O mundo caleidoscópico de Pieter Hugo

Fotografia de Pieter HugoPor Sara Figueiredo Costa

No Museu Berardo, em Lisboa, a exposição Entre a Espada e a Palavra, do fotógrafo sul-africano Pieter Hugo, ocupa várias salas do piso -1 e pode ser vista até ao próximo dia 7 de Outubro.

Produzidas entre 2003 e 2016, as fotografias organizam-se em quinze séries temáticas que percorrem lugares como a África do Sul, o Gana, a China, os Estados Unidos da América, o Ruanda ou a Nigéria. Entre os domadores de hienas nigerianos, os habitantes da cidade de Musina, na África do Sul, ou os passageiros fotografados enquanto dormem num voo nocturno entre Joanesburgo e Atlanta, o que une as fotografias de Pieter Hugo é a paisagem humana, nunca apresentada como generalização, mas como matéria sensível, particular, capaz de criar laços, ligações furtivas, coincidências que devem tanto aos contrastes sociais e económicos que atravessam o mundo como ao modo íntimo como cada pessoa o habita. O campo de trabalho de Pieter Hugo é o da fotografia artística, mas o seu olhar socorre-se de outros modos, cruzando a antropologia, o jornalismo de investigação, a procura de histórias e contextos que fazem de cada imagem uma intensa sobreposição de camadas significativas. Nessas camadas, entre o que vamos sabendo sobre os lugares e as pessoas que os habitam, as assimetrias sociais e os modos de vivência dos espaços públicos e privados, a narrativa de cada pessoa fotografada e a sua partilha criam uma abertura ao mundo, aos outros, a uma vulnerabilidade a que acedemos a partir de dentro, colocando o olhar de quem vê num plano de empatia e reconhecimento profundos.

Geografia humana

No Ruanda, entre 2014 e 2016, Pieter Hugo retrata várias crianças. O marco cronológico remete para 1994, ano do massacre no Ruanda e da eleição de Nelson Mandela como presidente da África do Sul, nas primeiras eleições democráticas do país, depois do apartheid. No texto de apresentação dessa série que abre a exposição, o fotógrafo contextualiza as imagens: «As crianças do Ruanda provocavam em mim o mesmo tipo de questões que os meus filhos. Será que carregam a mesma bagagem que os seus pais? Será que virão a ser afectadas pelo fardo da história? Aparentemente livre do passado do Ruanda e da África do Sul, a relação delas com o mundo afigura-se-me reconfortante. Mas, ao mesmo tempo, estou ciente da natureza sugestionável das suas mentes.» As crianças fotografadas não exibem qualquer marca ou vestígio que as relacione com os acontecimentos de uma década atrás, surgem ao ar livre, brincando, passeando, ocupando um espaço significativo entre a paisagem, mas nada as relaciona com o passado de modo directo. É o olhar questionador de Pieter Hugo a colocá-las nesse limbo cronológico perante os olhos de quem vê as fotografias.

Numa outra série, David Akore enfrenta-nos em Agbogbloshie, no Gana. Tem um cajado na mão direita, os músculos descontraídos e o olhar parece dizer que é este o preço do nosso consumo. Agbogbloshie é a segunda maior zona de processamento de resíduos electrónicos na África Ocidental, um imenso espaço a céu aberto onde o lixo tecnológico procedente de várias origens acaba o seu ciclo visível, convertendo-se em pequenas peças que ainda podem ter outro destino e em resíduos, muitos resíduos, quase todos extremamente poluentes. Na imagem, as fogueiras com resíduos plásticos, o fumo negro, a devastação. Há outros três homens, ou talvez rapazes, no enquadramento, mas parecem não reparar na câmara.

A fotografia onde surge David Akore integra a série “Erro Permanente”, composta por imagens registadas em Acra, capital do Gana, na zona entre Abossey Okai Road e o rio Odaw, completamente poluído. A questão ambiental é notória em qualquer das imagens desta série, mas são as pessoas que habitam as imagens que constroem um discurso comum a esta e às outras séries fotográficas de Pieter Hugo. Na China contemporânea, no Ruanda de 2014 (uma década depois do massacre), em San Francisco e Los Angeles, independentemente do contexto, as histórias contidas em cada uma das imagens do fotógrafo são sempre habitadas por pessoas – mesmo quando se trata de naturezas mortas, mesmo quando nenhuma pessoa integra o enquadramento.

