Makerspaces e Bibliotecas: o casamento perfeito

Por Andreia Brites

Não é de hoje a discussão em torno das valências das bibliotecas públicas um pouco por todo o mundo. O termo makerspaces, associado a este universo, surgiu como uma mudança de paradigma na forma como a biblioteca deve ser encarada por todos, público e equipas. Ao contrário do que tradicionalmente aconteceu durante séculos, há cada vez mais vozes, nomeadamente muitas das que integram organizações internacionais como a IFLA, a defenderem que a biblioteca deve ser pensada a partir dos seus utilizadores e para eles. Centrar a sua dinâmica apenas no acervo está ultrapassado.

Conceito e modelos

Já há uma década se ouvia falar em experiências que à época soavam futuristas em bibliotecas de países nórdicos onde os espaços se apresentavam informais e se revelavam lúdicos só pela aparência. Recantos de leitura que se assemelhavam a cabines de naves espaciais, pontos de pesquisa e recolha de documentos robotizados que comunicavam com o público, sofás cheios de curvas, paredes muito coloridas pareciam convidar quem os visitasse a entrar num país das maravilhas alternativo.

Entre excessos, fracassos e desvios, os níveis de experimentação são hoje muito mais orientados, independentemente de quão surpreendentes possam ser os resultados no terreno.

A biblioteca deve assumir-se, para muitos, como um espaço de criação, descoberta e aprendizagem. Não apenas no sentido criativo e mas também como lugar vivo que responde às necessidades e desejos da sua comunidade. Ali espera-se que os utilizadores encontrem ferramentas ao mesmo tempo que se encontram uns aos outros. Criação, cooperação e inovação: é isso, em suma, que significa makerspace.

O conceito não nasceu no pensamento sobre bibliotecas. Enquanto espaço de criação, partilha, experimentação e cooperação, o makerspace é independente e sofreu influências dos mais diversos espaços, como os FabLabs, TechShop ou os de co-working, e pelas mais diversas entidades. O seu aparecimento nas bibliotecas data do início da década de 2000 nos Estados Unidos da América (Nova Iorque) associado ao movimento do Faça Você Mesmo (Do it yourself – DIY), tendo mais tarde sido adaptado pelos países nórdicos por razões específicas, relacionadas com a ideia de biblioteca como lugar de encontro das comunidades que não têm muitas alternativas em países onde, durante metade do ano, anoitece muito cedo e não há o que fazer no exterior. A tradição mais horizontal do ponto de vista da organização social terá ajudado a implementar o conceito que implica a partilha de conhecimento, criatividade e curiosidade por fazer e aprender.

Nos Estados Unidos, os makerspaces foram introduzidos nas bibliotecas de forma mais estereótipada, direccionados sobretudo para o desenvolvimento tecnológico: ali encontram-se salas dotadas de hardware e software diversos,  impressoras 3D, scanners 3D, cortadoras laser e fresadoras, permitindo também a criação e dição de diversos conteúdos digitais de texto, vídeo, aúdio ou imagem. em diferente de conteúdos objectos a partir da manipulação de software específico, nomeadamente de desenho 3D.

Basta fazer uma pesquisa rápida na internet para perceber que os makerspaces nas bibliotecas foram apropriados de formas bastante distintas em função da realidade geográfica, cultural e social dos países, regiões e comunidades onde se inserem. O contraponto às dinâmicas mais urbanas e tecnológicas da europa central e do norte e dos Estados Unidos da América encontra-se na América do Sul, no continente africano, nomeadamente, subsariano e na Ásia. Aqui, os makerspaces não estão equipados com tecnologia de ponta e muitas vezes acontecem nas salas de leitura das próprias bibliotecas. O seu objectivo pode ser o acesso à internet e a formação básica dos seus utilizadores como no Bangladesh, a educação não formal e a preparação para o ingresso no mercado de trabalho, como no Burkina Faso ou a integração de comunidades deslocadas e refugiadas em resultado de conflitos armados, como acontece na Nigéria ou na Grécia. O empoderamento, como agora soi dizer-se, acontece através destes espaços cuja afluência suplanta em muito a de bibliotecas europeias e norte-americanas.

Modus operandi: como funcionam os makerspaces

A propósito do tema a Blimunda conversou com Bruno Duarte Eiras, director de serviços de Bibliotecas na Direcção Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas. Para além das funções que desempenha actualmente, o bibliotecário de formação tem longa experiência de terreno, desenvolvida ao longo de mais de uma década nas Bibliotecas Municipais de Oeiras e integra também a direcção da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas.

