Os Sapatos do Senhor Luiz

Por Andreia Brites

À porta do Teatro Municipal São Luíz as famílias vão aguardando as 11 horas. Madalena Garnier Marques abre a porta do Foyer e logo convida o grupo a sentar-se no chão. A importância dos sapatos: aqueles que nos transportam, que viajam connosco, que guardam episódios, memórias, nadas e tudos.

No teatro, haverá pares de sapatos à espera de serem encontrados pelos visitantes. São sapatos do teatro, sapatos que literalmente têm histórias dentro. Mas isso o grupo só começa a alcançar depois de algumas crianças repararem no primeiro par que entretanto, por artes mágicas, jaz num degrau das escadas que levarão ao primeiro andar. Depois desta visita-espetáculo a Blimunda foi conhecer os bastidores dos bastidores com Madalena Garnier Marques.

O convite para esta visita espetáculo surgiu numa conversa entre Susana Duarte, a programadora infantil do Teatro Municipal São Luíz, e Madalena Garnier Marques por ocasião de uma oficina que esta última ali realizou sobre o actividário Teatro, da editora Pato Lógico, escrito por Ricardo Henriques e ilustrado por André Letria.

«Começámos a pensar no que podíamos fazer. Ela queria umas visitas mais encenadas com uma parte de expressão dramática… Havia várias possibilidades em cima da mesa e eu fui para casa pensar naquilo. Reunimos passado quase um ano. Levei-lhe uma série de propostas e pensámos que podíamos avançar com várias. Voltei para casa e pensei que não. Voltámos a reunir e disse-lhe: “Vamos apostar numa: Os Sapatos do Senhor Luíz.” Tinha outra que era Isto é um teatro ou é um barco? porque toda a maquinaria dos teatros é inspirada nos barcos. Mas depois, tendo em conta que se queria pegar nesta história invísivel do teatro que está lá mas não está, achámos que era a melhor proposta. A mim também me interessa muito trabalhar estas coisas invisíveis e torná-las visíveis e acessíveis.»

O que eu andei para aqui chegar

Com experiência de teatro amador desde a adolescência, Madalena tem um percurso muito pouco linear. Licenciou-se em animação e intervenção socio-cultural e logo aí percebeu que o conhecimento teórico lhe sabia a muito pouco. Antes disso tinha estado um ano em França a colaborar em projetos de voluntariado, onde se decidiu por aquela licenciatura em detrimento dos estudos teatrais. Durante o curso fez vários intercâmbios, entre os quais um curso de puppet em Copenhaga, onde conheceu muitas pessoas e formas de criar diferentes. Quando acabou o curso ingressou na Câmara Municipal da Moita como técnica da cultura, onde coordenou o Pé de Vento, um projeto de educação pela arte no Vale da Amoreira até à decisão de abandonar o emprego estável para se lançar na liberdade de criar momentos performativos associados à leitura, à música ou a qualquer outra arte. Fez um mestrado em Educação Artística e começaram a surgir as primeiras oficinas totalmente pensadas e trabalhadas por si.

«No meio disto tudo fiz dois estágios que são as minhas grandes referências: um na Gulbenkian, no antigo Centro de Arte Moderna, atualmente Coleção Moderna, e em Bruxelas no Museu das Crianças. Um sítio maravilhoso! É um palácio de cinco andares onde as exposições duram quatro anos, com uma equipa de trinta pessoas – músicos, carpinteiros, atores, artistas plásticos, costureiros – todas a trabalhar juntas e que nos últimos dois anos de cada exposição preparam a seguinte. É para crianças e inclui todas as referências que eles consideram importantes. É incrível! Eles é que constroem todos os módulos de jogo. Na altura em que lá estava a exposição chamava-se Vermelho. Então era o Vermelho Amor, Vermelho Festa, Vermelho Culinária, Vermelho Natureza, Vermelho Teatro… tudo. Foi uma grande inspiração!»

Quando estava no final do mestrado recebeu um email com a informação sobre um curso de artes performativas e pensou: «É mesmo isto! Estou mesmo a precisar de voltar ao teatro.» Assim foi. Começou então a criar sozinha os seus próprios espetáculos, maioritariamente dirigidos ao público infantil. O primeiro de todos chama-se Apanha Chuva e conta a história real dos chapéus de chuva. «Fui pesquisar tudo: a origem, como é que era usado, onde é que era usado, quem é que o usava… Interessa-me mesmo a história das coisas. De coisas que eu também não sei mas que me pergunto. O que é este edifício? Quem é que construiu isto? Porquê estas cores? Estou sempre com estas coisas na cabeça.»

O que hoje lhe parece claro é a escolha intuitiva do público – o infantil – e um tema que subjaz a tudo o que faz: a invisibilidade e a memória como elementos basilares para o desenvolvimento de identidades coletivas.