Naturezas mortas onde não faltam pessoas

Quase todas as imagens de Pieter Hugo têm pessoas, já se disse. Algumas são retratos, no sentido mais clássico de uma composição inteiramente focada num corpo e sobretudo num rosto. A série “A Olhar Para o Lado”, por exemplo, nasce da vontade de fotografar pessoas com albinismo em diferentes partes do mundo e, como explica o fotógrafo na folha de sala da exposição, evolui noutras direcções: «Muitas das pessoas que eu fotografei viam mal – este é um dos efeitos colaterais do albinismo – e trabalhavam em instituições para pessoas com deficiência visual. Isto levou-me a alargar o âmbito do meu projecto, tendo passado a incluir invisuais e amblíopes. Os sentimentos de desconforto com que me deparava quando fotografava albinos também surgiam quando fotografava pessoas invisuais ou com má visão. Penso que o desconforto de enfrentar um olhar sem reciprocidade seja autoinflingido. Não é algo que os sujeitos sintam.» Este percurso que vai criando e modificando o tema e o modo de trabalhar do fotógrafo em função da relação que estabelece com os retratados e da reflexão que se desenvolve ao longo do processo parece ser constante no modo de ver e registar o que vê, e como vê, de Pieter Hugo. Nesse processo, há uma relação profunda que se cria com o contexto e com a narrativa de cada pessoa e é nessa relação que assenta a força visual das composições do fotógrafo, bem como os muitos níveis de leitura que se podem acrescentar a uma primeira visualização, quase sempre a centrar a atenção nas pessoas retratadas, mas logo depois extensível ao que as rodeia e ao modo como o que as rodeia – ou o que lhes falta – é parte tão intrínseca da sua história.

As naturezas mortas que integram esta exposição, espalhadas por algumas das séries, impressionam pelo modo como parecem conter tantas narrativas humanas sem que nenhuma pessoa surja nas imagens. Na série “Conversas em Torno de uma Sopa de Massa”, com fotografias feitas na China, entre 2015 e 2016, há uma imagem que mostra vários frutos e pedaços de cascas abandonados no chão. Depois das fotografias onde se vêem famílias chinesas nas suas casas, rodeadas pelos objectos do quotidiano que nos dão a ver o contraste entre a China maoista e a nova China onde socialismo e capitalismo convivem de um modo tantas vezes difícil de perceber, estes pedaços de frutas e cascas espalhados no chão parecem anunciar essas mudanças profundas atravessadas por vestígios de um passado recente, ao mesmo tempo que dão a ver a variedade, as diferenças – reafirmadas noutras imagens da série, retratos de jovens cujo aspecto físico e traços identitários afirmados através de adereços, roupas, tatuagens e outras marcas que se acrescentam ao corpo – não deixam de conter um certo olhar perante aquilo a que chamamos exótico, não no sentido erróneo de “estranho”, mas no sentido etimológico, aquilo que está fora do alcance da nossa vista.

Na série “Flores Silvestres da Califórnia”, em que Pieter Hugo fotografa pessoas sem-abrigo em São Francisco e Los Angeles, há uma fotografia onde se vê uma mala de viagem. No chão de uma rua, aberta, a mala exibe um forro vermelho vivo. Está vazia e abandonada, não sabemos a quem pertenceu ou pode vir a pertencer, e da rua vê-se apenas um pouco de asfalto. É uma natureza morta que parece conter todas as histórias de abandono, desespero, vício e solidão que se espalham à volta, nos retratos que compõem a série, e onde cada pessoa é retratada com um interesse e uma atenção a que só podemos chamar dignidade. É na mala vazia que se arrumam os olhos baixos de quem vê estas imagens no conforto de ar condicionado da sala de exposições. Para os retratados, é impossível não guardar uma genuína curiosidade por cada narrativa, cada modo de ocupar um pedaço de mundo com o corpo e o que nele se guarda, sempre criada por esse modo profundamente empático que Pieter Hugo coloca no olhar que antecede o disparo do diafragma.

Uma outra natureza morta, esta integrando a série “Laços de Família”, com imagens feitas na África do Sul entre 2006 e 2013, mostra um banco forrado a napa branca onde um conjunto de fissuras assinala o desgaste do material. A fotografia foi captada no lar de terceira idade Arcadia Place, na Cidade do Cabo, e talvez seja uma das imagens com maior força visual e emotiva, uma daquelas imagens capazes de perdurar na retina muito depois de abandonada a exposição. Uma vez mais, não há pessoas no enquadramento, mas o rasgão que se forma na napa do banco tem a eloquência de um mapa cronológico, ecoando as histórias de todos quantos passaram pelo Arcadia Place, mas também as histórias que os antecederam e que, de muitos modos, acabaram por integrar as suas.

É essa, afinal, a linha condutora de uma exposição tão extensa. Independentemente dos lugares, das histórias que os contextualizam e dos elementos visuais mais ou menos cénicos que ajudam a compô-los, são as narrativas das pessoas que definem a matéria primordial de cada imagem. Tratadas com uma igualdade notória, as pessoas retratadas são as testemunhas das suas próprias histórias, partilháveis, passíveis de serem colocadas em confronto ou associação, e sempre criadoras de uma empatia que nos coloca, aos espectadores, no centro nevrálgico de um mundo feito de muitos mundos – o possível, o insuportável, o que queremos mudar, aquele de que o balanço do tempo não nos deixa fugir, o mundo que só partilhamos porque todos carregamos a nossa própria narrativa e a vontade indómita de a cruzar com a de outros.

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de julho de 2018.

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