O nosso fado

Ilustração de André Reis

Por Levi Martins

Apesar da Revolução, continua a ser difícil acreditarmos na mudança do que não serve a liberdade. Pelas ruas, nos transportes públicos, à mesa do café, ao dobrar a esquina, escutam-se repetidas queixas sobre tudo aquilo que, por continuar na mesma, impede o desejável rumo da vida, transformando-se o quotidiano numa sucessão de angústias e desilusões.

Talvez devêssemos ser nós, trabalhadores e amantes da arte e da cultura, os representantes da esperança numa sociedade que ainda não existe e que todos temos o dever e o direito de inventar, numa permanente reforma revolucionária. A nossa condição difícil desde há muito (desde sempre?) tolhe-nos por vezes a energia e a coragem para lutarmos contra aquilo que tantas vezes nos querem fazer crer ser uma consequência das circunstâncias, como se não fosse o resultado de um historial de decisões de ordem política. No entanto, tirando a morte, quase nada é inevitável. Tudo o que existe que dependa da nossa capacidade de relação connosco próprios, e com aqueles que nos rodeiam, está sempre em aberto, mesmo quando aparentemente delimitado por regulamentos ou decretos-lei.

Quando se fala em política cultural, seja ao nível da administração central, seja ao das autarquias, qualquer pequeno passo é comemorado como uma grande vitória, como se tivéssemos já perdido a esperança quanto à possibilidade de se colocar a cultura num lugar de merecido destaque na vida quotidiana do nosso país. É como se as pequenas melhorias, ou meras alterações, nos permitissem por um momento esquecer tudo aquilo que continua por cumprir, apesar de décadas de promessas políticas, planos estratégicos, encontros, reuniões públicas, discursos, conferências ou publicações. E enquanto nos distraímos com esperanças que desejamos sempre que não sejam vãs, perpetuam-se as aparentes inevitabilidades de uma actividade que condena ao eterno sacrifício e ao sofrimento os que a teimam em continuar (talvez esta condenação esteja associada ao facto de a actividade cultural e artística estar também fundada, em grande medida, no prazer e na felicidade, o que leva quase necessariamente a um sentimento de culpa). Existe, porém, uma longa lista de questões que não são inevitáveis e que não dependem apenas de alterações legislativas e/ou burocráticas para serem modificadas.

Não é inevitável que:

– continuem a existir cineteatros sem verbas para programação cultural ou equipas qualificadas para programar, acolher e/ou criar;

– muitas das verbas previstas nos orçamentos para a cultura a nível autárquico sejam canalizadas para actividades de lazer (tantas vezes com propósitos eleitoralistas);

– o orçamento das estruturas de produção artística seja condicionado por cálculos que ignoram a realidade de uma estrutura de produção artística;

– os novos criadores e agentes culturais se vejam obrigados a financiar eles próprios a sua actividade, sobretudo quando esta é integrada em programações de espaços públicos;

– se utilize o frequente argumento “não há dinheiro” quando rapidamente se detecta o investimento de verbas muito superiores às que são afectas à cultura em actividades que dificilmente se poderão enquadrar naquilo que deveria ser o âmbito do serviço público;

– numa noite de festa se gastem  verbas do erário público que seriam suficientes para financiar a actividade de uma estrutura de produção artística durante um ano, o que permitiria a contratação de vários trabalhadores e contribuiria para uma programação cultural mais regular;

– muitos espaços culturais geridos por autarquias estejam praticamente inactivos durante todo o ano e não sejam, ainda assim, disponibilizados a quem tem entusiasmo e vontade de os dinamizar;

– se incentive a competição entre projectos artísticos por acesso a financiamento quando, na totalidade, as estruturas de produção artísticas continuam a ser insuficientes para que se possa fazer face à vergonhosa taxa de participação em actividades culturais no nosso país;

– se continue a orçamentar  a cultura como se de um mero pormenor se tratasse, quando se continua a apoiar actividades lucrativas com valores incomparavelmente superiores;

– persista a ideia de “subsídio-dependência” quando o Estado e as autarquias, através de todos os que exercem cargos públicos na área da cultura, poderiam contribuir activamente para que todos os cidadãos compreendessem por que motivo existem apoios para as artes e para as actividades culturais;

– não se promova uma relação mais próxima entre quem trabalha no serviço público no âmbito cultural e todos aqueles que, a título colectivo ou individual, sustentam a actividade artística e cultural (sem a qual dificilmente haveria justificação para existir serviço público na área da cultura);

– funcionários e técnicos de autarquias proponham a artistas e agentes culturais profissionais apresentarem o seu trabalho a custo zero;

– …

Esta lista tornar-se-ia tão longa que vos peço que a continuem. Os exemplos destacados talvez não sejam os mais importantes ou oportunos. Partem de um olhar que se tem feito simultaneamente de observação directa e do contacto com outros que vêem com atenção aquilo que se passa à sua volta. Os que há muito pensam estas questões parecem sentir que de um período de esperança se passou ao desalento e à escuridão. Outros há que não conhecem sequer essa luz. Há quem não tenha ainda consciência daquilo que nos rodeia. E quem tenha decidido adaptar-se à realidade sem a questionar. O sentimento de inevitabilidade parece quase sempre co-existir com a vontade de mudar tudo aquilo que continua a afastar a cultura do seu lugar. Talvez o mais urgente seja, então, combater essa sensação de fatalidade que faz com que pareça que não há nada a fazer senão aguentar, recorrendo à firmeza de quem já passou por muito e continua a testar os limites da sua resiliência. Inventemos uma nova cultura para que, com ela, nasça uma diferente forma de fazer política. Uma nova liberdade.

Levi Martins
Licenciado em Cinema, Ramo de Realização, pela ESTC. Mestre em Estudos de Teatro pela FLUL. É director artístico da Companhia Mascarenhas-Martins, estrutura que fundou com Maria Mascarenhas e Adelino Lourenço no Montijo.

Comments

  1. Boa e séria análise.

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