C. Podemos até atribuir uma questão temporal a cada uma das letras, onde por exemplo cada letra tem uma duração de oito estrofes ou de oito compassos.

Algumas das formas mais comuns são:

ABABAB – alternar consecutivamente versos e refrões

ABABCB – alternar consecutivamente versos e refrões com uma “bridge” antes do último refrão

AABA – este tipo de forma de música foi muito usado nos anos 30 de 40 do século XX em diversos standards de jazz e designa-se por ter dois versos, seguidos de uma bridge e um último verso. Como se pode constatar não existe um refrão nesta forma. Uma das músicas mais conhecidas da música popular moderna é inspirada neste tipo de estrutura. O tema dos The Police denominado “Every Breath You Take” tem como forma musical AABACABA

AA’BAA’B – típica forma da música constituída por versos, pré-refrão, refrão.

AAAA –  típica estrutura da música folk que é apenas caracterizada por ter refrões.

Como conclusão, convém perceber quais as diferenças entre cada secção a nível de letras. É de realçar que é perfeitamente possível termos uma música a começar pelo refrão (“Get The Party Started” – Pink, “Dancing Queen” – ABBA, “Paradise City” – Guns N’ Roses ou “Can’t Buy Me Love” – Beatles).

Podemos igualmente compor uma música que tem partes completamente distintas entre si (“Bohemian Rhapsody” – Queen). No entanto essas são as excepções à regra do que é convencionalmente criado.

PONTO DE VISTA

É importante definir qual o ponto de vista de uma letra em relação aos sujeitos que nela participam. Não é comum haver letras que apenas falem de locais ou cidades ou objectos sem haver sujeitos definidos. Como exemplo, o tema New York, New York popularizado por Frank Sinatra têm diversas referências ao sujeito na primeira pessoa (“I” …  “I want to be a part of it”, “Start spreading the news I’m leaving today”)

Os pontos de vista frequentes numa música são:

She/He            –                       Ela/Ele (ou usar nomes de personagens)
I                      –                      Eu
We                  –                      Nós
You                 –                      Tu/Vós

Estes pontos de vista podem ser usados de diferentes formas e com diferentes intuitos.

Geralmente é assumido que o primeiro ponto é o mais impessoal e que o último é o mais pessoal já que se trata de uma ligação directa ao ouvinte.

Analisando de novo a música dos Bon Jovi, nota-se que os versos são orientados para terceiros (“She”, “He” ) enquanto o refrão é claramente definido como a segunda pessoa (“We”) de modo a aproximar a mensagem ao ouvinte e este se identificar com a música.

É importante perceber que é fundamental definir para quem se está a escrever a nível do sujeito.

Com exemplo:

She walks into the store
And I see her eyes
She wears a dark scarf
And you see her lies

Um verso deste tipo a nível de escrita não tem sentido porque cria ambiguidade em relação ao sujeitos. O verso acima devia ser corrigido para:

She walks into the store
When I saw her eyes
She wears a dark scarf
And I see her lies

É possível haver mudanças de sujeito durante a música desde que haja coerência neste processo. A música “We Are The Champions” dos Queen é um bom exemplo disso, onde os versos estão no sujeito “I – Eu” mas os refrões são cantados em “We – Nós”.

Como conclusão, tem que se ter cuidado ao escrever uma letra de uma canção para que esta tenha coerência e não apresente ambiguidade (a não ser que esse seja mesmo o objectivo).

TIPOS DE RIMAS

A maior parte das letras para músicas assenta em rimas devido à sua sonoridade apelativa. Podem haver letras sem rimas mas mais uma vez é uma excepção à regra.

Convém sempre ter em mente que uma letra não é para ser recitada. Uma letra é para ser cantada. Uma letra obedece a notas com marcações distintas numa melodia, com ritmos específicos e em músicas com tempos próprios.

Apresento aqui dois dos tipos de rima mais comuns existentes em letras de música.

RIMA PERFEITA

Neste tipo de rima, o som de terminação das palavras é idêntico. Isso implica não só que o som das vogais nas quais terminam as palavras é idêntico mas igualmente que o som das consoantes também é igual.

Alguns exemplos de palavras em língua portuguesa e inglesa que têm rimas perfeitas:

Love – Dove
Air – Fair
Mar – Ar
Céu – Véu

Como se pode ver a terminação de cada par é exactamente igual a nível de sonoridade.  No entanto tem que se ter cuidado pois pode haver casos em que as palavras terminem da mesma forma mas soem diferentes (Again e Rain não são rimas perfeitas embora tenham terminações idênticas a nível da escrita).

RIMA FAMILIAR

No caso de uma rima familiar, embora as rimas não sejam perfeitas podemos usar sons que derivem da mesma família a nível de sonoridade.

Não querendo entrar em detalhes sobre esse assunto por ser muito extensivo deixo aqui uma lista de sons dividido por famílias no que respeita às consoantes.

