Maria Ramos – Entrevista

Video still de 'Something Still Uncaptured'

Video still de ‘Something Still Uncaptured’: Miguel Faro

Coreógrafa e bailarina, estudou na Holanda e desenvolve o seu trabalho de pesquisa, criação e ensino em Portugal desde 2009.
Este sábado dia 6, a convite do festival Olhares do Mediterrâneo – Cinema no Feminino, vai dirigir um laboratório coreográfico no Cinema S. Jorge em Lisboa, que faz parte de um ciclo de sessões de experimentação coreográfica já a decorrer no Forum Dança, no âmbito do seu novo projeto ‘Árida’, no qual trabalha as temáticas da nova criação com as intérpretes Marta Cerqueira e Benedetta Maxia e um público mais alargado.

Fala-nos um pouco do teu percurso.
Comecei a fazer Dança e Teatro, em Lagos, quando estava a estudar no Secundário. Porque queria, não foi imposição parental, nem ocupação de tempos livres. Os meus pais valorizavam os tempos desocupados. Dança com a Professora Gwen Franco. E Teatro com o Professor Duval Pestana. Depois vim para Lisboa, fui fazer a minha primeira aula de dança contemporânea com a Amélia Bentes. Vibrei. Depois trabalhei intensamente com a Sofia Neuparth, o Peter Michael Dietz e a Amélia. Foram anos intensos e felizes. Foram eles que me falaram da escola na Holanda, do icónico EDDC, faculdade de dança contemporânea do Instituto de Artes de Arnhem, na região oriental da Holanda. Fiz audição. Seleccionaram. Fui. Era uma escola oásis. Verdadeiramente. Trabalhei com alguns dos ícones da dança contemporânea europeia e nova iorquina, entre eles, Steve Paxton, Deborah Hay, Yvonne Rainer, com bailarinos e professores das companhias Trisha Brown, Eva Karczag, Lisa Kraus. Também marcante, até a nível pedagógico, foi a formação com o colectivo Goat Island Performance Group que fiz em Berlim, em 1999, e com o coreógrafo/director Angus Balbernie, com quem colaborei como intérprete durante dez anos. Trabalhamos na Alemanha. Na Inglaterra. Nos Estados Unidos, em São Francisco, onde vi pela primeira vez e a olho nu, uma e várias sequóias. E dormi no Yosemite debaixo do céu. Trabalhei com vários coreógrafos diferentes, na Holanda, na Alemanha, na Inglaterra. Depois comecei a fazer os meus trabalhos. Mais para explorar conceitos. O meu primeiro trabalho foi um solo. Nessa altura já o escultor Antony Gormley andava na mochila em forma de livro. Queria fazer uma coreografia que era mais uma escultura. Escrevi uma carta ao Antony Gormley. Trocamos missivas sobre o corpo e o espaço. Depois conheci a Vinny Jones, a designer de luz com quem colaboro desde 2008, quando estava a fazer a peça ‘Nerves Like Nylon’, com a Benedetta Maxia, a Sofia Dias e a Lígia Teixeira, na Holanda. A Vinny colaborou comigo nesse trabalho e temos vindo a trabalhar juntas desde aí.

Foto de Maria Ramos

Foto: David Costa e Maria Ramos

Depois de vários anos no estrangeiro, como foi regressar a Portugal?
O meu plano era navegar, porque navegar é preciso, mas nunca me senti atraída pelas miragens de outros países, por isso nunca fui a pensar que um dia ia ter que regressar. Regressar já fazia parte do plano de ida.
Quando comecei a coreografar tive a oportunidade de desenvolver o meu trabalho em residências artísticas na Holanda e em Portugal e depois decidi fazer o curso pontual do Forum Dança para facilitar o regresso. Nesse curso conheci a Benedetta Maxia, bailarina com quem trabalho actualmente, o Vitor Roriz, a Lígia Teixeira, o Nuno Lucas, o Pedro Ramos, amigos e criadores, com quem trabalhei também noutros projectos. Depois comecei a fazer o solo ‘7pm/Rumour’ integrado no programa de residências do Forum Dança, apresentei-o na Holanda e depois cá, na BoxBova, CCB. Voltei à Holanda para integrar o curso de mestrado, onde continuei a desenvolver o meu trabalho, e nessa altura andava entre cá e lá.
Depois do mestrado, o que decidiu o regresso definitivo foi o convite da Escola de Artes do Funchal para desenvolver um trabalho coreográfico com os alunos dessa escola.

Já trabalhaste a partir do trabalho do escultor Antony Gormley. O que te fascina na sua obra?
Coreografar é um terreno de pura invenção, não há regras específicas que tenhamos que cumprir, parece-me, é uma forma de arte cativante por isso. E pode-se coreografar mesmo quando não há pessoas. Acho interessante partir para um trabalho coreográfico com um certo grau de desprendimento do corpo, afinal o corpo não é a essência da coreografia, talvez a relação espacial entre os corpos seja. O Antony Gormley coloca o corpo, assim, em frente e dentro do mar a erodir e exposto ao tempo. Ou no alto de uma montanha, a contemplar. Ou com um buraco no tórax para o ar passar. Acho interessante este escultor expor o corpo aos elementos naturais. Acho interessante o buraco no tórax por onde o ar passa. E o facto de muito do seu processo de construção para fazer uma escultura passar pelo seu próprio corpo. O espaço que o seu corpo ocupou está agora desocupado e é espaço dentro das esculturas. Sinto muita empatia, curiosidade e interesse pelo trabalho deste Senhor.