Conforto, palavra e ação

Recentemente fundou uma associação, a Casa Invisível, onde cria projetos de raíz com duas sócias. «Sócias porque somos da margem sul, só por isso!», comenta entre risos. A Casa, que não tem espaço físico, tem um papel de acolhimento, conforto e mediação, a mediação performativa. «É muito giro porque na Casa Invisível, no ativo, somos três e temos todas em comum esta coisa de querer vasculhar, de querer raspar o chão para ver o que está por baixo ou por trás. Este trabalho significa para nós a democratização da informação que implica o investimento na acessibilidade e adaptação dos conteúdos aos diferentes públicos.»

Neste momento, uma das três criadoras, Catarina, está no Funchal. Por isso propuseram uma visita encenada para o Teatro Baltazar Dias, ao qual ela se dedica realizando agora o mesmo tipo de pesquisa que Madalena já fez para o S. Luíz. A Casa Invisível reúne as experiências, as reflexões e os processos de trabalho das três no sentido de aprofundarem uma linguagem comum. Madalena, Susana e Catarina conheceram-se na Gulbenkian. Susana e Catarina já trabalhavam juntas quando Madalena surgiu no projeto Histórias de Musear, que agora também é realizado através da Casa Invisível. «São histórias a partir das exposições. Há uma relação que é criada entre as histórias e a exposição que não é só um cenário. A ideia é também haver uma pesquisa em torno dos objetos e dos artistas expostos. Daí resulta uma abordagem performativa através de um percurso, normalmente entre três obras e durante o qual vão acontecendo coisas.» Estas sessões dirigem-se a famílias com crianças entre os 2 e os 5 anos. Na Casa, Madalena e Catarina trabalham essencialmente com o público infantil enquanto Susana acrescenta ainda visitas para o público adulto. Como objetivoobjectivo programático, a associação continuará a oferecer visitas guiadas, oficinas e uma parte performativa. «A ideia é podermos conviver com espaços que já existem, ocuparmos espaços que são menos usados, mas o objetivo principal da Casa Invisível é ser de facto uma casa, um espaço de conforto onde as pessoas se encontrem, se sintam à vontade para serem quem são, para dizerem o que lhes apetece, para não se preocuparem com aquilo que os outros achem e para ser um espaço de descoberta, um espaço de palavra e de convicção, qualquer espaço que a casa seja. Na sinopse que escrevemos sobre a associação dizemos que os contornos da Casa Invisível são os contornos do nosso dedo indicador e são o que nós quisermos.»

«Os Sapatos do Senhor Luíz são uma forma de ler aquela casa»

O modelo de trabalho de Madalena Garnier Marques é bastante metódico e Os Sapatos do Senhor Luíz não fugiram à regra. Começou por uma pesquisa acurada sobre a história e as histórias do teatro, em parceria com a Susana Pires. Leram e vasculharam documentos e documentos, desde o nascimento da pessoa São Luíz. O título, embora não referido na visita-espetáculo, foi concedido a Luíz de Braga Júnior pelo Rei D. Carlos: Visconde São Luíz. Ao longo da pesquisa perceberam as dinâmicas sociais dos torna-viagem (os que vão e voltam do Brasil a partir da segunda metade do século XIX), quem eram as pessoas influentes e as mais importante para o teatro. Só quando chegaram à história do Teatro São Luíz propriamente dita é que teve início a escolha dos sapatos. Poderiam ter sido os sapatos da Rainha, do arquiteto do edifício, Ernest-Louis Reynaud, ou do pintor, cenógrafo e arquiteto italiano Luigi Manini que assina o fresco da parede do Jardim de inverno. Mas não foram. Um dos nomes que logo se impôs foi o da mundialmente conhecida atriz Sarah Bernhardt. Era uma mulher, e que mulher! Tendo em conta que as visitas são destinadas ao público infantil, incluir esta figura significa apresentar alguém totalmente desconhecido. No entanto, Madalena anuncia-a como «a melhor e mais incrível atriz do mundo, a mais conhecida!» faz parte do jogo este engano, e a surpresa será maior. Mas chegar aqui implicou que, para os sapatos escolhidos, se criasse um texto e uma dramaturgia que revelasse o invisível e o evidente. «Faço a seleção das informações que me chamam a atenção, faço uma cronologia para não me perder no meio de todos os factos e depois seleciono as informações que acho que são importantes. Adoro cortar, é muito fácil para mim perceber que isto ou aquilo não é assim tão importante. Depois há sempre pequenos detalhes sobre os quais não consigo encontrar informações e tenho de ir por outras formas. Mas tudo o que conto no espetáculo é verdade. Se calhar a Sarah Bernhardt não viajava com tantos pavões mas é verdade que viajava com os seus animais de estimação, entre os quais um macaco. É verdade que o São Luíz, quando chegou ao Teatro, tirou três vezes o chapéu, sacudiu as mãos e disse coisas que ninguém entendia. Li isto numa entrevista que consegui ver num jornal da época… Quando a encontrei pensei “Isto é genial, é sobre o momento em que ele chega ao teatro!” Depois, a partir do momento em que faço a seleção do texto preciso de começar a ver como é que vou dizer isto. Então tenho dois documentos paralelos: um com citações e informações. Outro com uma tabela onde vou incluindo informações, datas, dramaturgia, o que vou usar no espetáculo naquele momento, o que vou dizer para além do que é informação histórica e começo a criar a minha linguagem. Por exemplo: “O São Luíz estava feliz.” São coisas que parecem ser a brincar, que são a rimar, que ficam no ouvido. Estas coisas fazem a diferença na cabeça das pessoas, em geral. Como fazem na minha.»

