Pedro Freitas: a poesia ainda mora aqui

Por Luís Eusébio

É nas ruas de Lisboa que Pedro Freitas procura as palavras que povoam a sua poesia. O jovem poeta e declamador participou recentemente no programa Got Talent Portugal norteado pela missão de mostrar que a poesia não morreu. Agora, almeja fazer da sua vida a prova disso mesmo.

O olhar sereno de Pedro Freitas demora-se na tranquilidade do Tejo. No Cais do Sodré, os barcos beijam o porto mas rapidamente o largam. Depressa se movimentam as vidas. A brisa que se levanta do rio alivia o calor que se faz sentir durante a tarde. O manto de água reflete uma luz que é só de Lisboa. Cruzam-se no ar conversas travadas em diversos idiomas, em diferentes ritmos. É neste contraste entre a agitação da cidade e a tranquilidade do rio que Pedro, 19 anos, encontra inspiração para escrever.

No início do ano, Pedro passou três semanas a vender poemas da sua autoria no Cais do Sodré. Fazia-se acompanhar por uma máquina de escrever e um cartaz onde se podia ler: “1 poema = 1 euro”. Os textos eram escritos à medida que iam sendo pedidos, o que se revelou desafiante em alguns momentos: “uma criança chegou a pedir-me um poema sobre ratos”, relembra, por entre um sorriso. Mesmo aqueles que não pediam nenhum texto abrandavam para ver e sorrir. A intenção do jovem poeta passava por “instaurar a estranheza e, pelo meio, espalhar cultura”.

A tranquilidade de Pedro espelha-se na sua voz profunda e aveludada, nos seus gestos suaves e seguros. Magro, pele morena, fala de poesia com um brilho quase infantil no olhar. O cabelo sem regra, negro e volumoso, é a marca que o diferencia. Depois de ter participado no programa Got Talent Portugal passou a ser reconhecido na rua: “Vi-o ontem a cantar na televisão!”, atira um transeunte, despontando em Pedro uma gargalhada tímida.

A sua entrada no programa da RTP foi impulsionada pela vontade de “mostrar aos portugueses que a poesia não está morta”. Na audição declamou o poema “Máscaras D’Orfeu”, de Napoleão Mira. “Ver o meu verbo ser ali derramado à frente do país por tão jovem talento fez-me sentir que valeu a pena.

Que este é o caminho certo”, afirma o poeta num comentário deixado na página da RTP. Pedro não esconde o orgulho de ter podido dar a conhecer aos portugueses um dos seus ídolos literários. Revela que ambiciona entrar no universo do entretenimento, de forma a conseguir “incutir à geração mais jovem o gosto por esta coisa tão simples que é ler em voz alta, desconstruir e interpretar um poema”. A sua prima mais velha, Mariana Rita, 29 anos, acredita que a passagem pelo Got Talent “potenciou a exposição pública do Pedro e ajudou a que pessoas que ele admira pudessem reparar no seu valor. Como rampa de lançamento” – acrescenta – “foi importante e é já uma pequena vitória”.

O nascimento de uma paixão

Foi pela mão da sua prima que Pedro foi desbravando o universo da poesia. Em 2008, Mariana ofereceu-lhe o álbum “Pratica(mente)”, do rapper Sam The Kid. O fascínio pelas palavras nascia aí. “Passámos muito tempo juntos e partilhava com ele algumas manifestações artísticas que, para mim, são muito importantes”, conta. Naquele Verão, ouviram o álbum “Sobre(tudo)” tantas vezes que o disco acabou por ficar danificado: “Ele era muito pequeno mas já dizia todas as rimas comigo”. Para Pedro, Sam The Kid é “dos artistas mais virtuosos, no panorama musical português, no uso que faz da palavra e da rima”.

A partir daí, foi cultivando a paixão pela leitura. Descobriu poetas como Pessoa, Torga, Régio, Al Berto, Cesário Verde. Depois, encantou-se por aqueles que lhes emprestaram a sua voz: Villaret, Ary dos Santos, Mário Viegas, Pedro Lamares, Maria Bethânia, Vítor de Sousa. Começou a escrever e a dizer poesia. Em 2014, participou em várias “Poetry Slams” na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e na Faculdade de Letras, onde lhe foi dada a oportunidade de dizer poemas da sua autoria. Por sua vez, em 2015, entrou no concurso de leitura em voz alta, “Dá Voz à Letra”, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde recebeu formação sobre a colocação da voz, a dicção e a respiração.

O jovem declamador defende que o processo de interiorização de um poema é crucial para “chegar à sua essência”: depois de saber um texto de cor começa a pensar nas suas pausas e só então se detém sobre o significado e os sons de cada uma das palavras e decide a quais irá atribuir maior ênfase. “Esse processo faz-me pensar profundamente um texto, ajuda-me a tentar perceber o
sentido por detrás da articulação entre as palavras, os sons e as pausas”, afirma. Por isso, acredita que sempre que alguém diz um poema lhe acrescenta alguma coisa: “a subjetividade e as vivências do dizedor espelham-se sempre na forma como se interpreta e declama um poema”. Trata-se de um “processo de dissecação”, que considera ser “muito diferente da forma como os textos são ensinados nas escolas”, em que “não se costuma dar espaço a interpretações divergentes”.

Em 2015, concorreu ainda à Antologia Poética da Chiado Editora com um poema que escreveu sobre a velhice e a solidão. Foram selecionados mais de 1000 textos, incluindo o seu: “Aquela Antologia é uma prova de que a poesia não está morta. Contudo, há muitas pessoas a escrever e poucas a serem lidas”. Foi o início da sua vida literária.