Sons fricativos – v, th , z, s, sh, ch, j  (ex: chão, jarro)

Sons explosivos – b , d, g , p , t, k  (ex: barro, gula)

Sons nasais – n, m, ng (ex: mentira)

Como é que aplicamos estas classificações às rimas ? É fácil, escolhemos para rimar palavras que tenham a mesma família fonética.

Vento – Tempo  (sons explosivos)
Build – Guilt    (sons explosivos)
Barba – Carta  (sons explosivos)
Sung – Mom (sons nasais)
kiss – knife (sons fricativos)

Este tipo de rima permite então ter uma maior panóplia de sons para as nossas músicas e não estarmos apenas limitados a rimas perfeitas. A palavra perfeita é enganadora. Nunca se deve sacrificar uma ideia por uma rima perfeita.

Existem outros tipos de rimas que não vão ser abordados devido a limitações no tamanho do artigo.

CONJUGAÇÃO DE RIMAS

Para finalizar este artigo quero debruçar-me sobre outro assunto que tem a ver com a conjugação de rimas dentro de uma letra.

Vou usar este exemplo como o nosso ponto de partida (ignorando a fraca letra que serve apenas como exemplo!)

Ela entra no carro
Ela apaga o cigarro
Sinto-me bizarro
Uma estátua de barro

Neste caso verifica-se que este verso tem quatro rimas perfeitas idênticas entre si. Se quiser analisar o verso atribuindo letras, teria algo deste tipo:

a
a
a
a

Este tipo de rima é bastante sólido e garante sempre uma continuidade a nível da letra.

É como um ciclo sem fim, que roda sem esforço. É o tipo de rima e verso mais estável mas no entanto tem pouca diversidade e interesse. Não existe conflito nem dinâmica entre as rimas e os versos. Pode ter interesse em determinadas situações musicais que requeiram maior estabilidade.

Agora vou analisar o que acontece quando se usa duas rimas perfeitas distintas. Nesse caso tem-se que:

Ela entra no carro
Ela apaga o cigarro
A música a vibrar
Cabelos a voar

Comparando com o verso anterior verifica-se que este novo verso é mais diverso, mais interessante mas ao mesmo tempo mais instável que o primeiro. As rimas são perfeitas, logo o grau de instabilidade é bastante baixo.

Da análise temos que:

a
a
b
b

Existe outra forma de conjugar duas rimas perfeitas distintas que é:

Ela entra no carro
A música a vibrar
Ela apaga o cigarro
Cabelos a voar

a
b
a
b

No caso acima existe uma maior diversidade a nível da sonoridade das rimas já que estas não estão emparelhadas entre si.

Todos os casos acima mencionados são relativamente estáveis. Convém referir que a estabilidade e instabilidade é um jogo que se pode alterar durante a música. Se a letra for toda estável torna-se rapidamente monótona. Se esta for instável, não existe bases para suster a música.

Vou agora usar de novo o primeiro verso e fazer algumas alterações:

Ela entra no carro
Ela apaga o cigarro
Uma estátua de barro
Vou festejar

Neste caso acima existem três rimas perfeitas e uma última frase que não rima com as anteriores. O que este tipo de escrita faz é realçar a última frase do verso ! O que pode ter bastante interesse a nível musical e de mensagem.

Simbolicamente tem-se que:

a
a
a
c

Ainda mais interessante é o facto que este frase pode ser colocada noutro ponto de partida originando significados e porventura melodias diferentes:

Vou festejar
Ela entra no carro
Uma estátua de barro
Ela apaga o cigarro

CONCLUSÃO

Haveria muito mais a dizer sobre o assunto de escrever canções e este artigo apenas aborda uma pequena parte sobre o tema que tem algum complexidade.

Existe diversa informação sobre este tema disponível de forma gratuita que pode ser procurada na Internet bem como diversos livros sobre o tema (bastando para isso procurar por Lyrics ou Songwriting nas diferentes lojas online).

Resta dizer que embora os livros e sites sobre o assunto possam servir de guia e forneçam várias dicas e ensinamentos sobre a matéria, não existem de facto regras de ouro. A imaginação é o limite.
Artigo por André de Brito

É músico, autor, compositor, produtor, vocalista e multi-instrumentalista.
As áreas de maior interesse e especialização estão interligadas no campo da música moderna como a música pop, funk, rock ou soul bem como a música para filmes e audiovisuais e música electrónica tal como o house, onde desenvolve diferentes projectos como autor e produtor.
Obteve distinções em diversos concursos de Songwriting a nível internacional, tendo sido semifinalista na categoria de Pop no Concurso Song of The Year de 2012. É um dos mentores do grupo MEL, projecto de música pop, tendo actuado em diversos eventos televisivos concertos.

Sites:
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Contacto email: andre@andredebrito.com

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