Não vamos nos calar

Por Andréa Zamorano

Dois dias depois dos terríveis assassinatos da vereadora Marielle Franco e do seu motorista Anderson Gomes, o Brasil – ou aquilo que se acreditava ser o Brasil – foi tomado por uma profusão de notícias que dão conta da situação aterradora em que nos encontramos. A seguir a comoção que se espalhou pelo país e pelo mundo ante à violência das execuções, começaram a surgir as fake news.

O estratagema não foi inventado na era da informatização, nem é um exclusivo da sociedade brasileira, sempre foi prática corrente no que toca à descredibilização seja de políticos, empresas ou pessoas. A novidade aqui foi a velocidade com que os boatos se propagaram no mundo virtual e a sua tremenda força destrutiva.

Conspurcar a imagem de Marielle e distorcer a sua luta contra a intervenção militar na cidade tentando colar à sua imagem ao tráfico de drogas e ao banditismo passou a ser o objetivo. A tática é descredibilizar a única vereadora negra e favelada da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro através da sua própria condição.

Apareceram nas redes as publicações mais abjetas contra a sua idoneidade e o seu caráter, evidenciando o racismo, a misógina e a discriminação latentes no segmento da sociedade brasileira que pretende preservar o establishment. Foram publicadas fotos falsas acompanhadas de textos difamatórios e até áudios forjados e “vazados” que tentavam associar a vereadora a uma das narco-facções da cidade. Tudo serviu para promover o discurso de ódio que vem envenenando o Brasil. A singularidade de Marielle foi o estopim. A atual sociedade brasileira ultraconservadora e fundamentalista não pretende que uma pessoa que materializava em si todas as categorias que se quer excluir na nova ordem – mulher, negra, pobre, homossexual e de esquerda – seja transformada num heroína nacional. A sua voz estava sendo ouvida. O tiro saiu pela culatra.

Também faz parte da narrativa de descredibilização a banalização da sua morte. Muitos insistem que o homicídio de Marielle não é mais importante do que os das outras sessenta mil vítimas que morrem anualmente. Sete brasileiros são assassinados por hora em consequência da violência. O país também tem a maior taxa do mundo de homicídios de policiais. No Brasil morrem mais pessoas do que na guerra da Síria, no entanto não se pode incluir a morte Marielle nessa estatística. Marielle era uma vereadora e foi executada sumariamente. O atentado que sofreu foi um crime político com intuito não apenas de calar a sua voz mas de intimidar todas as vozes dissonantes, cruzando a última fronteira de uma democracia já tão vilipendiada.

E se tanto horror não bastasse, o discurso “de que defender os direitos humanos é defender bandido” está amplamente difundido. Existe uma convicção disseminada de que os direitos humanos são uma invenção da esquerda brasileira e que a sua defesa é não só causa do aumento da criminalidade, como fomento à impunidade dos criminosos mais bárbaros da nação. Assim, do ponto de vista dos que promovem a queima das bruxas, leia-se defensores dos direitos humanos, esse foi outro dos pecados de Marielle que pertencia à Comissão dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

A Comissão “tem como tarefa acompanhar e se manifestar sobre proposições e assuntos ligados aos direitos inerentes ao ser humano, tendo em vista as condições mínimas à sua sobrevivência digna e o exercício pleno das garantias individuais e coletivas”. O que os seus caluniadores desconhecem ou não admitem é que a mesma Marielle que denunciava a truculência e os abusos da polícia militar, também defendia os policias mortos no exercício da sua atividade. Trabalhando na Alerj, em parceira com a própria polícia militar, Marielle prestava apoio através da Comissão às famílias das vítimas.

Quem manipula, dissemina calúnias e distorce histórias tem seus próprios interesses, estando apenas preocupado com o seu sucesso pessoal. O importante é trazer tráfego para a sua rede, gerando receitas e notoriedade. A medição da viralidade, ou melhor, do sucesso de uma publicação depende do chamado engajamento social. Quanto mais controvertido o tema mais fácil a propagação, o compartilhamento, os comentários e os likes.

Mas não só. Os que propagam tais conteúdos também tem uma agenda política. Não é à toa que os “defensores da moral e bons costumes” estão sempre a atirar na redes sociais os conteúdos mais contundentes, quanto mais polémico melhor mais desestabilizador. Há ainda uma radicalização do discurso. Não estão interessados nos problemas dos cidadãos, quando chegar o momento, sairão candidatos a um cargo político qualquer. Não esperem honradez de quem só tem covardia.

Honrar o legado de Marielle é não se deixar enredar pela teia de intrigas que domina as redes sociais. O seu partido está a lutar ativamente contra a milícia fundamentalista difamatória e pela preservação da sua imagem e do seu legado de vereadora. Pedindo aos internautas que imprimam as postagens caluniosas e as façam chegar até ao partido. Ao mesmo tempo, tem divulgado vídeos com entrevistas e textos da vereadora.

Marielle defendia os invisíveis como ela, os marginalizados, os esquecidos. Rompeu o ciclo dos que estão condenados a ficar à margem. Aqueles que acreditam que mulheres e homens são iguais, que negros e brancos são iguais, que pobres e ricos são iguais e que mães são sempre mães não importando o seu estado civil, nem a sua orientação sexual, que almejam um mundo onde se respeitem todas as pessoas, que acreditam no supremo valor dos direitos humanos, na democracia igualitária e no respeito pelas suas instituições, vamos lutar as batalhas de Marielle dando voz a quem não tem. Os quatro tiros que mataram Marielle não vão nos calar.

Créditos das fotografias:
Primeira foto: Fernando Frazão (Agência Brasil)
Segunda foto: Divulgação/Psol

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de março de 2018.

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