Lisboa saramaguiana

Por José Saramago

Entre 1979 e 1980 José Saramago andou pelo seu país de ponta a ponta para escrever «Viagem a Portugal», livro de crónicas que seria publicado em março de 1981. Não se trata de um guia de turístico, explicou o autor, mas de um relato subjetivo de um viajante atento que pelo caminho encontra-se com pessoas e lugares. «É um livro lento, de 400 páginas, menos lento do que eu desejava, porque o importante não é viajar mas estar num lugar. Ir de um lugar para outro é o menos importante. Viajar é outra coisa muito diferente de fazer turismo e é sobretudo outro modo de estar. A minha viagem não é interior, mas sim uma forma de ver e de sentir. Neste sentido concordo com o Pessoa: viajar também é sentir», disse certa vez o escritor.

Para este número, a Blimunda publica excertos de «Viagem a Portugal» em que José Saramago narra a sua andança pela região de Lisboa.

Em Cascais foi o viajante ao Museu de Castro Guimarães para ver Lisboa. Parece despropósito, e é a pura verdade. Aqui se encontra guardada a Crónica de D. Afonso Henriques, de Duarte Galvão, em cujo frontispício uma iluminura de minucioso desenho mostra a capital do reino metida entre os seus muros quinhentistas. Embarcações de vário tipo e calado, naus, caravelas, batéis, navegam desencontradas mas sem abalroarem. O iluminador não sabia muito de ventos, ou sabia tanto que os manejava à vontade. Tem o museu mais que ver, mas ao viajante interessava particularmente a antiga imagem duma cidade desaparecida, urbe submersa pelo tempo, arrasada por terramotos e que, enquanto cresce, a si mesma se vai devorando.

Estas terras marginais são predilectas do turismo. O viajante não é turista, é viajante. Há grande diferença. Viajar é descobrir, o resto é simples encontrar. Por isso se há-de compreender que passe sem particulares demoras por estas amenas praias, e se nas ondas pacatas do Estoril decidir dar breve mergulho, fique este sem menção. É certo que o viajante gosta de parques e jardins, mas esta falda florida que do casino se estende até à praia não está ali para passeios, é como um tapete de palácio, à volta do qual respeitosamente desfilam os visitantes. E quanto às sossegadas ruas que nas íngremes encostas se entretecem, tudo são muros e portões fechados, barreiras e biombos de luxo. Aqui não é Lamego, não vai aparecer um homem meio embriagado a oferecer um quarto para dormir e a trocar ideias sobre os destinos supremos da humanidade. O viajante lembra-se de que perto foram encontrados restos de ossadas e crânios, ocultos durante milhares de anos, de mistura com machados de pedra, goivas e enxós, e outros miúdos objectos úteis ou rituais; depois olha os hotéis sumptuosos, o jardim desamável, os passantes e passeantes, e definitivamente convence-se de que o mundo é complicado. A originalidade da conclusão vale o registo que o viajante recusa ao mergulho no mar e que igualmente recusaria se no casino tivesse levado a banca à glória.

Enfim, para a frente é que é Lisboa. Mas antes de cometer o feito, que no fundo da alma o está intimidando, o viajante irá a esta povoação ribeirinha chamada Carcavelos, para ver o que só bem poucas pessoas conhecem, do milhão delas que em Lisboa vivem, dos muitos milhares que ao banho na praia vêm, isto é, e concluindo, a igreja matriz. Por fora ninguém daria nada por ela: são quatro paredes, uma porta, uma cruz em cima. Um espírito jansenista diria que para adorar a Deus não se requer mais. Ainda bem que assim não entendeu quem desta obra decidiu. Lá dentro, está uma das mais magníficas decorações de azulejos policromos que o viajante teve diante dos seus privilegiados olhos. Exceptuando a cúpula sobre o transepto, todas as paredes, todos os arcos, todos os vãos se encontram revestidos dessa matéria incomparável, hoje tão desgraçadamente usada. Vivendo perto, o viajante voltará aqui outra vez, e muitas. Não cabe maior louvor.

