Myanmar – Art in Progress

600_myaEncaixada entre a China, Tailândia, Índia, Laos e Bangladesh e até há pouco tempo fechado ao Turismo, ensimesmado e cheio de truques de sobrevivência para o viajante, a antiga Birmânia, hoje Myanmar (Ou República da União do Myanmar), está agora em pleno processo de (re)abertura. Para bem ou mal, tudo depende dos pontos e das vistas. Facto é que a liberdade de expressão se começa a estender para jornais e publicações independentes, mas antes disso já a coca-cola nos deu as boas vindas no aeroporto internacional de Yangon e a Samsung convenceu uma boa parte da população da capital que o maior indicador de status é um smartphone. Mantém-se no entanto a esperança de que uma equilibrada democracia se venha a instalar no país, tendo a resistente Aung San Suu Kyi  recentemente declarado a sua intenção de concorrer à presidência do Myanmar nas próximas eleições de 2015.

Mas adiante, viajemos! E como a maioria dos guias estão ainda desactualizados e pouca atenção dão à actual oferta cultural do país, partilharei o status quo de alguns locais onde se pode encontrar o que de mais contemporâneo se cria neste mundo por George Orwell habitado e Rydyard Kipling imaginado.

600_mya2Foco-me na capital, Yangon, pois fora dela poucas ofertas existem a não ser turísticos programas bem desenhados para estrangeiro ver. Pretendo também ir além dos templos, sem poder deixar de referir o famoso Schwedagon Pagoda, símbolo do país e da cidade, que não é de perder mas facilmente se encontra. Proponho-me por isso a divulgar formas alternativas de conhecer a história, cultura e vontades do meio artístico  contemporâneo do Myanmar, onde as Universidades de Belas Artes ainda se dedicam unicamente à transmissão da cultura e formas artísticas tradicionais, sem abertura para exploração dos campos da expressão artística individual e da criatividade aplicada a processos transdisciplinares. Os novos media não existem, e pintar para além do retrato e da paisagem não é bem visto pelas autoridades. No entanto, e como não poderia deixar de o ser, existem focos de resistência. Partilho aqui os dois únicos que encontrei e me marcaram pela sua abertura, sede de conhecer e vontade de dar a conhecer.

Na Pansodan Gallery encontram-se pessoas e histórias antigas, artistas que passaram pelo regime militar de censura e repressão vigente na antiga Birmânia até ao ano de 2011. A galeria é pequena mas convidativa, e com sorte se poderá ter o privilégio de participar num dos nocturnos convívios semanalmente organizados, onde entre comeres e beberes se pode desfrutar das obras da galeria, ouvir e participar em alegres conversas com locais e expatriados que habitam na capital, ao som da música que se for fazendo e cantando. Há espaço para participação, e jamais esquecerei o sentimento de partilhar a Grândola Vila Morena entre cantares de resistência da Birmânia. Para além de inúmeras obras de Arte que não encontram exposição em nenhum outro espaço, esta galeria conta também com um arquivo de escritos e publicações oficiais e clandestinas dos tempos de censura. Os galeristas procuram agora voluntários ou candidatos para o processo de catalogação e organização do acervo, quem se queira aventurar não hesite em contactar a Pansodan!

600_mia3Outro espaço sedento de conhecimento, partilhas e ajudas é o New Zero Art Space. Aqui, para além de uma cuidada biblioteca de arte, existe um espaço para exposições e criações de artistas da actualidade do Myanmar. Não sendo apenas um espaço de mostra, pretende também fomentar uma estrutura que oferece aulas gratuitas a estudantes e artistas que procurem formação alternativa à oferecida pelas academias tradicionais, nas mais variadas áreas, desde as artes plásticas e performativas à música ou fotografia. Um espaço aberto e interessado em receber artistas em residência, a troco de formação, cursos ou workshops o New Zero Art Space oferece estadia e alimentação. Uma forma de aprender e contribuir para o crescimento artístico e cultural de quem tem vontade de aprender e co-criar, mas poucas oportunidades de as encontrar para além do mundo da world wide web.

E caso a vontade de partir à descoberta esteja ainda tolhida pelo receio do desconhecido, aproveito para acrescentar que com a abertura do país se facilitaram também as viagens, sendo agora possível levantar dinheiro em ATMs sem se ter de recorrer ao antigo mercado negro de câmbios, e que nas principais cidades ditas turísticas do país (Yangon, Mandalay e Bagan) se respira um ar de segurança.

Mais informações estão já também actualizadas no Lonely Planet.

Artigo escrito por Mariana Vieira, Viajante

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