Questionado sobre esta mudança de paradigma, Bruno alerta: «De alguma forma os makerspaces sempre existiram nas bibliotecas. As pessoas sempre foram às bibliotecas para aprender e procurar respostas. Nas nossas bibliotecas públicas é comum os utilizadores dirigirem-se à secção das Técnicas buscar um livro sobre manutenção automóvel, à área de Tempos Livres para procurar livros sobre Jardinagem, Decoração e Artesanato ou até verem na área da Informática o que existe sobre programação … As bibliotecas sempre foram um espaço de aprendizagem e obtenção de novos conhecimentos, a única diferença é que agora as pessoas podem experimentar e criar também na biblioteca. O makerspace sempre esteve associado às bibliotecas. Quando o conceito aparece mais actualizado e com novas valências possibilitadas pelos avanços tecnológicos as bibliotecas puxam-no também para si.» E acrescenta que a principal condição para que o makerspace funcione numa biblioteca consiste no conhecimento das necessidades e interesses da sua comunidade, quem são, o que fazem, quais as faixas etárias maioritárias, quem frequenta a biblioteca e para quê e porque não a frequentam os outros. «Temos de saber de que forma se pode expressar, criar e comunicar e empoderar a comunidade.», afirma. Nesse sentido, Bruno dá exemplos. «Os ingleses têm um conceito muito engraçado semelhante a makerspace e que consiste numa espécie de oficinas de reparação (Repair Café). Como é que funciona? As pessoas encontram-se, na biblioteca, com equipamentos avariados e as pessoas encontram-se porque há sempre alguém que sabe arranjar a torradeira, outro pode ajudar com o telemóvel, outro sabe configurar o computador. Encontram-se para quê? Para trocar conhecimento: criar, inovar, cooperar pondo as pessoas em contacto. Em caso de dúvidas… a coleção da biblioteca e os bibliotecários estão lá para ajudar a encontrar as respostas!» As pessoas sabem que ali trocarão conhecimentos práticos sobre o arranjo destas peças, e procuram o espaço autonomamente, no seu horário de funcionamento, criando inclusive dois sistemas que se contaminam: o da troca e o da aprendizagem. Bruno reforça a ideia de que um makerspace não tem de ser digital: «existem makerspaces para trabalhar questões relacionadas com reciclagem, jardinagem, culinária, costura, onde se fazem brinquedos caseiros, por exemplo. Outro caso, de intervenção social, passa-se na Biblioteca Pública de Botkyrka, nos arredores de Estocolmo, na Suécia, onde a biblioteca local utiliza uma estratégia de makerspace como metodologia de integração de uma população maioritariamente feminina e imigrante de países africanos e do médio oriente. «A solução encontrada foi um atelier de costura onde cada uma partilha as suas técnicas: umas produzem os seus próprios tecidos no tear, a outras a biblioteca fornece os tecidos e elas mostram as suas técnicas de corte ou de ponto. Ali elas criam, inovam e cooperam, aprendendo a língua, por vezes criam pequenos negócios e também se  apercebem do espaço e socializando.» Os três princípios que orientam este conceito de espaço pró-activo para uso da comunidade não se aplicam apenas ao púbico. Se assim fosse, o papel das bibliotecas ficaria diminuído na sua relação com a comunidade. Um dos princípios do movimento maker consiste em não fazer tudo sozinho. As bibliotecas devem, para além de identificar as necessidades das pessoas que compõem o tecido social daquela geografia, procurar parceiros para desenvolver o makerspace. Os parceiros podem financiar a aquisição de equipamento, podem oferecer formação aos técnicos da bibioteca para dominar as ferramentas do espaço e ainda podem disponibilizar-se a ajudar e orientar o público no horário de utilização do makerspace. «O melhor makerspace que conheço é o da Biblioteca Pública de Colónia e ali não se faz nada sozinho. A biblioteca que possui orçamento para investir nos equipamentos, preferencialmente naqueles que não sejam facilmente acessíveis à maior parte do público, procura parceiros externos para garantir que tudo funciona. Quem é que vem cá dar formação aos bibliotecários? Quem é que vem cá dar aulas aos utilizadores? Empresas, parceiros e os próprios utilizadores. A biblioteca investe muito pouco nesta área!»

O projecto pioneiro da Biblioteca Municipal de Ílhavo

Em Portugal há actividades que estão próximas do conceito dos makerspaces, onde se realizam momentos de partilha e acção. Mas nenhuma tem ainda um espaço nem uma dinâmica de trabalho cooperativo por parte da comunidade.

Percorrendo os programas de actividades das Bibliotecas Públicas e das Escolares, verifica-se que em alguns casos há projectos próximos do conceito de makerspaces mas que ainda não o cumprem na totalidade. Oficinas, workshops, encontros já se dedicam a práticas diversas, da culinária à nutrição, do yoga à programação. Contudo falta a autonomia para que se ultrapasse o registo formal e seja a própria comunidade a encontrar-se ali e criar, partilhar e cooperar.