(…)

O viajante vem para a rua, é um viajante perdido. Aonde irá? Que lugares irá visitar? Que outros deixará de lado, por sua deliberação ou impossibilidade de ver tudo e falar de tudo? E que é ver tudo? Tão legítimo seria atravessar o jardim e ir ver os barcos no rio como entrar no Mosteiro dos Jerónimos. Ou então, nada disto, ficar apenas sentado no banco ou sobre a relva, a gozar o esplêndido e luminoso Sol. Diz-se que barco parado não faz viagem. Pois não, mas prepara-se para ela. O viajante enche de bom ar o peito, como quem levanta as velas a apanhar o vento do largo, e ruma para os Jerónimos.

Bem fez em ter usado linguagem marinheira. Aqui mesmo à entrada está, à mão esquerda, Vasco da Gama, que descobriu o caminho para chegar à Índia, e, à direita, a jacente estátua de Luís de Camões, que descobriu o caminho para chegar a Portugal. Deste não estão os ossos, nem se sabe onde param; de Vasco da Gama, estarão ou não. Onde parece que há alguns verdadeiros é lá ao fundo, à direita, numa capela do transepto; aí estão (estarão?) os restos de D. Sebastião, outras vezes falado neste relato. E de túmulos não falemos mais: o Mosteiro dos Jerónimos é uma maravilha de arquitectura, não uma necrópole.

Produziram muito os arquitectos do manuelino. Nunca nada mais perfeito que esta abóbada da nave nem tão arrojado como a do transepto. Tantas vezes tem feito profissão de fé numa certa bruteza natural da pedra, e agora vê-se rendido diante da decoração finíssima, que parece renda imponderável, dos pilares, incrivelmente delgados para a carga que suportam. E reconhece o golpe de génio que foi deixar em cada pilar uma secção de pedra despida de ornamento: o arquitecto, isto pensa o viajante, quis prestar homenagem à simplicidade primeira do material, e ao mesmo tempo introduziu um elemento que vem perturbar a preguiça do olhar e estimulá-lo.

Porém, onde o viajante entrega as armas, as bagagens e as bandeiras é sob a abóbada do transepto. São vinte e cinco metros de altura, num vão de vinte e nove metros por dezanove. Não há aqui pilar ou coluna que ampare a enorme massa da abóbada, lançada num só voo. Como um enorme casco de barco virado ao contrário, este bojo vertiginoso mostra o cavername, cobre com as suas obras vivas o espanto do viajante, que está vai não vai para ajoelhar ali mesmo e louvar quem tal maravilha concebeu e construiu. Corre outra vez à nave, outra vez o arrebatam os fustes esbeltos dos pilares que no topo recebem ou dele fazem nascer as nervuras da abóbada como palmares. Deambula de um lado para outro, entre turistas que falam metade das línguas do mundo, e entretanto decorre um casamento, diz o padre as palavras costumadas, está toda a gente contente, oxalá sejam felizes e tenham os meninos que quiserem, mas não se esqueçam de os ensinar a gostar destas abóbadas em que os pais mal repararam.

(…)

Está bom tempo em Lisboa. Por esta rua se desce ao jardim de Santos-o-Velho, onde uma contrafeita estátua de Ramalho Ortigão se apaga entre as verduras. O rio esconde-se por trás duma fiada de barracões, mas adivinha-se. E depois do Cais do Sodré desafoga-se completamente para merecer o Terreiro do Paço. É uma belíssima praça de que nunca soubemos bem o que havíamos de fazer. De repartições e gabinetes de governo já pouco resta, estes casarões pombalinos adaptam-se mal às novas concepções dos paraísos burocráticos. E quanto ao terreiro, ora parque de automóveis, ora deserto lunar, faltam-lhe sombras, resguardos, focos que atraiam o encontro e a conversa. Praça real, ali ao canto foi morto um rei, mas o povo não a tomou para si, excepto em momentos de exaltação política, sempre de curta dura. O Terreiro do Paço continua a ser propriedade do D. José. Um dos mais apagados reis que em Portugal reinaram olha, em estátua, um rio de que nunca deve ter gostado e que é maior do que ele.