O seu processo criativo de escrita envolve algum tempo e meditação: “Aquilo que escrevo é o ‘eu’ pensado. Eu digo-me e digo o meu mundo quando escrevo”. O seu primeiro livro, intitulado “Metafisicamente de Outro Mundo”, é dedicado a Mariana, a sua namorada. Mariana Pinto, 19 anos, é, neste momento, a detentora do único exemplar desta obra. “Desde o início da nossa relação” – conta – “que o Pedro tem o hábito de escrever poemas para mim”. Refere que o namorado se dedica à poesia mais do que a qualquer outra coisa: “Acho que o gosto pela escrita e pela leitura o acompanha desde sempre”.

A poesia de Pedro é um reflexo do seu deslumbramento pelo alvoroço incessante da cidade. É nas histórias guardadas pelas ruas e vielas de Lisboa que encontra alento para escrever: “A cidade é um meio de inspiração, um meio de sedução, de degredo, de putas. Na cidade conflui o bem e o mal. E esse movimento constante inspira-me”.

A atenção que presta a tudo o que o rodeia espelha a sua “vontade insaciável de querer conhecer tudo”. Guiado por essa ânsia, inscreveu-se, em Setembro de 2016, no curso de Estudos Gerais da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde teria a oportunidade de frequentar cadeiras de várias áreas. Contudo, não conseguiu inscrever-se nas unidades curriculares que queria frequentar e acabou por abandonar a licenciatura no final do 1º semestre. Não descartando a hipótese de vir a ingressar num curso de Marketing
Digital ou de Programação e Produção Cultural, Pedro defende que o conhecimento que procura pode ser encontrado na “experiência real, nas vivências, na leitura e no tempo que se passa com as pessoas”.

A escolha de um caminho

Pedro investe toda a sua emotividade nos poemas que escreve e diz, mas no atletismo, a sua outra grande paixão, deixa-se guiar pela razão. Aos 10 anos, fez provas de captação no Estádio 1º de Maio, com o treinador José da Fonseca, que o acompanha até hoje. Entrou para a equipa do Sporting Clube de Portugal ao mesmo tempo que Ruben Couchinho, 22 anos. Tornaram-se grandes amigos e hoje partilham a pista e o gosto pela literatura: “Eu frequentei primeiro a disciplina de Literatura Portuguesa, no Secundário, e ia discutindo com o Pedro os autores que abordávamos e os livros de que mais gostava. Agora, é sobretudo ele que me dá a conhecer novos poetas, novos autores e novos livros”.

Ruben destaca a persistência, a competitividade e o sentido de fair-play do amigo. Em 2015, Pedro chegou a ser vice-campeão nacional de salto em comprimento do escalão de juvenis e arrecadou o 3º lugar no triplo salto na mesma competição. Carregava o sonho de um dia poder participar nos Jogos Olímpicos. Porém, atendendo à inexistência de apoio aos atletas por parte do clube, desistiu da ideia de fazer do atletismo uma profissão: “Em 8 anos no Sporting, recebi um único equipamento e não tinha ajuda para suportar os custos. Era um investimento sem retorno”. Saiu do clube mas continua a competir pelo Estrela de Almeida, na Pista de Atletismo Municipal Professor Moniz Pereira. “Continuo a treinar” – explica – “porque a cabeça funciona melhor depois de um treino, acalma-me. Serve mais como uma sessão de relaxamento e meditação”.

Ruben defende que o desporto e a literatura “proporcionam sensações distintas, são paixões diferentes mas perfeitamente conciliáveis”. Não obstante, apoia a decisão do amigo de deixar o atletismo para segundo plano, de forma a poder dedicar-se à poesia: “Foi uma opção ponderada e tem corrido muito bem”. É nessa pista que Pedro se vê a trilhar o seu futuro.

Em Fevereiro, criou um canal no YouTube com o nome “Poeta da Cidade”. Neste projeto, alia o interesse pelo cinema e pelo storytelling, a paixão pela declamação de poesia e o deslumbramento pela cidade de Lisboa. Pedro considera que a combinação entre as palavras e a composição das imagens lhe dá a “oportunidade de dizer um texto de forma diferente”. Assume a vontade de conseguir ganhar notoriedade nesta rede social de forma a conseguir tornar-se numa “rampa de lançamento para poetas e escritores menos conhecidos”.

O jovem escritor acredita que “nos temos vindo a apartar daquilo que nos faz portugueses, que é a poesia: aquilo que somos ficou dito pelos poetas”. Pedro revela que irá voltar a concorrer ao programa Got Talent para poder continuar a promover esta arte: “Quero que as pessoas sintam que vale a pena continuar a escrever e a ler poesia. Um poema permite-nos saber ao que cheira o que não pode ser cheirado e ver aquilo que não há. Se ninguém escrever ninguém nos diz”.

O Sol vai-se escondendo por detrás do velho casario. O grasnar das gaivotas une-se às buzinas dos carros numa simbiose surpreendente. As obras da cidade e a poluição contrastam com a beleza do rio e da luz amarelada que subsiste. Os olhos negros e atentos de Pedro capturam todos os instantes e demoram-se em todas estas contradições. É impossível não sentir que naquele olhar estão constantemente a nascer os versos da sua poesia. De facto, esta cidade é um poema por dizer.

Luís Eusébio
Estudante do Mestrado de Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa. Define-me a vontade de contar estórias, de traduzir vozes e a curiosidade de quem constantemente (se) questiona.

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