Né Barros – Entrevista

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Qual o balanço que faz destes 30 anos de actividade?
O balanço é certamente positivo, apesar de eu ter alguma dificuldade em pensar em balanços para este tipo de projectos. Os balanços parecem ser voltados, muitas vezes, a quantificações e este tipo de trabalho que fazemos é sobretudo qualitativo e de grande variabilidade, de mudança, de evocação constante à transformação. Temos, por isso, a sensação que estamos sempre no ponto de partida, não há lugar à estagnação. Mas à parte este dado importante, podemos ainda proceder a uma listagem enorme de trabalho e frutos realizados ao longo destes 30 anos. Desde a quantidade de artistas que formamos e lançamos, da enorme população (crianças e adultos) que passarem pelo balleteatro, às diversas criações e produções que se concretizaram, à formação de territórios conexos às artes e mais técnicos que se efectuou pela criação de emprego e desenvolvimento de serviços… é positivo perceber que se contribuiu para um efectivo desenvolvimento de uma comunidade para as artes performativas e para públicos mais atentos e exigentes. É abissal a diferença, uma comunidade informada, atenta e curiosa para estas artes performativas era praticamente inexistente no Porto…

Para além das criações próprias, o Balleteatro produz ou programa outros artistas?
Faz alguns anos que um dos objectivos que incluímos como relevante no nosso projecto, foi o de criar residências artísticas e de criar a figura de artistas associados por períodos mais alargado que as residências. Para além disto, fazemos um acompanhamento regular dos nossos formandos e estamos sempre de porta aberta para que dentro do possível se possam apoiar projectos destas novas gerações. Por esta razão é que na nossa missão também temos “Próximas Gerações” como módulo que articula o que existe em termos de formação no balleteatro, mas que também promove acções dirigidas a essa ideia de formar uma próxima geração.

Fale-nos um pouco deste novo espaço no Edifício AXA.
O espaço do Axa foi o espaço a que finalmente tivemos direito, a primeira vez que fomos apoiados nas instalações em todos estes anos. Por outro lado, há a integração do projecto num projecto aberto à cidade que a Porto Lazer produzi, o 1ª avenida, e que sem duvida traz uma vertente de abrangência para nós. Este espírito algo nómada que acompanhou o balleteatro ao longo destes anos também se associa a esta mudança qualitativa e de tangência ao coração da cidade que ao estarmos no Axa podemos usufruir. Temos um nome para o nosso projecto agora reformulado no Axa e que é “Bosque”, serve como indicador de um lado rebelde e não domado na cidade organizada, um contraponto o Bosque na cidade.

BalleteatroÉ importante a companhia ter uma escola, formar possíveis bailarinos do Balleteatro?
Um dos aspectos fundamentais do nosso projecto foi justamente ter tido quase desde o seu inicio uma componente formativa. Isso fez do projecto o seu pioneirismo que pensou, por exemplo, desde logo na importância de serviço educativo, algo muito em voga hoje em dia. De facto, não se tratou de criar apenas um menu de aulas, mas criar uma série de actividades que se alargassem de forma estruturante à comunidade em geral. Esta vertente de formação não foi nem é apenas de corpos que a praticam (performers), mas também de corpos que a assistem e a contactam (públicos). Por outro lado, a formação permite uma circulação sempre renovada de população que é sem duvida uma mais-valia na vitalidade das estruturas.

Como tem decorrido a integração dos alunos no mercado de trabalho? Têm feito algum acompanhamento?
Temos tido excelentes exemplos e resultados, há gerações de artistas (dos 40 aos 18 anos) que passaram pelo balleteatro, este foi para muitos o ninho e para outros um lugar de trabalho e de investigação. Na dança, no teatro, nas marionetas, nas artes de cruzamento em geral, existem inúmeros exemplos de profissionais com carreiras muito interessantes. Fazemos o acompanhamento dos nossos ex alunos e muitos deles até voltam, também eles, para serem professores no balleteatro.

Que melhorias gostaria de ver implementadas no que diz respeito ao ensino artístico em Portugal?
O ensino artístico em portugal já teve melhores desenvolvimentos. Houve durante uma década boas expectativas que neste momento estão a definhar. Resumidamente: é fundamental não homogeneizar os curricula das escolas, manter a diversidade formativa; é necessário e urgente repor orçamentos que possam dar respostas às necessidades, os cortes orçamentais têm sido desastrosos…

Que expectativas tem para o novo ciclo politico autárquico que agora se inicia no Porto?
Tenho muito boas expectativas. Conheço o próximo vereador da cultura, Paulo Cunha e Silva, e acredito que teremos um interlocutor inteligente e que tem noção da importância das artes na vida de todos os dias. Desejamos todos mais luz para os próximos anos…

Né Barros é coreógrafa e directora artística do Balleteatro.

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