O viajante sobe por uma destas ruas comerciais, com lojas em todas as portas, e bancos que lojas são, e vai imaginando que Lisboa haveria neste lugar se não tem vindo o terramoto. Urbanisticamente, que foi que se perdeu? Que foi que se ganhou? Perdeu-se um centro histórico, ganhou-se outro que, por força do tempo passado, histórico se tornaria. Não vale a pena discutir com terramotos nem averiguar que cor tinha a vaca de que foi mungido o leite que se entornou, mas o viajante, em seu pensar vago, considera que a reconstrução pombalina foi um violento corte cultural de que a cidade não se restabeleceu e que tem continuidade na confusa arquitectura que em marés desajustadas se derramou pelo espaço urbano. O viajante não anseia por casas medievais ou ressurgências manuelinas. Verifica que essas e outras ressuscitações só foram e são possíveis graças ao traumatismo violento provocado pelo terramoto. Não caíram apenas casas e igrejas. Quebrou-se uma ligação cultural entre a cidade e o povo dela.

(…)

Agora é que o viajante vai a Alfama, disposto a perder-se na segunda esquina e decidido a não perguntar o caminho. É a melhor maneira de conhecer o bairro. Há risco de falhar qualquer dos lugares selectos (a casa da Rua dos Cegos, a casa do Menino de Deus, ou a do Largo Rodrigues de Freitas, a Calçadinha de São Miguel, a Rua da Regueira, o Beco das Cruzes, etc.), mas, andando muito, acabará por lá passar e entretanto ganhou encontrar-se mil e uma vezes com o inesperado.

Alfama é um animal mitológico. Pretexto para sentimentalismos de várias cores, sardinha que muitos têm querido puxar à sua brasa, não barra caminhos a quem lá entra, mas o viajante sente que o acompanham irónicos olhares. Não são os rostos sérios e fechados do Barredo. Alfama está mais habituada à vida cosmopolita, entra no jogo se daí tira alguma vantagem, mas no segredo das suas casas deve rir-se muito de quem a julga conhecer por lá ter ido numa noite de Santo António ou comer arroz de cabidela. O viajante segue pelos torcidos becos, este em cujas casas de um e outro lado quase os ombros tocam, e lá em cima o céu é uma frincha entre beirais que um palmo mal separa, ou por estes inclinados largos cujos desníveis dois ou três lanços de degraus ajudam a vencer, e vê que não faltam flores nas janelas, gaiolas e canários dentro, mas o mau cheiro dos esgotos que na rua se sente há-de sentir-se ainda mais dentro das casas, algumas onde o sol não entrou nunca, e estas ao nível do chão só têm por janela o postigo aberto na porta. O viajante tem visto muito de mundo e vida, e nunca gostou de achar-se na pele do turista que vai, olha, faz que entende, tira fotografias e regressa à sua terra a dizer que conhece Alfama. Este viajante deve ser honesto. Foi a Alfama, mas não sabe o que Alfama é. Contudo, não pára de dar voltas, de subir e descer, e quando enfim se acha no Largo do Chafariz de Dentro, depois de se ter perdido algumas vezes como decidira, vem-lhe a vontade de penetrar outra vez nas sombrias travessas, nos becos inquietantes, nas escadas de quebra-costas, e ficar por lá enquanto não aprender ao menos as primeiras palavras deste discurso imenso de casas, de pessoas, de histórias, de risos e inevitáveis choros. Animal mitológico por conta alheia, Alfama vive à sua própria e difícil conta. Tem horas de bicho saudável, tem outras em que se deita a um canto para lamber as feridas que séculos de pobreza lhe abriram na carne e este não encontra maneira de curar. E ainda assim estas casas têm telhado. Por esses arrabaldes não se fecharam os olhos do viajante a lugares de habitar que dispensam telhado porque não chegam a ser casas.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de abril de 2018.

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