“Something Still Uncaptured” é a última duma triologia. O que te levou a esta criação?
Queria tornar o espaço ‘vazio’ visível. Queria torna-lo literalmente denso e que os corpos dos intérpretes deixassem marcas no espaço.
A primeira vez que falei deste projecto foi numa aula com o Jonathan Burrows. O JB propôs que escrevêssemos, num parágrafo, como ia ser o nosso próximo trabalho. E escrevi que toda a acção da peça ia estar centrada na cabeça e que, da cabeça para baixo, só haveria fumo. Denso.
Quando falei disto, ainda muito no inicio, à minha colaboradora, a Vinny Jones, perguntei-lhe se era possível manter o fumo em palco. Adensar o espaço. Tornar o volume do espaço visível através do fumo. Heads above smoke. Acho que foi o que lhe disse.
Queria fazer uma peça não para ser vista, mas para ser contemplada. Queria que a peça fosse experienciada como uma paisagem em acção, uma paisagem que vai sucedendo como quando estamos a viajar e a paisagem ou se mantém regular ou muda de forma abrupta.

Foto de 'Nerves Like Nylon': David Costa

Foto de ‘Nerves Like Nylon’: David Costa

Disseste que “Para criar movimento, considero primeiro o espaço ‘vazio’ e nele, o ‘corpo’, num certo grau de imobilidade.”. Como é o teu processo criativo e coreográfico?
Tive um professor, o Senhor Peter Hulton, que trabalhou connosco a peça ‘Come and Go’, de Beckett. Montamos a peça desde o início, estudamos as movimentações dos personagens em palco, às vezes éramos as personagens, outras vezes éramos o público a olhar para onde Beckett queria que nós olhássemos. Hulton mostrou-nos o trabalho meticuloso de Beckett, as entradas, as saídas, e como essas marcações e decisões cénicas reflectiam as movimentações do olhar do público que Beckett queria.
Quando fiz a peça ‘Nerves Like Nylon’ ia muitas vezes para o teatro da ArtEZ, da escola onde estava a fazer o mestrado, na Holanda, sentava-me na plateia a observar o palco vazio. Montei esta peça a visualizá-la no espaço, assim vazio e disponível.
No projecto anterior, o espaço foi coreografado a partir da ideia de contenção e pressão e adensamento do espaço de acção e começamos o processo criativo em palco, porque precisamos de montar luz, som e fumo. Todos os elementos fazem parte integrante do desenvolvimento do trabalho, são elementos activos que fazem parte do desenho coreográfico e dramatúrgico.

O que procuras num bailarino/performer?
Certeza nos músculos e alguma fúria nos tendões. Uma pessoa que também pense e fale com o corpo. Que olhe mesmo para as coisas e saiba aprecia-las. Uma pessoa que se conheça bem, as suas fragilidades, defeitos, qualidades e virtudes. Enfim, um super herói. Mas quando penso nesta tua pergunta penso nos intérpretes com quem tenho trabalhado, por isso, sei que existem.

“Nos últimos anos tens leccionado bastante. De que forma é que esta actividade de transmitir conhecimentos pode também ajudar a criar?”
Ajuda certamente a sistematizar o conhecimento que eu própria vou adquirindo através do trabalho que desenvolvo com as equipas com quem trabalho. Faz-me desenvolver estratégias que surgem desse trabalho contínuo com os alunos. Estratégias pedagógicas e artísticas que de outra forma não encontraria porque surgem nesse momento real, no espaço da aula. Tem sido fundamental para simplificar também, no sentido em que proponho uma coisa primeiro e depois deixo que a dinâmica do trabalho evolua antes de tomar a próxima decisão ou de propor a próxima acção. Outra coisa interessante é ver pessoas, não necessariamente profissionais da área, a lidar com as mesmas propostas que faço aos intérpretes com quem trabalho, não só é interessante ver um corpo não treinado a responder a propostas específicas de movimento, mas ajuda também a desdramatizar o trabalho de criação.

Como vês o panorama artístico português?
Efervescente.

Quais os teu próximos projectos?
Estou a preparar o novo trabalho com a minha equipa, o projecto Árida. Vamos trabalhar os conceitos de vastidão e aridez. Interessa-me também não centrar o trabalho nos intérpretes, mas na relação dos intérpretes com todos os elementos que criam e existem nesse ‘meio ambiente’ que iremos construir.

Neste Sábado, dia 6, a convite do festival Olhares do Mediterrâneo, Festival de Cinema dedicado à cinematografia das mulheres do mediterrâneo, no São Jorge, em Lisboa, vou dirigir, com a intérprete Marta Cerqueira, um Laboratório Coreográfico a partir das temáticas do novo projecto.

Vamos envolver o participante num microprocesso de criação para testar os conceitos do novo trabalho. Este Laboratório é aberto ao público geral e serão bem-vindos todos os interessados (profissionais ou não) em artes performativas, artes plásticas, escultura, cinema, fotografia, arquitectura ou áreas relacionadas.

Mais sobre Maria Ramos
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