A criação dos sapatos também foi uma novidade no processo de trabalho de Madalena. Habituada a desenvolver espetáculos sem nada, apenas com recurso aos objetos do quotidiano, era preciso organizar muito bem cada elemento a introduzir nos pares de sapatos, base do texto de toda a visita-espetáculo. À medida que pesquisava e escrevia o guião com a Susana Pires tentava materializar factos, episódios e símbolos nos sapatos. Por isso, dos sapatos do Senhor Luíz vemos aparecer, por exemplo, um mapa, ou, numa das solas, a planta da sala principal.

«Eu conheci uma rapariga num projeto que se chama Condomínio e que é um festival que acontece dentro da casa das pessoas. Eles recebem dois tipos de candidaturas: candidaturas de casas e candidaturas de projetos, de pessoas que querem ir fazer coisas ao condomínio. Eu candidatei a minha casa e a Ângela Rocha fazia parte da equipa do condomínio. Não nos conheciamos mas entretanto fomos percebendo o que cada uma de nós fazia. A Ângela é aderecista, figurinista e cenógrafa. Andava com ela na cabeça para este projeto. Tenho um amigo que me chama a senhora minúscula porque sou muito do detalhe: a florzinha que nunca ninguém viu… Tenho um espetáculo que é o senhor minúsculo e a baleia! Não sei porquê, percebi que a Ângela também era do detalhe, então falei com ela para ser ela a fazer os sapatos. Ela reuniu a equipa que trabalha com ela e fez um trabalho notável. Os únicos sapatos que foram comprados são os do Mário Viegas. São mais pequenos do que os outros para eu os poder calçar, senão não conseguia. Tudo o que eles puseram nos sapatos foi a nosso pedido. É mesmo um trabalho de joalheiros!»

Quando estreou, a visita-espetáculo só incluia dois pares de sapatos: os do seu fundador, o São Luíz e os do Marreco, o projecionista. Passado um ou dois meses, entraram os sapatos de Sarah Bernhardt e este ano chegaram os de Mário Viegas. A história do Teatro permite precisamente esse acréscimo e diminuição de pares. Estão por isso previstos novos pares e até algumas variações, como por vezes acontece com grupos escolares. Se forem muito pequenos, Madalena nem sempre apresenta Sarah Bernhardt, por exemplo. Quem não faltará, independentemente dos outros convivas, será o próprio São Luíz, na imagem do seu par de sapatos porque afinal, «é ele quem abre a porta.»

O público

«É muito giro ver a reação do público. Uma vez, n’Os Sapatos do Senhor Luíz, logo ao princípio, estava um menino super colado, e às tantas olha para a professora que estava atrás e diz: “Isto é que é o espetáculo?”» Numa outra ocasião, numa visita para escolas na Gulbenkian, outra criança perguntou se aquilo, que era uma visita, era um espetáculo. «Foi aí que me surgiu a ideia da visita-espetáculo. Por causa daquele miúdo. Isso é algo que temos vindo a perceber na Casa Invisível: é que queremos muito brincar com os híbridos, com as miscelâneas. Porque nos interessa muito continuar esta relação de proximidade sem quarta parede. Porque os projetos também têm isso, essa mediação em que queremos que nos digam coisas para integrar também. O meu foco é o público, independentemente do projeto que estejamos a criar. Tenho muito respeito pelas pessoas que tiram o tempo para fazer aquilo comigo e por isso eu trabalho para as pessoas que estão comigo naquele momento. É fundamental fazê-las sentir que aquilo é para elas, que não é só mais uma coisa que aconteceu e que é repetida. A mediação é esse convite a entrar.»

Apesar disso, Madalena assume que sofre quando compara a maior participação do público nas oficinas de promoção da leitura que orienta com a dos espetáculos. Mas reconhece que são modelos distintos e que forçar demais a participação alteraria o formato, a linguagem e a própria coerência destes últimos. «Tentámos com os sapatos do Mário Viegas. Pensámos num momento de expressão dramática mas não resultaria, não fazia sentido, não seria o mesmo objeto.»

A terminar a nossa conversa, perguntamos a Madalena se considera que a visita-espetáculo Os Sapatos do Senhor Luíz promove leitura.

«Acho que sim, especialmente porque promovo memória, memória coletiva.»

Fotografias de Estelle Valente

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Outubro de 2017.

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