O pano do Kalaf

Por Andréa Zamorano

Tudo havia dado mais do que certo na minha primeira participação na FLIP. Naqueles cinco dias em Paraty, fui cinegrafista, porteira, garçonete e até escritora na Casa Amado e Saramago. Transmiti “lives” para as redes sociais, controlei a porta quando as filas passavam das duas horas de espera – devo dizer que o povo se cansava contudo não se impacientava – servi vinho para os que estiveram no concerto de encerramento, partilhei o palco com José Eduardo Agualusa na minha vez de ser autora e também dei autógrafos. Ri-me com as suas leitoras que, a seguir à nossa mesa, se confessavam maravilhadas pela forma simples como eu o tratava: “Zé”. Admiravam-se pela descoberta da dimensão doméstica de um escritor.

Invadida pela sensação do dever bem cumprido, o meu contentamento era tanto que equivocadamente acreditei estar imune às amplitudes térmicas que se fazem sentir do dia para noite naquelas terras do litoral fluminense. Afinal de contas, podia até não parecer, mas era inverno no estado do Rio de Janeiro. Habituada às agruras da Europa, decidi que não seria uma aragenzinha húmida de beira de praia que me faria perder a última noite da FLIP. Segui em frente me equilibrando nas pedras carroçudas em forma de amendoim com rapadura.

Foi quando reparei no gesto de Kalaf. Inadvertido quanto à minha frialdade, ele abria a sua bolsa e retirava lá de dentro um cachecol. Lépida, antes que completasse o movimento de o por no pescoço, subtrai o cachecol das suas mãos. Passei a tira larga de tecido pelas costas sem constrangimento, tratando-a então por écharpe. Kalaf balançou os ombros face às inevitabilidades do furto e do novo nome.

Quando na manhã seguinte nos encontramos, já a caminho de regresso para o Rio de Janeiro, avisei-o que trazia a écharpe que ele havia sido forçado a me emprestar. Ele agradeceu e lamentou “desconseguir” me oferecer o cachecol por ter sido presente de pessoa de família. Garanti-lhe não ser preciso, apesar da beleza do tecido. A conversa entabulou nas horas paradas no trânsito, por fim chegamos à cidade. No entanto, só muito depois do túnel Rebouças, lá em Brás de Pina, subúrbio carioca da Leopoldina, dei conta que Kalaf havia saído sem a écharpe.

Preocupada, visto ser peça de estima do autor, decidi deixá-la no porta-luvas do carro da minha mãe – meu carro por aqueles dias – não fosse ter a sorte de me cruzar com o escritor na cidade. Não aconteceu. Entre lançamentos do meu romance, entrevistas, visitas a parentada e algumas noites de samba com os amigos, acabei descobrindo que a única escola do grupo especial do Rio de Janeiro comandada por uma presidenta vai apresentar um enredo sobre mulheres no próximo carnaval – bravo Salgueiro! E nunca mais me lembrei da écharpe, confesso.

Saí da Tijuca para Petrópolis, a cidade imperial – também dava um bom título de enredo – mais entrevistas, lançamento e, pasmem, uma menção congratulatória na câmara dos vereadores. Voltei para o Rio cheia de um orgulho de criança escolhida pela professora para distribuir a prova para os colegas.

A caminho do Santos Dummont, por fim me lembrei da écharpe compartimentada no painel do carro. Enfiei-a dentro da manga do casaco que levava no braço. Ia para o sul, o frio já me havia enganado uma vez. Na minha chegada, encontrei-me com o futuro no aeroporto, uma menina ativista negra que recita poesia de intervenção aos seis anos de idade. Anaya foi levada pela sua avó, a contista Dukarmo. Conhecemo-nos em Paraty, estávamos em Porto Alegre, tal como a écharpe de Kalaf. A amizade não precisa mais do que corações abertos. Despedimo-nos com troca de livros, abraços apertados, uma foto em conjunto e a promessa de voltarmos a nos encontrar. Parti com o motorista para quase trezentos quilómetros de estrada até à Universidade Federal de Santa Maria. Pus uma garrafa de água e a écharpe de Kalaf no banco traseiro.

A meio da viagem fomos colhidos por uma tempestade. Levamos mais de seis horas para chegar ao hotel. O motorista descarregou as bagagens e fui de imediato para o quarto onde entrei em pânico ao me aperceber que a écharpe havia ficado esquecida no carro. Esperei até chegar na universidade, na manhã seguinte, para conseguir enviar uma mensagem ao motorista que argumentava convicto que a única coisa que havia no carro era uma garrafa da água e um pano. A felicidade que senti naquela tradução. Não era nem cachecol, muito menos a pretensiosa palavra que eu usava – écharpe. Tratava-se de um pano de linho com uns sessenta centímetros de largura, bem vistas as coisas, apenas um pano.

Já passamos por Londrina e estamos em São Paulo, mais uns minutos e estaremos precisamente na Casa das Rosas, o local simbólico marco da minha jornada. Mas o pano não vai não. Fica aqui em casa do meu tio. Apesar da descomplificação nominal, ficou a responsabilidade .

Na próxima segunda-feira, voltamos à Lisboa – eu e o pano do Kalaf – sigo para Algarve com recém-renomeado pano que vive no fundo da minha mala à espera do dia que regressará ao seu dono. Quem sabe na volta…

Andréa Zamorano
Andréa Zamorano nasceu no Rio de Janeiro e vive há tantos anos em Portugal quantos os que viveu no Brasil. A Casa da Rosas é o seu primeiro romance, foi publicado em Portugal em 2015 pela prestigiada editora Quetzal e foi lançado no Brasil em Julho pela Tinta Negra Bazar Editorial. A obra foi vencedora do Prémio Livro do Ano pela Revista TimeOut Lisboa.
A sua escrita é resultado das suas vivências nas duas variantes da língua. Sem as fronteiras impostas pelo formalismo, a língua portuguesa em que escreve é um caso singular de hibridismo.

Uma escrita livre, ritmada, sem preconceitos linguísticos, com a coexistência das linguagens e referências portuguesas e brasileiras – Revista Visão

Cursou Língua e Literaturas de Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da UFRJ e licenciou-se em Estudos Portugueses na Universidade Nova de Lisboa. Frequentou o Mestrado em Literatura Comparada na Universidade de Lisboa.
Tendo trabalhado na área da Comunicação Empresarial em diferentes multinacionais, é atualmente proprietária de restaurantes em Lisboa, entre os quais, a famosa Hamburgueria Gourmet – Café do Rio.
Assina ainda a coluna chamada “A Casa da Andréa” na revista Blimunda da Fundação José Saramago. 

Este artigo foi publicado ao abrigo da nossa parceria com a Fundação José Saramago. Foi publicado originalmente na Revista Blimunda de Agosto de 2017.

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