O cenário está prestes a mudar na Biblioteca Municipal de Ílhavo. Com inauguração prevista para o dia 17 de Novembro, Dia Mundial da Criatividade, Inês Vila vai abrir à comunidade o espaço Makerspace BMI – Juntos fazemos! Tudo começou com a sua participação no programa INELI  Iberoamérica (International Network of Emerging Library Innovators) que visava, depois de vários momentos de formação no espaço iberoamericano (em Madrid e na Colômbia) a apresentação final de um projecto e respectiva implementação na biblioteca. «Para além disso, a descoberta de espaços makers, em bibliotecas que fui visitando fora de Portugal, levou-me a ler mais sobre este tema e a descobrir as potencialidades do mesmo. Por outro lado, a utilização do espaço da Biblioteca Municipal de Ílhavo pelas famílias, com crianças e jovens, nos ateliês criativos que precedem a hora do conto, aos sábados, ou mesmo nas férias letivas, permitiu-me concluir que a biblioteca podia oferecer um pouco mais aos nossos utilizadores, levando-os à experimentação e criação dos seus próprios “trabalhos”.»

Por isso lançou mãos à obra e desde há um ano que desenvolve o makerspace. Para isso foi necessário responder a várias perguntas. Onde, na biblioteca, podemos reservar um espaço próprio para o makerspace? A que público se destinará? O que terá para oferecer e potenciar? Que parceiros poderão integrar o projecto?

A todas a bibliotecária conseguiu dar resposta. Está neste momento a adaptar uma sala que não estava aberta ao público. Não é muito grande, mas por enquanto será suficiente para instalar equipamentos e utilizadores. «Num Município como o de Ílhavo, onde existem já implementadas várias empresas vocacionadas para as novas tecnologias, onde está instalado um Parque de Ciência e Inovação, considerei que era uma prioridade para a Biblioteca Municipal, face a estas potencialidades, contribuir para o desenvolvimento das competências dos seus utilizadores, dando-lhes mais e novas ferramentas que lhes permitam uma melhor integração na comunidade onde vivem. Este projeto foi pensado e estará disponível para todos os utilizadores da BMI. O espaço funcionará em regime de livre acesso, no entanto, a formação e as atividades (workshops) serão direcionadas para: jovens adultos (16 e os 20 anos de idade), adultos, desempregados, famílias com filhos em idade escolar e professores e educadores.O nosso objetivo é disponibilizar um espaço vocacionado para a criatividade, a experimentação, mas também, para a inclusão social, uma vez que seguirá a filosofia do movimento Maker: “a biblioteca é transformada num espaço onde se trabalha junto a outros, onde se experimenta, joga e aprende, a biblioteca transforma-se em espaço de aprendizagem e de relação com a comunidade. Este espaço passa a ser visto como gerador de conhecimento que a biblioteca pode depois difundir”.» O makerspace será sobretudo tecnológico, disponibilizando «valências diferenciadas que permitam ao utilizador fazer, criar, mudar — impressão 3D, vídeo lab, recicláveis (papeis e plásticos), pequena robótica, fotografia artesanal…» e para isso Inês Vila conta com a parceria da Fábrica da Ciência Viva da Universidade de Aveiro e da BeeveryCreative, uma empresa de impressoras 3D sediada na região e que, para além dos diversos produtos que vende, também aposta na educação e formação. Por isso, a bibliotecária contará com estes parceiros em workshops e ateliers que virá a desenvolver com o público, como forma de divulgação e disseminação do projecto, bem como em formações prévias que serão ministradas à equipa da biblioteca para melhor poder motivar-se e envolver-se neste novo desafio. Apesar das dificuldades técnicas e financeiras inerentes, Inês Vila vê o potencial de ter na sua biblioteca um espaço que a moderniza e atrai potencialmente novos utilizadores, ao mesmo tempo em que oferece um serviço totalmente inovador ao seu público de sempre.

«Fico feliz por ser a Biblioteca Municipal de Ílhavo a dar esse passo em Portugal. Acredito que é mais uma oportunidade para as Bibliotecas Públicas, ou mesmo as Escolares, de servir as comunidades onde se inserem e de irem ao encontro das suas novas necessidades. Desejo que o exemplo da Biblioteca Municipal de Ílhavo possa ser seguido por outras… mas acima de tudo, que seja um estímulo, pela diferença do que fez junto da comunidade de Ílhavo. Isso será um sinal de que o “Makerspace BMI – Juntos Fazemos!” é um caso de sucesso e não mais um espaço inaugurado e que ficou parado no tempo.»

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Setembro de 2017.

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